2018-05-07T21:25:28+00:00 Cultura, Teatro

A Outra Voz de Guimarães

Maria Inês Neto
Maria Inês Neto7 Maio, 2018
A Outra Voz de Guimarães

A Outra Voz é um projeto de criação artística que perdura há oito anos em Guimarães e que tem vindo a traçar um caminho de exigência, rigor, informalidade, convivência e harmonia no mundo da arte. Resulta da participação de um grupo da comunidade, constituído por grupos de ensaios regulares que são distribuídos por cinco freguesias do concelho: a Casa do Povo de Briteiros, ADCl de São Torcato, Junta de freguesia de Pevidém, Academia de Bailado de Guimarães e Junta de Freguesia de Lordelo. Aqui o foco não é o profissionalismo enquanto atores nem na procura de participantes que trabalhem no ramo da arte, mas antes na construção de uma rede comunitária de entreajuda, um ponto de encontro entre pessoas com diferentes experiências e que juntas possam produzir um resultado interessante. “A grande diferença entre fazer um trabalho com profissionais e um trabalho com amadores, que apesar de tudo já têm alguma experiência no campo, é que quando se trabalha com profissionais é possível centrar aquilo que se faz única e exclusivamente nas nossas ideias, enquanto encenadores, e neste caso é preciso conhecer as pessoas, saber qual é o imaginário delas, porque é que fazem o que fazem”, comenta o encenador José Eduardo Silva. A base da criação deste projeto artístico assenta na procura em conjunto das respostas a estas questões, perceber em que momento cada membro participante pode ser útil e contribuir com as suas vivências. “Eu vim parar à Outra Voz em 2013 e não tenho nada a ver com teatro nem com a música, apenas fui-me adaptando, também porque estou reformado e é uma forma de sair de casa e conhecer outras pessoas”, afirma Jorge, um dos membros da Outra Voz. Em conversa com alguns dos integrantes do projeto é possível perceber a vontade comum de um grupo de pessoas com idades distintas, e com as mais diversas ocupações, em se reunir para produzir algo de interesse para a comunidade. “Eu nunca imaginei que um dia iria estar em palco. Nunca pensei que o nosso grupo fosse capaz de fazer as coisas que faz, trabalhar com que trabalhamos ou chegar onde chegámos”, comenta Gorete, membro do grupo.

O projeto nasce em 2010 com o intuito de se apresentar como uma iniciativa para a Capital Europeia da Cultura 2012 e com o objetivo de dar posteriormente continuidade ao mesmo. “Depois de acabar a Capital Europeia da Cultura 2012, o projeto automatizou-se. Os participantes deste grupo, que é composto por uma centena de pessoas, tinham capacidades de produção, outros de contabilidade e então formamos uma associação”, comenta o diretor artístico, Carlos Correia. O que mantém este grupo ativo durante quase uma década é certamente a vontade comum de um conjunto de participantes que se reúne em torno da construção de algo, seja um espetáculo ou um evento. “Não é um coro, não é um grupo de teatro, não é um grupo que faz performances, mas é um grupo que faz espetáculos e explora a voz”, comenta o José Eduardo Silva. Esta iniciativa artística parte de uma experimentação vocal, do trabalho do corpo e da voz em torno do sentido de dar outras dinâmicas diferentes à voz humana. “Nós não interpretamos os dois fenómenos como coisas isoladas, mas antes como um todo e encaramos a voz humana como um músculo. O corpo e a forma como este se distorce pode ser aproveitado como diversas qualidades daquilo que é uma voz humana. Não é propriamente aquele exercício de cantar de uma forma retilínea, mas aproveitar os movimentos para dar outras dinâmicas à nossa voz”, comenta Carlos Correia.

O Outro de Nós tem estreia marcada para dia 26 de maio no grande auditório do Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, e é um espetáculo que vai de encontro ao caráter artístico da Outra Voz no sentido de juntar um grupo heterogéneo com vivências distintas e trazer para o palco experiências pessoais. “Eu não conheço nenhum projeto semelhante sequer a este”, comenta José Eduardo Silva, o encenador. “É preciso centrar aquilo que se faz nas pessoas e perceber com elas o que é que querem fazer ou porque é que decidem juntar-se em grupo para cantar. Sair da linha em que todos os cidadãos são mais ou menos colocados enquanto consumidores de alguma coisa, inclusivamente de cultura e de bens culturais. Aqui o caso é o contrário. É conseguir encarar os cidadãos, não como consumidores, mas como produtores de cultura, da sua própria cultura”, continua José Eduardo Silva. Os ensaios duram há cerca de um ano e meio e acontecem com uma regularidade mensal, num ensaio de três horas, para facilitar a presença de todos. O espetáculo parte da inspiração literária de Raul Brandão, mais concretamente no seu livro O Pobre de Pedir, uma ficção alusiva à mortalidade e àquilo que rodeia o ser humano, e ainda nas vivências pessoais de cada um. “Fizemos uma recolha de memórias auditivas, sonoras, ligadas a tradições de sítios e às lógicas destas zonas marcadas pelo núcleo urbano. São pessoas que atravessaram várias gerações, temos pessoas que viveram no tempo do fascismo, que foram à Guerra Colonial, viveram a Revolução do 25 de Abril, e que trabalharam em milhentas ocupações”, aponta José Eduardo Silva. O ponto inicial do Outro de Nós foi a passagem de Raul Brandão para as memórias reais de cada um e, a partir daí, impulsionar a construção de uma peça através do diálogo e discussão entre o grupo.

Quando questionado acerca do futuro de a Outra Voz, o diretor artístico, Carlos Correia, partilha o interesse de circular este próximo espetáculo por outras cidades do país e ainda a vontade de apresentar de uma forma mais orgânica e natural a mesma peça nas freguesias que fazem parte da associação. “No futuro haverá a edição do nosso álbum, que são recolhas do repertório da Outra Voz, existe também a vontade de tornar este próximo espetáculo, O Outro de Nós, em produto de DVD e ainda a ideia de criar com diferentes parcerias um repositório em que possamos disponibilizar tudo o que são as nossas recolhas de músicas e histórias e permitir o acesso de outros artistas”, termina Carlos Correia.

Fotografia: Nuno Sampaio