Revista Rua

2018-07-12T16:25:00+00:00 Opinião

Arranca a época de abandono ao animal de estimação

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Susana Santos
Susana Santos
11 Julho, 2018
Arranca a época de abandono ao animal de estimação

Tenho de admitir algum sarcasmo na escolha deste título, ao qual pretendi estabelecer uma certa analogia com a anual abertura da “época de incêndios florestais”. Anunciada na grande maioria dos meios de comunicação social, esta notícia parece lembrar os mais desatentos de que, a partir daquele momento, passa a ser possível atear fogos. Confesso que nunca entendi esta designação e sempre a considerei totalmente descabida já que evidencia um autêntico incentivo à execução por si só. Também o enquadramento temporal consiste no denominador comum entre estes dois períodos, apesar de diferir o motivo – no caso dos incêndios, graças às altas temperaturas sentidas no verão (não silenciando a atuação criminosa, claro) e, no caso do abandono por se tratar de uma época de férias para a grande maioria da população. Ainda no que aos incêndios diz respeito, depois das tragédias ocorridas em Portugal no último ano, causando a morte a mais de uma centena de pessoas, milhares de animais e a destruição dos ecossistemas florestais, o Governo levou a cabo a campanha “Portugal sem fogos depende de todos” e ainda aprovou o investimento de 15,65 milhões para melhorar a rede SIRESP, distribuíram-se vários regimentos de cabras sapadores pelo território nacional para ajudar na prevenção de incêndios florestais e, como afirma Marcelo Rebelo de Sousa à Lusa, “os responsáveis políticos estão a fazer o que podem para combater os problemas evidenciados pelos fogos, mas é preciso mais, para garantir que há um empenho duradouro, prolongado e persistente”. Resumindo, as atenções estão redobradas e, com tantos cuidados, espera-se que animais humanos e animais não humanos possam vislumbrar um ano isento de tais ocorrências ou, pelo menos, queremos acreditar que em menor dimensão.

Mas, e no que diz respeito ao abandono de animais de estimação? Se as ações aplicadas de forma propositada e intencional de um pirómano ainda poderão ser justificadas como resultado de um transtorno mental, o que dizer de quem em prol de um momento de diversão fugaz consegue abandonar um membro da família, à mercê da sua sorte, alguns condenados logo à partida a não sobreviverem, atados a qualquer árvore ou poste, num local remoto e bem longe da vista de qualquer ser humano que possa reprovar tal crueldade ou que os valha. Segundo as estatísticas, o abandono dos animais de companhia tem aumentado de ano para ano e, se para alguns esta estação do ano convida ao lazer, ao merecido descanso e ao restabelecimento de energias, para aqueles que se dedicam de corpo e alma à causa animal representa um verdadeiro desassossego, sofrendo de tal ordem com esta dura realidade que, por vezes, chegam mesmo a afirmar ser-lhes impossível manter uma imagem positiva do ser humano.

Apesar de todas estas conturbações e entraves evolucionais, não consigo deixar de pensar que um dia, talvez mais distante do que seria desejável, a humanidade já sem grandes ambições ou possibilidade de escolha, ver-se-á impelido a unir-se num eco de fraternidade e cooperação, possibilitando o surgimento de um incrível mundo novo.

Até lá, esperemos que 2018 nos brinde com ventos de bonança ou, pelo menos, seja menos dramático do que o anterior!

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