Revista Rua

2018-09-25T17:22:20+00:00 Histórias

À descoberta da Peneda-Gerês

Um roteiro pelos encantos do Parque Nacional
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira4 Junho, 2018
À descoberta da Peneda-Gerês
Um roteiro pelos encantos do Parque Nacional

São paisagens naturais com o poder de cativar miúdos e graúdos, são registos patrimoniais que nos transportam para tempos idos e são aventuras à espreita em cada cascata ou lagoa que nos encaminha por trilhos que, com tanto turismo, nos pede cuidado e preservação. O Parque Nacional da Peneda-Gerês é um paraíso com zonas quase intocadas pela mão humana, uma mão que em grande parte das zonas envelhece em silêncio. A RUA foi descobrir um Gerês autêntico, dos locais mais conhecidos aos mais remotos, encontrando pelo caminho muitas razões para uma visita quando o verão começa a bater à porta.

Com uma imensidão deslumbrante, o Parque Nacional da Peneda-Gerês possui ecossistemas ricos e pouco alterados pelo Homem, fazendo destes 70 mil hectares distribuídos por cinco concelhos (Melgaço, Arcos de Valdevez, Ponte da Barca, Terras de Bouro e Montalegre) um destino de interesse turístico. As lagoas e cascatas são a imagem postal mais característica desta área protegida, mas há muito mais vida por descobrir. Com a máquina fotográfica ao ombro, sapatilhas nos pés e água na mochila, fomos percorrer um refúgio natural, encontrando muitas histórias pelo caminho.

Começámos esta viagem por Terras de Bouro, nas paisagens mais conhecidas do Parque Nacional. Com a albufeira da Caniçada, junto a Rio Caldo, como presente de boas-vindas, seguimos caminho para Vilar da Veiga, a freguesia conhecida pelas suas cascatas – a Cascata do Arado e a Fecha de Barjas (comummente conhecida por Cascata do Tahiti). Estas cascatas são muito procuradas por turistas, mas convém desde já referir que não são de acesso fácil. Rumo às cascatas, encontrámos a aldeia comunitária da Ermida. Aqui, num sossego quase perpétuo, a vida vai-se apagando aos poucos, dando-nos liberdade para circular sem que ninguém nos interpele, mesmo não sendo essa a nossa intenção. António Landeira tem 91 anos e foi das poucas pessoas com quem conseguimos conversar neste dia. “No meu tempo havia cá muita gente, mas agora somos poucos”, disse-nos. O seu filho, Domingos Landeira Gonçalves, confidencia-nos também que “as pessoas mais novas fogem”, referindo a dureza do trabalho da terra e da construção civil, principais meios de subsistência da Ermida. Já Maria Costa Pereira, de 79 anos, conversa connosco enquanto estende a roupa ao sol, um sol que com ele traz vida à aldeia que, ainda hoje, vive em função da boa vontade e da troca de trabalhos entre vizinhos. “O turismo é bom! Agora, por altura do verão, começam a aparecer por aqui mais pessoas e isso é bom porque veem as nossas coisas, falam connosco, comem aqui…”, conta-nos Maria, destacando um dos principais conselhos que podemos deixar ao turista: conheça os habitantes locais e descubra as raízes do Gerês pela voz de quem lá vive, todo o ano.

Voltámos à estrada, desta vez rumo a um dos miradouros que mais deslumbrante vista sobre a Serra do Gerês possibilita: o miradouro da Pedra Bela. Com “uma paz de falcão na sua altura/a medir as fronteiras”, como escrevia Miguel Torga, este local é de visita indispensável.

Seguindo o rumo que o mapa nos sugere, encaminhámo-nos para Portela do Homem – que também tem uma belíssima cascata -, passando pela Portela de Leonte, pela densa e fresca Mata da Albergaria e vislumbrando a via romana (Geira). Este é um circuito bastante conhecido, mas sugerimos ainda a passagem pela Porta do Campo do Gerês, onde poderá ter acesso a todas as informações relevantes sobre esta área.

O que são as Portas do Gerês?

São centros de receção e informação localizadas nas entradas do Parque Nacional. Existem cinco: em Lamas de Mouro (Melgaço), no Mezio (Soajo), em Lindoso (Porta do Castelo de Lindoso), no Campo do Gerês e em Montalegre (Porta de Montalegre).

Que atividades posso fazer na zona da Vila do Gerês?

Existem já várias empresas de animação turística sediadas na área de Vilar da Veiga ou Vila do Gerês. A Lobo Tours é apenas uma delas. Nos planos de atividades disponíveis, realizadas sempre acompanhadas por profissionais qualificados, encontram-se os passeios de jipe (rota dos miradouros e cascatas e o passeio das Sete Lagoas, de duração média de quatro ou cinco horas), de Citroen 2 cv (é um passeio num clássico de 1975), os passeios pedestres (com várias rotas disponíveis, desde seis a 20 quilómetros, tendo a duração de quatro ou oito horas) e o canyoning (um desporto que consiste na exploração progressiva de um rio, transpondo os obstáculos verticais e anfíbios, numa duração média de quatro horas).

Onde posso comer?

A Adega do Ramalho, em Vilar da Veiga, é um recanto tradicional onde pode saborear a tipicidade do Gerês. Com o nome inspirado no escritor português Ramalho Ortigão, usuário das termas, este restaurante está aberto durante todo o ano.

Devo conhecer ainda:

O Santuário de São Bento da Porta Aberta localiza-se na freguesia de Rio Caldo e teve a sua origem em 1615. É um local que permite o culto religioso, sendo o destino de muitas peregrinações por altura do verão (principalmente na grande romaria de agosto).

A grandeza de um paraíso

O Parque Nacional da Peneda-Gerês é, verdadeiramente, muito grande e a realidade que vemos na zona de Vilar da Veiga e Campo do Gerês não é a mesma que encontramos nas restantes áreas, cada vez mais isoladas e com menos movimentação turística. Mesmo assim, já existem alguns projetos de intervenção que visam a promoção do destino e o desenvolvimento de atividades de natureza atrativas. Para nos explicar melhor esta realidade, encontramo-nos com Isabel Sousa, uma das responsáveis do projeto Explore Iberia, com um vasto currículo ligado às ações de turismo de natureza. Formada em Turismo, Isabel trabalha como guia, planeando circuitos e programas de visita turística para, principalmente, interessados estrangeiros. Tendo já passado pela Adere Peneda-Gerês, uma entidade focada no desenvolvimento de projetos financiados com o intuito de contribuir para a melhoria das condições de vida das populações residentes e para a valorização e conservação do território, Isabel foi a mentora do projeto Go2Nature, uma agência de viagens especializada em turismo da natureza, onde criou pacotes turísticos. Podemos assumir, com base nesta apresentação, que Isabel conhece o Parque Nacional como a palma das suas mãos. “É um parque muito especial por ser tão diverso e tão vasto. É realmente difícil conseguir atribuir uma identidade simples ao Parque porque estamos a falar de uma área que se estende de Castro Laboreiro até Montalegre, áreas com comunidades muito diferentes. Até a própria geografia faz com que a paisagem e as aldeias sejam muito distintas. Penso que é essa diversidade concentrada que caracteriza o Parque e o torna tão fascinante!”, diz-nos Isabel, deixando-nos uma mensagem pertinente para o leitor: “o turismo de natureza está a despertar muito interesse, mas, ao mesmo tempo, a parte da conservação não”, assume a guia, tentando apelar à consciência do potencial turista.

Cascata do Arado, Vilar da Veiga

De mapa na mão, começámos então a explorar os recantos menos conhecidos do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Recomendamos ao leitor que, antes de começar a aventura por trilhos pedestres, se informe do estado dos percursos junto do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). Contudo, as sugestões que daremos de seguida são seguras e arrebatadoras.

Iniciámos na Serra da Peneda, junto ao Soajo, em Arcos de Valdevez. A Lagoa do Poço Negro é a nossa primeira recomendação. Depois, na Gavieira, há um trilho simples, perfeito para quem quer descobrir a diversidade da paisagem porque percorre o vale, sobe a São Bento do Cando e passa por brandas. Chama-se Pertinho do Céu e fica junto a um rio, que convida a banhos, mas sempre com cuidado.

Em descoberta da Serra da Peneda, fomos em busca do rio Laboreiro, onde também existem cascatas imperdíveis. Na vila de Castro Laboreiro, depois do Núcleo Museológico, existe um miradouro que permite obter uma vista maravilhosa sobre a paisagem de rio e cascatas. Sugerimos ainda a caminhada pelo Trilho Castrejo, o primeiro a ser marcado no Parque. É um trilho de 17 km, com muita diversidade e, alcançando a Ponte Cava da Velha, é muito fácil chegar ao rio para se refrescar. Convém ainda referir a aldeia de Pontes, perto de Ameijoeira, onde um projeto de turismo tem transformado o espaço rural, recuperando as casas e mantendo a traça original. Seguindo caminho, pela estrada que termina em Ribeiro de Baixo, um local bastante remoto, encontrámos aquela que é apelidada como a ponte internacional mais pequena de Portugal – uma autêntica tábua. Os campos de cultivo da aldeia encontram-se do lado espanhol e, por isso, existe uma mini ponte que permite a passagem para o outro lado.

Na Serra da Peneda, não deixe de visitar o Santuário da Peneda e o Santuário do São Bento do Cando. O Lago da Peneda dispensa apresentações e merece uma visita.

Pisando a Serra Amarela

Junto à Porta de Castelo do Lindoso, Parada é um local de paragem obrigatória para descobrir o Poço da Gola, uma cascata fácil de alcançar. Aqui também existe um núcleo de espigueiros, mas nada comparado com o imponente núcleo de Lindoso. Há também uma aldeia chamada Ermida nesta zona da Serra Amarela, com forte atividade agrícola e uma vista espetacular para todo o vale do Lima. A nossa recomendação é que não deixe de visitar a zona do vale do rio Froufe e Carcerelha, um dos spots preferidos dos amantes de canyoning. As lagoas e cascatas na zona de Lourido são também de visita apropriada.

No entanto, Germil é um olimpo que se abre aos nossos olhos à medida que percorremos a estrada de montanha muito estreita. Em forma de V, encaramos facilmente o antigo Fojo do Lobo, mas as silhas dos ursos, também aqui existentes, são mais difíceis de detetar sem a ajuda de um guia turístico. O trilho de Germil, com uma duração média de três horas, é um dos mais bonitos do Parque, permitindo uma caminhada por áreas de aldeia, bosque e água.

O Planalto da Mourela, no coração de Montalegre

Pitões das Júnias e a sua cascata é talvez o ex-libris desta zona, mas a verdade é que há muitos mais recantos de beleza única para descobrir no lado transmontano da Serra do Gerês. Começámos pelas Sete Lagoas, perto de Xertelo, junto ao rio Cabril, mas aqui os cuidados devem ser redobrados devido aos acessos condicionados. A nossa recomendação é pedir ajuda a alguma empresa turística local que conheça bem a área.

A aldeia de Cabril, onde recentemente se dinamiza um projeto chamado Cabril Eco Rural (principalmente com ações que instigam o turismo de natureza responsável), tem um encanto imperdível, mas não deixe ainda de descobrir Sirvozelo, Outeiro e Paredes, também aldeias bastante formosas. No extremo do Planalto da Mourela, a aldeia de Tourém também merece integrar os seus planos de viagem.

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