Revista Rua

2018-06-08T17:38:50+00:00 Opinião

A Outra Casa de Gengibre

Arquitetura
Tiago Do Vale
Tiago Do Vale
4 Junho, 2018
A Outra Casa de Gengibre

Como disciplina, a arquitetura ambiciona transformar o mundo natural num ideal humano. Esta metamorfose da imprevisibilidade da natureza em “Resistência, Funcionalidade e Beleza” vitruvianas tem sido um dos seus desígnios centrais desde sempre: é uma das motivações humanas mais elementares, da cabana às cidades.

No entanto, para criar estes extraordinários ecossistemas humanos pagou-se sempre o preço do sacrifício dos ecossistemas naturais: o impacto arquitetónico não acontece sem impacto ambiental.

Apesar desta obsessão ancestral de transformação do mundo, o conceito de sustentabilidade em arquitetura tornou-se pedra angular nas últimas décadas do século XX e foi evoluindo em direção a uma definição holística de “minimização do impacto ambiental dos edifícios”.

Para além do seu efeito na ecologia do lugar, a construção de um edifício requer centenas de produtos que, eles próprios, são compostos por elementos provenientes de milhares de locais de todo o mundo. A produção de cada um desses elementos individuais tem um impacto no seu ambiente natural.

É, portanto, uma definição simples, mas que toca um efeito planetário.

No entanto, entender a sustentabilidade como uma “minimização” é insuficiente para o futuro: a sustentabilidade não pode ser apenas a medida de quão “menos mau” um edifício é. Embora o efeito de um único edifício possa não ser de grande consequência para o ambiente, os efeitos cumulativos são devastadores.

Apesar da sociedade pagar o preço escondido da construção negligente, não é responsabilidade da sociedade mudar a prática dos arquitetos. Essa obrigação pertence aos arquitetos.

“Apesar da sociedade pagar o preço escondido da construção negligente, não é responsabilidade da sociedade mudar a prática dos arquitetos. Essa obrigação pertence aos arquitetos”

A Humanidade evoluiu, durante centenas de milhares de anos, no contexto do ambiente natural: centenas de milhares de anos em que a nossa espécie prosperou naquilo que a natureza lhe ofereceu.

Mesmo estando hoje quase completamente conformados pelo espaço construído, continuamos a procurar a natureza e retiramos do contacto com o ambiente natural claros benefícios físicos e mentais.

É inquestionável que a ligação com a natureza potencia o bem-estar e a saúde das pessoas: mesmo a presença visual de uma árvore é notoriamente capaz de diminuir os níveis de stress de quem habita o ambiente construído.

Estamos obrigados a uma radical mudança de paradigma que deve aceitar a natureza como ponto de partida, como geradora de arquitetura, que utilize os sistemas naturais existentes no local como matéria de projeto e que se inspire na engenharia de milhões de anos de evolução: a inclusão do lugar na arquitetura, da natureza presente, dos materiais locais e do potencial climático do sítio é a única forma de produzir edifícios sustentáveis.

Recordando W.G. Clark, “a qualidade mais importante da arquitetura é a forma como se relaciona com um lugar na Terra e como o dignifica. É por essa razão que a arquitetura que mais admiramos, seja ela o produto de um indivíduo ou de uma civilização, é aquela que foi construída com um sentido de pertença e de lealdade à paisagem natural”.

Sobre o autor:
Arquiteto pela Universidade de Coimbra, vencedor do American Architecture Prize 2017 e do Building of The Year Awards 2014. O seu trabalho pode ser consultado em www.tiagodovale.com

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