Revista Rua

2018-07-02T08:05:01+00:00 Opinião

.afinal, quem és tu?.

A CIVILIZAÇÃO DO ESPECTÁCULO
Cátia Faísco
Cátia Faísco
2 Julho, 2018
.afinal, quem és tu?.

No mês passado, estreou Abstinência de Purpurina, um espectáculo que escrevi para a actriz Roberta Preussler. A peça, que gira à volta das questões da autoficção, debate alguns temas que são tão importantes para mim quanto para a Roberta. Mas, como vocês ainda vão ter tempo para ver a peça quando estivermos no Porto, em Setembro, há apenas um que quero discutir aqui convosco: sermos ou não sermos interessantes para alguém.

A certa altura da peça, a propósito de uma colega da faculdade com quem ela se cruzou e fingiu não a conhecer, a actriz diz: “quem não é interessante, você não conhece, sacou?”.  Creio que todos nós já tivemos um desses momentos na vida. Alguém do nosso passado, que não vê em nós a importância do reconhecimento e que passa sem dizer um olá. É certo que, por vezes, há aquele constrangimento do “ah, e tal, nem sabia o que é que lhe havia de dizer!”. Mas, também é certo que, nas outras vezes, é só uma questão de simplesmente acharmos que aquela pessoa já não é importante para a nossa vida.

O meio artístico consegue ser bastante ilustrativo deste tipo de situações. Ouço, uma e outra vez, que se queremos ser alguém, há artistas que convém conhecer. Então, somos capazes de passar por uma pessoa que fez uma formação qualquer connosco e nem sequer lhe dirigirmos a palavra. Mas, exactamente do lado oposto, está um/a encenador/a com quem queremos mesmo trabalhar e, ainda que só nos tenhamos cruzado brevemente com ele/a, fazemos questão de ir dizer um olá.  E depois há a versão do/a encenador/a que, provavelmente, ficou uns minutos a tentar perceber quem é que somos e outros tantos a tentar despachar a conversa porque rapidamente se apercebeu que não éramos “alguém” significativo.

Recordo-me de uma pessoa que mal me falava e quando descobriu que eu escrevia para teatro e que iam ler um texto meu, veio a correr ter comigo e disse: “Por que é que nunca me disseste que escrevias?!? Adorava ir a essa leitura!”. Uau, certo?

Também há aqueles casos em que se exagera a importância que o outro tem só por causa do reconhecimento mediático que tem. Mas, afinal, quem é que define quem é que é importante ou interessante? Somos nós, certo? Então porque é que não podemos colocar todos no mesmo patamar de igualdade? Porque é que é tão fixe conhecer o actor ou a actriz que está em cartaz com a peça X, que tem estado sempre esgotada, e não é fixe conhecer alguém que não esgota salas?

Recordo-me de uma pessoa que mal me falava e quando descobriu que eu escrevia para teatro e que iam ler um texto meu, veio a correr ter comigo e disse: “Por que é que nunca me disseste que escrevias?!? Adorava ir a essa leitura!”. Uau, certo? De repente, havia uma parte de mim que se tinha tornado interessante para ela. Como devem calcular, a partir desse momento, passei a ver imensas vezes o sorriso dela.

Há pessoas que parece que têm receio de se ver associadas a outras, como se isso lhes diminuísse, de alguma forma, o seu valor social. Ou o oposto: aquelas pessoas que fazem questão de ir à estreia de Y ou Z só porque “vai estar lá toda a gente!” e serão associadas aquele momento.

Não me interessa ser “importante” no sentido mediático da coisa. Não me interessa ir ver todos os espectáculos dos grandes nomes do teatro contemporâneo, só para dizer que percorri as capelinhas todas. Mas, interessa-me saber o nome das pessoas com quem me vou cruzando ou, quando isso me escapa, o pormenor que fixei para as recordar, porque, para mim, todas as pessoas são interessantes.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico

Sobre o Autor:

Escolhi a eternuridade como palavra mãe porque sou teimosa. Prefiro a plateia ao palco. Penso melhor debaixo de água. Adoro pôr as mãos na massa. Professora, investigadora, yogui.

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