Revista Rua

Ana Bacalhau

“Senti que estava preparada para fazer aquilo a que me propunha: um disco que me contasse”
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira3 Junho, 2018
Ana Bacalhau
“Senti que estava preparada para fazer aquilo a que me propunha: um disco que me contasse”

Foi o rosto mais visível do grupo Deolinda, reconhecido pelas suas canções envoltas em fado e origens tradicionais. Com letras interventivas, retratando em melodias problemas sociais ou momentos de humor, os Deolinda eram Ana Bacalhau na voz até ao momento em que, em novembro do ano passado, anunciaram uma pausa. Dessa pausa, surge que nem fénix uma Ana Bacalhau a solo, apresentando Nome Próprio, um disco que a artista leva a palco do Theatro Circo a 22 de junho.

Fotografia: Frederico Martins e D.R.

Quando falamos em Ana Bacalhau, lembramo-nos imediatamente dos Deolinda. No entanto, neste momento, a Ana lança-se num percurso a solo. Podemos assumir que existe uma Ana Bacalhau antes dos Deolinda e depois dos Deolinda?

Sim, o que vivi nestes dez anos de música com os Deolinda fez-me aprender, amadurecer e chegar até mim de forma mais segura e este disco não seria possível nos moldes em que existe sem essa experiência acumulada.

Hoje, como artista, a Ana consegue definir-se? Ou seja, esta Ana a solo entra num universo musical diferente?

Não, nem quero. Para quê enfiar-me em moldes? Passo a vida a fugir deles. Apertam-me e não me deixam respirar e, sobretudo, criar. Não pensei que teria de fazer algo diferente só para marcar território. Pensei é que não me queria repetir, porque acho que a repetição é a morte do artista.

O que vivi nestes dez anos de música com os Deolinda fez-me aprender, amadurecer e chegar até mim de forma mais segura

É difícil para nós público encontrarmos a melhor definição para a Ana Bacalhau. Ana Bacalhau é sinónimo de fado, de música popular portuguesa…?

É sinónimo de alguém que está sempre à procura de si e do outro. Gosto de conhecer o mundo e gosto de conhecer pessoas, de ter experiências diferentes, de gozar bem a vida e transportar isso para a música que faço. Se tiver de me colocar num território, coloco-me no maior deles: o da música popular, que abarca tudo, menos a música erudita. Assim tenho mais liberdade e maior margem de manobra para fazer o que me der na gana.

Grande parte das músicas a que imediatamente atribuímos o som da sua voz tem letras sociais, interventivas até. Este era um registo muito típico com os Deolinda. E agora, a solo, o que apresenta ao público? O que é este Nome Próprio?

Apresento-me. Falo das minhas coisas, das minhas experiências, tento fazer sentido delas através da confissão ao outro, que é o público e fico a torcer para que o público também se identifique com algumas das experiências que conto nas canções deste disco.

Quais são as principais influências neste disco?

Fausto, Variações e a Motown.

Há algum tema neste disco que seja, de algum modo, especial ou icónico para si?

Penso que a canção “A Bacalhau” me apresenta muito bem. Fala da minha vida de forma muito clara e honesta. De tal forma que todos acham que a letra é minha, mas não. A letra é da Capicua e o Luís Peixoto, que me acompanha ao vivo, adaptou um corridinho para servir de base às quadras.

Sentiu que este era o momento certo para avançar com um percurso a solo? O que a levou a seguir este rumo agora?

Sim, senti que estava preparada para fazer aquilo a que me propunha: um disco que me contasse.

Este lançamento do álbum Nome Próprio significa que a pausa dos Deolinda, anunciada como “indeterminada”, poderá ser mais longa, definitiva?

Será longa, penso, porque todos temos coisas que queremos fazer a médio prazo, mas a ideia era que não fosse definitiva.

Falando do espetáculo agendado para o Theatro Circo, em junho, o que pode o público minhoto aguardar neste concerto?

Irei cantar todas as canções deste disco, levo comigo algumas outras canções que serviram de inspiração para este disco, de Fausto a Variações, passando por Trovante ou Ary dos Santos e Fernando Tordo. Também não esquecerei a “Pensamos no Futuro Amanhã”, canção da banda sonora da série do Nuno Markl. Terei em palco um cenário que me ajudará a contar as histórias das canções, através de vídeos. E estarei cheia de vontade de pisar aquele palco onde já fui tão feliz!

Venham ter comigo, dar-vos-ei tudo o que tenho, contar-vos-ei as minhas histórias que, prometo, não são assim tão diferentes das vossas.

Quer deixar uma mensagem convidativa ao público minhoto?

Claro! Venham ter comigo, dar-vos-ei tudo o que tenho, contar-vos-ei as minhas histórias que, prometo, não são assim tão diferentes das vossas e no final, faremos a festa, como sempre.

O futuro a Deus pertence, mas o que gostaria que o seu futuro lhe trouxesse, em termos de carreira?

Muita música, muitos palcos, muito mundo e muito amor.

Não podemos deixar de aproveitar esta oportunidade para questionar Ana Bacalhau sobre música portuguesa. É um dos nomes da música portuguesa atual, canta em português e tem marcado presença nos principais palcos nacionais. Como é que a Ana descreve o panorama musical português neste momento? E como vê esta geração jovem de artistas que, tal como a Ana, cantam (e bem) em português?

Penso que vivemos um momento incrível para a música portuguesa, com uma variedade e riqueza grandes de propostas musicais, artísticas e estéticas e com uma cada vez maior confiança e maior apoio do público em relação à música que se faz em Portugal. Falo tanto da música cantada em português, como da música cantada noutras línguas.

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