Revista Rua

2018-10-02T14:01:49+00:00 Opinião

A química de cada um

Palavras
Paulo Brandão
Paulo Brandão
2 Outubro, 2018
A química de cada um

O amor é como um afogamento. Ou afundamos de vez ou reclamamos o ar. Não há meio termo. Não há como escolher.

O coração pode não ser a origem dos nossos sentimentos, mas é altamente afetado por eles. O medo, o luto, as paixões assolapadas, um terramoto, podem causar sérios danos cardíacos. Dizem os médicos que os nervos que controlam o batimento do coração podem mesmo desencadear uma resposta inconveniente, fazendo-o galopar, causando danos ao corpo do seu portador.

É cada vez mais claro que os nossos corações são sensíveis ao nosso sistema emocional. Quando há um rompimento romântico o coração fica enfraquecido. O epicentro parece ser a cabeça, que de tanto pensar e pesar parece esfumar-se, mas o coração, que bombeia o sangue para todo o lado, pode modificar a sua estrutura e alongar-se para cativar o polvo de emoções que a realidade dita.

Há mesmo um problema cardíaco, descrito pela primeira vez por médicos japoneses, chamado “cardiomiopatia Takotsubo” ou síndrome do “coração partido”, em que o coração enfraquece em resposta ao stress ou luto extremos, como o que podemos experimentar após um rompimento romântico ou a morte de um cônjuge. Os pacientes, quase sempre mulheres, desenvolvem sintomas que “imitam” os de um ataque cardíaco. Eles podem desenvolver dores no peito e falta de ar, até mesmo insuficiência cardíaca congestiva. Num ecocardiograma, o músculo cardíaco frequentemente toma uma forma distinta, que se assemelha a um pote japonês de captura de polvos, com uma base larga e um pescoço estreito chamado “Takotsubo”.

Estarmos apaixonados e em paz, numa vida sem grandes oscilações emocionais, parece proteger o coração e o corpo de cada um. A ansiedade, o stress, a raiva, o ódio, todas essas coisas eminentemente humanas, devem ser evitadas como as altas ondas do mar.

Embora não saibamos exatamente porque isso acontece, o síndrome geralmente resolve-se em algumas semanas. No entanto, no período agudo, pode causar insuficiência cardíaca, arritmias com risco de vida e até a morte. Os primeiros estudos sobre essa condição foram feitos em vítimas de traumas emocionais ou físicos que pareciam não morrer das lesões, mas de causas cardíacas. As autópsias mostraram sinais reveladores de lesões cardíacas e morte celular.

Há outros casos bem mais violentos de mulheres que, expostas à dor terrível da separação, entram em coma temporário, protegendo de forma “sinistra” o seu corpo exposto à guerra e à deslocação geográfica. Mas porque só as mulheres? O que há de tão diferente nos seus organismos comparativamente ao dos homens?

Aconteceu na Suécia, onde jovens oriundos de países soviéticos ou da antiga Jugoslávia, ao serem informados de que os seus pedidos de asilo foram negados, entraram num estado de apatia profunda, semelhante a um coma. Deram-lhe o nome de “Uppgivenhetssyndrom” ou síndrome de Resignação, problema que parece ter qualquer coisa de mimético, ou seja, falar dele e conhecer os sintomas pode causar um efeito dominó, o que nos revela o poder da mente.

Assim, estarmos apaixonados e em paz, numa vida sem grandes oscilações emocionais, parece proteger o coração e o corpo de cada um. A ansiedade, o stress, a raiva, o ódio, todas essas coisas eminentemente humanas, devem ser evitadas como as altas ondas do mar. Afogar os nossos corpos no outro, respirar uma sociedade com o oxigénio certo para a amizade, o amor, a empatia e a qualidade de vida é um trabalho diário. Quando alguém é operado ao coração, só vemos carne, veias, sangue e outros líquidos. Não estão lá os sentimentos. Nenhum cardiologista encontra o amor num coração aberto. Mas a ciência sabe que, sem ele, mirramos e deprimimos. Que coisas estranhas acontecem aos nossos corpos. Não há meio termo. Não há como escolher. Sejamos, por isso, na possibilidade diária da química de cada um, parceiros felizes.

Sobre o Autor:
Diretor artístico do Theatro Circo.

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