Revista Rua

2018-08-06T11:40:10+00:00 Opinião

A rapariga de Estocolmo

Palavras
Paulo Brandão
Paulo Brandão
6 Agosto, 2018
A rapariga de Estocolmo

Ela foi a Estocolmo.

Contou-me tudo com candura. Que ali, naquela praça, onde agora estávamos sentados, conhecera um jornalista um pouco mais velho que ela e que tinha sido por ele que tinha ido a Estocolmo. Que ele tinha o mesmo nome que eu e que ir a Estocolmo lhe daria a distância precisa para descobrir se estava certa naquele seu desejo de estar com ele todos os dias. De viajar em permanência sem nunca ter lar. Esse sentimento que lhe dividia o corpo em dois. Assim, em duas ou três horas, embora estivesse ali a falar comigo, ela estava em Estocolmo. Entrava no Oscarsteatern com os olhos dela, claro, que eram os dele, supomos. Subia as escadas em direção ao camarote com as suas longas pernas que eram as dele. Depois de sentada, fotografava-se na pose do que os olhos dele queriam ver. Tudo isso, ela sabia que não era certo, que aquele amor que a prendia estava errado, pois romanticamente ele não podia ter os olhos dela. Na vida, os olhos dele haviam como que desistido de ir. E, sobretudo, não a transportavam para lado nenhum.

No dia em que aterrou, a rapariga de Estocolmo escreveu ao jornalista.

“Sabes, o que me torna mágica és tu. A primeira vez que te vi pensei em Estocolmo. No frio ilusório que chegou até mim vindo de ti. Naquele tremor que partiu do centro de mim, inchou os meus peitos e na minha boca libertou a saliva. Por isso, estou aqui. Pés na lama. O sol raso a bater-me nos olhos. Não é fuga. É algo muito mais longínquo”.

A rapariga de Estocolmo, ao contrário do jornalista, não tinha medo do sol. Temia a água fria. A neve em estado bruto. As mesas de mármore. Recusava, até, as pedras de gelo necessárias ao whisky. Quando miúda, fervia a água da banheira, ligava o aquecimento e deixa-se desmaiar naquele calor imenso. A água até ao pescoço, a visão turva. Era uma imagem que lhe lembrava a mãe, preocupada com as suas febres constantes sem estar doente, com as queimaduras que, de tempos a tempos, lhe descobria nos braços, cada vez mais vastas e fundas. Coisa que só terminou quando adolescente, no dia em que a água da banheira ficou num vermelho vivo, quase da cor do coração, como uma veia que desse órgão descesse até à vulva, preparando-a para o amor, naquele fluxo selvagem que nenhuma mulher domina.

Por alguns momentos, naquela praça, temi pela rapariga de Estocolmo. A lista de viagens que guardava desde a infância, essas fascinações infantis do tamanho de um polvo gigante, essa massa de terra onde o sol não jaz, pelo menos na cabeça dela, estava ainda por cumprir e ardia nas suas mãos. O jornalista, esse, não temia pelo seu afastamento. Tinha mulher e filhos e uma vida tão livre como o cabelo dela. Por vezes, desenhava girassóis que espalhava pela casa de família. Imaginava que, assim, o sossego voltaria à sua cabeça em ebulição e a rapariga de Estocolmo voltasse a ser una. Por agora, tudo ainda fazia sentido. Nessa praça bonita tão aventurosa em que a dor não tem lugar.

Sobre o Autor:
Diretor artístico do Theatro Circo.

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