Revista Rua

Claúdia Sil

O ‘faz de contas’ e a quietude do ser

Texto: Claúdia Sil |

Um terço é uma terça parte de um Rosário. Um Rosário é um conjunto de 150 orações.
Usa-se um fio com 50 contas e vai-se recitando, por determinada ordem, até terminar.
Isto faz um cristão, incluindo os ortodoxos. Na Índia usa-se uma Japamala (‘japá’ significa repetição e ‘mala’ cordão ou colar) com 108 lindíssimas sementes do fruto azul cobalto da árvore-de-contas (Elaeocarpus ganitrus) e um ‘meru’, conta central que marca o princípio e o fim do ciclo de meditações com o objetivo de atingir um estado de consciência designado por transcendental. Um budista usa um Odyuzu, que significa determinação, que contém 108 contas representando as 108 paixões ou imperfeições mundanas e mais quatro adicionais de cor diferenciada num intrincado esquema de franjas e borlas. No Islão usa-se o Masbaha, também designado por terço árabe ou terço do Islão, de 33 ou 99 contas subdivididos em grupos de 11 e uma conta adicional, a conta mestre, que não se pronuncia por representar o nome indizível de Deus. Os judeus, embora não usem contas, fazem uso de vestuário especial para as orações que contém quatro séries de fios e nós, totalizando 613, que representam o número de mandamentos a que estão sujeitos. A leitura dos 150 Salmos, assim como outras orações, é realizada num movimento de balanceio do tronco.
O que daqui se infere é que não há cultura ou religião do mundo, incluindo as indígenas africanas e americanas existentes ou extintas, que não tenha identificado o benefício pessoal retirado da prática de meditação. É transversal que há uma relação entre o número de repetições de uma dada mensagem e o seu murmúrio com a obtenção de um estado de espírito de tranquilidade e quietude. Os números utilizados não são ocasionais e estão profundamente relacionados com a capacidade que temos de nos reprogramar. Frustração, depressão, tristeza são registos que podem ser, se não totalmente melhorados, pelo menos atenuados por estas práticas desde que seja totalmente compreendido o seu objetivo. Já diziam, no outro tempo, que em Fátima, Nossa Senhora disse aos Três Pastorinhos que “não há problema de ordem pessoal, familiar e nacional que a oração do Terço não possa ajudar a resolver”. Quanto à resolução dos problemas de ordem nacional tenho as minhas dúvidas que exista algo que os resolva; quanto ao resto, o melhor é indagar e começar por visitar a exposição itinerante Contas de Rezar oriunda da coleção particular de Júlia Lourenço que reúne peças provenientes de todo o mundo e estará patente no Museu dos Biscainhos, em Braga, até ao dia 26 de fevereiro de 2017.