Revista Rua

João Palhares

Os anos oitenta (III)

Texto: João Palhares |

    Apesar de terem sido associados às doutrinas de Ronald Reagan e muito criticados por supostamente defenderem valores antiquados e descabidos, vistos hoje, muitos dos filmes interpretados ou realizados por Sylvester Stallone nos anos oitenta resistem a essas críticas por darem um passo em frente na descrição e na exaltação do sonho americano. Igor Stravinsky disse, falando de música (mas podia estar a falar de literatura, pintura, escultura, ou de cinema), que para se avançar e progredir numa arte era preciso ter a tradição enraizada em nós, sem repetir as fórmulas do passado, mas entrando antes num jogo de diálogos permanentes entre passado e presente para chegar à fórmula do futuro. Stallone, talvez por ter vivido de trocos e favores de amigos durante os anos sessenta e setenta, erigiu a saga Rocky num ato perfeitamente lúcido que se distanciava das políticas contemporâneas reinantes por mostrar um percurso individual, na personagem de Rocky Balboa, que se confundia com o seu próprio percurso de tentativas atrás de tentativas para vender o seu guião aos manda-chuvas de Hollywood. Associa-se isto a Frank Capra, não porque Capra fosse capaz ou quisesse sequer realizar filmes assim, que não era nem queria, fazia outros filmes, mas porque há uma tentativa de transformar os ensinamentos e o trabalho dele e doutros realizadores noutra coisa, diluída de forma a questionar e abordar os problemas e as formas contemporâneas. Pode-se dizer o mesmo de Sam Peckinpah em relação a Howard Hawks, de Michael Cimino em relação a John Ford, etc.

    Falar hoje de Sylvester Stallone nestes termos talvez faça estremecer as convicções de certas elites culturais bem teimosas e decididas nas suas preferências bem polidas, refinadas e arrumadas nas gavetas respetivas. Ainda bem, porque às vezes defendem e exibem autores que avançam no vazio com a caução da sua imaginação delirante, mas que não conseguem fazer nada que não seja banal e nos queira enganar com a sua ostentação. Para eles fica o recado e a provocação: aos melhores filmes de Lars von Trier, Alexander Payne, Michael Haneke, Miguel Gomes, Edgar Pêra, Sion Sono, Alejandro González Iñárritu e Todd Solondz oponham-se os piores de Sylvester Stallone. É a diferença entre o que há de desaparecer um dia, finalmente reduzido à sua insignificância, e o que fica como ponte de diálogo infindável com novos filmes e gerações futuras, passado sempre presente.

    

*O Lucky Star – Cineclube de Braga exibe, nas terças-feiras de março, The Sicilian, de Michael Cimino (dia 7), Running on Empty, de Sidney Lumet (dia 14, com apresentação em vídeo por José Lopes), Do The Right Thing, de Spike Lee (dia 21, com apresentação em vídeo por Carlos Nobre – a.k.a. Carlão a.k.a. Pacman) e Gremlins 2: The New Batch, de Joe Dante (dia 28, com apresentação em vídeo por Manuel Pinto Barros).