Revista Rua

2018-11-07T17:23:04+00:00 Opinião

A sombra dum programador cultural

Música
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
6 Novembro, 2018
A sombra dum programador cultural

Neste mês vou escrever sobre um tema que pessoalmente me diz bastante. Vou-vos falar sobre aquela figura, aquela pessoa, aquela sombra que muitas vezes, quase sempre, ninguém sabe quem é. Vou-vos falar sobre o programador cultural.

Quando vamos a um restaurante e somos bem servidos, muitas vezes, queremos saber quem é o chef. Ou antes ainda, vamos a determinado restaurante porque o chef já ganhou uma estrela Michelin e tal, e vamos ver o que há de tão especial ali. O chef de cozinha consegue, por si só, encher uma casa. Da mesma forma, vamos a determinado bar porque está lá um DJ que sabemos que vai passar boa música; ao nosso gosto.

Ora, um programador cultural é aquele que trabalha para nos dar os melhores “pratos”, daqueles que nos enche a alma e o espírito. É aquele que faz a melhor playlist de eventos para ficarmos a conhecer ainda mais. É aquele que tem um trabalho de sombra e quase sempre solitário, de apostas interiores, que podem sair ao lado, que podem não cumprir com o objetivo. Porém, ao contrário do chef ou do DJ, pouca gente sabe ou procura saber quem é o programador cultural. A sombra, continua a ser isso mesmo nos dias que correm, e talvez esta falta de consciência – nem chega a ser desinteresse – parta de quem mais devia lutar para que houvesse um holofote bem presente na figura do programador cultural: a classe política.

“O simples facto de ir no carro, como me acontece muitas vezes, a ouvir um disco de música e sentir a necessidade de mudar para a rádio para ouvir o que há por aí de novo, é ilustrativo deste trabalho de casa constante que se procura ter e fazer”

Para que não haja mal-entendidos ou dúvidas: eu sou programador cultural entre outras coisas, porém, não é dum caso isolado que falo, nem do meu. É dum cenário generalizado. Por exemplo, em França vamos a um teatro e o nome do programador cultural/diretor artístico está bem presente no cartaz. O nome de quem arruma a casa está bem presente e é dado a conhecer a todos. Em Portugal, interessa mais se a casa encheu neste ou naquele concerto, se a bilheteira fez mais neste mês que no mês passado e o sucesso é pautado assim: com números. Há algo mais errado do que isto? Há algo de mais errado do que avaliar a cultura e a arte com base numa conta de somar? Enquanto se soma para quantificar o sucesso dum evento, subtraem-se as partes mais importante que a arte tem: a de dar a conhecer, a de educar, a de quebrar mentalidades, a de nos tocar e colocar em confronto com o mundo, de nos fazer questionar, de nos tocar na alma, literalmente. Tudo isso não entra nas contas de tesouraria e o valor é bem maior que a soma de notas. Aqui em Portugal, por exemplos que ainda agora se vão vendo, ainda não se percebeu isso.

Além do trabalho solitário que é a preparação duma agenda, da pressão que se coloca sobre si mesmo, da expectativa de resultados, quase apetece dizer que um programador cultural está em constante “modo TPC”, é aquele que está constantemente à procura do novo, da atualidade, que para para pensar, para procurar, para não cair na repetição, que se procura adequar ao que a realidade representa nos dias de hoje. O simples facto de ir no carro, como me acontece muitas vezes, a ouvir um disco de música e sentir a necessidade de mudar para a rádio para ouvir o que há por aí de novo, é ilustrativo deste trabalho de casa constante que se procura ter e fazer. É aqui, ao aprender, ao conhecer, que ganhamos o gosto e a vontade por mostrar e dar a conhecer. A democratização da arte e da cultura depende da partilha de conhecimento e quem melhor do que um programador cultural para partilhar esse conhecimento?

Sobre o Autor:
Signo escorpião, sei informática na ótica do utilizador, programador do espaço cultural Banhos Velhos e sou um eterno amante de música, do cinema e do Sozinho em casa.

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