Revista Rua

2018-06-04T08:20:35+00:00 Histórias

“As birras só existem quando não há explicação para as coisas”

Psicologia Infantil - Joana Senra e Estela Lopes
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira3 Maio, 2018
“As birras só existem quando não há explicação para as coisas”
Psicologia Infantil - Joana Senra e Estela Lopes

Com um consultório junto aos Jardins de Santa Bárbara, bem no coração da cidade de Braga, Joana Senra é a psicóloga anfitriã de uma conversa voltada para uma área em específico: a psicologia infantil. Estela Lopes é, no consultório de Joana Senra, a responsável pelo acompanhamento de pais e crianças e, em entrevista à RUA, revelou alguns dos erros cometidos pelos pais de hoje em termos de educação infantil.

Começaríamos esta conversa por traçar um perfil das crianças do século XXI. De alguma forma, as crianças de hoje são diferentes às das gerações passadas?

As crianças são exatamente iguais, a cultura é que vai evoluindo e, com isso, claro que os hábitos e as rotinas também vão sendo alterados. Mas as crianças são iguais, gostam exatamente das mesmas coisas. Notam-se diferenças entre crianças da cidade e crianças da periferia, sendo que as crianças da periferia continuam a ter os mesmos gostos e a brincar com tudo como, se calhar, os pais faziam: andar de bicicleta ou jogar à bola na rua. Às crianças da cidade isso já não lhes é permitido por fatores ambientais e culturais, que acabam por fechá-las dentro de casa. Portanto, as crianças são iguais, os pais é que por vezes se esquecem disso. O que eu noto nas consultas é que os pais se esquecem que eles também já foram crianças… e isso é essencial! Muitas vezes, digo aos pais que não há truques para educar. Eu não lhes vou passar pozinhos de perlimpimpim. Sim, porque há pais que vêm à procura de magia! Digo-lhes para se porem no lugar das crianças, o que gostavam que lhes fosse dito, como gostavam que agissem com eles e é aqui que, muitas vezes, na terapia, se dá uma reviravolta. Há pais que aí acordam, porque parece que, num dia a dia tão atarefado, tão cheio de preocupações, esquecem que também já foram crianças, também já fizeram aquilo e que há disparates que são naturais. É como, no verão, ir para a casa de banho brincar com a água. Não são asneiras, são brincadeiras saudáveis que têm de se repreender, claro, mas não fazendo disso um bicho de sete cabeças.

Considera que o facto de os pais terem hoje em dia carreiras mais atarefadas influencia o próprio ritmo das crianças?

Influencia. O que eu reparo – e isto é mais relacionado com os pais -, é que os problemas nunca estão nas crianças, estão na família. Se calhar, em 80% dos casos que acompanhei até hoje, os problemas estavam nas regras parentais, nos limites estabelecidos, na rotina familiar. Na maioria das vezes tem de se fazer uma reestruturação de todo o ambiente familiar, porque o problema está nos pais. Por exemplo, às vezes, os pais acham que o “estar” muito tempo com as crianças é “estar” muito tempo dentro de casa. Mas esquecem-se que isso apenas significa que estão dentro do mesmo espaço físico, não estão com elas. É mais importante os pais estarem meia hora efetivamente a brincar com a criança, a pintar um desenho com ela, por exemplo, do que estar com ela uma tarde inteira no sofá, com o pai no tablet, a criança no tablet ou a ver um filme. Estão juntos no mesmo espaço físico, mas não há interação. Isso não tem qualidade! Por isso, o ritmo de hoje não pode servir de desculpa para a falta de regras ou como justificação por a criança ser birrenta. Os pais é que têm de perceber que têm de estabelecer prioridades quando há filhos. Que deixa de existir o Eu ou o Nós e passa a existir um todo. Isso é que é um bocadinho mais complicado de se gerir. Os pais às vezes são mais egoístas em determinados momentos e isso é que acaba por influenciar o comportamento das crianças.

Falando do comportamento, como devem ser impostos os tais limites às crianças?

Os limites passam por adotar a lógica “quando é não, é não”. Muitas vezes digo aos pais que os seus “Nãos” são “Nims”. Começam por dizer “Não” e depois acabam por dizer “Sim” porque já não estão para se chatear mais. E isso é o que está errado! As crianças estão a aprender e tanto aprendem o bem como o mal. As crianças são inteligentes o suficiente para perceberem como manipular os pais, porque se hoje deu resultado, amanhã também dará. Exatamente como nós também fazemos. Há pais que dizem que os filhos, quando estão com os avós, não abusam, mas com eles sim. Tem a ver com a postura. Eles sabem que com determinada pessoa podem comportar-se de determinada maneira. É uma questão de habituação. Por que é que na escola a criança se porta tão bem e em casa não respeita? Porque na escola há regras e ela sabe que não há manipulação dessas regras, mas que em casa isso já não acontece. Se tentar uma primeira e segunda vez e conseguir, a criança vai saber que à terceira também vai conseguir. É um ciclo vicioso!

Os pais não devem então ter receio de usar o “Não”?

O “Não” é que ensina! O “Não” é que protege! As crianças que estão habituadas a não ter regras, ou a tudo ser “Sim”, são crianças inseguras, na maioria das vezes. Não se habituam a ouvir um “Não” e o que é que isso vai criar? Uma frustração na criança. E em adulto o que vai revelar? Frustração quando se depararem com os “Nãos” que vão ouvir durante a vida toda. Em adultos poderão tornar-se pouco lutadores, com níveis de ansiedade muito altos, porque durante toda a vida não aprenderam a lutar pelo que queriam. Muitas vezes digo aos pais: não interessa se têm muito dinheiro ou pouco, não é preciso ter muito para se fazerem atividades giras em conjunto. Há muitas coisas que se podem fazer com os filhos sem ser preciso dinheiro. É preciso querer, o que é uma grande diferença! Não é pela quantidade de dinheiro que a criança vai ser mais ou menos feliz. Muitas vezes, os pais querem comprar os filhos porque não têm tempo para eles e, por isso, vão comprar tudo aquilo que eles querem. Não! As crianças têm que perceber que têm que lutar, independentemente de se poder dar ou não. Têm que aprender desde pequeninos que têm de lutar para conseguirem as coisas, para no futuro ser assim também. Toda a vida é uma constante luta para se conseguir chegar onde se quer. Todo o resultado da educação na infância vai refletir-se na idade adulta. Nós em adultos somos o produto da educação que tivemos. Claro que há sempre experiências, principalmente as mais traumáticas, que nos influenciam. E também é óbvio que os pais podem tentar fazer o melhor pela educação dos filhos, mas não vão controlar tudo. Há sempre imprevistos.

“O que eu noto nas consultas é que os pais se esquecem que eles também já foram crianças… e isso é essencial!”

Relativamente aos imprevistos, introduzo uma questão difícil: como é que os pais devem lidar com as situações de perda? Como devem explicar aos seus filhos que determinada pessoa faleceu, por exemplo?

Tudo depende da faixa etária. Se for uma criança até ao pré-escolar, isso deve ser trabalhado com os pais e com a educadora. É muito importante ser trabalhado em grupo, com os colegas da criança, porque muitas vezes as crianças são maldosas e, como não têm compreensão suficiente, não sabem que o estão a ser. Então, até aos cinco anos, eu aconselho sempre aos pais pedirem auxílio à educadora. Quando uma criança perde um pai ou uma mãe, em situação pré-escolar, é muito complicado porque os outros miúdos nem sempre percebem. Fazem perguntas quando chega o Dia do Pai ou o Dia da Mãe e as crianças sofrem.

O meu conselho é que nunca se esconda a uma criança que faleceu alguém. Nem nunca se fantasie o que aconteceu. Os pais devem sempre explicar, claro que com um nível de linguagem adaptado à idade, deixando de parte os pormenores que não têm interesse. O importante é que a criança perceba que aquela pessoa faleceu e que não a vai voltar a ver. Depois, dependendo da cultura, pode explicar-se para onde é que a pessoa foi. A criança tem de perceber que as memórias ficam, que o tempo que passaram com aquela pessoa vai ficar sempre guardado no coração. Isso é o que atenua a perda. O que se deve efetivamente passar para as crianças são as memórias. Há alguns pais que me contam que tiraram as fotografias daquela pessoa de casa, principalmente quando falamos da perda de avós. Não! Aquela pessoa existiu e havia um relacionamento, tem de se falar sobre a pessoa e fazer a criança perceber que criou memórias com ela – e essa é a parte boa, as recordações. É isso que dá consolo.

Numa idade mais posterior, já se pode permitir à criança ir ao funeral, despedir-se. Mas até a uma determinada idade não aconselho, porque a criança não tem compreensão suficiente para perceber tudo o que está a acontecer.

Também sugiro a leitura de alguns livros que ajudam a explicar à criança as situações. Eu trabalho muito com livros, textos, sites, jogos porque, para os pais, às vezes é complicado abordar determinados assuntos, como a sexualidade, o luto, a perda de um ente querido, doenças complicadas. Sugiro sempre determinados livros que podem facilitar esse trabalho.

Neste momento, as crianças têm acesso a informações tal como cada um de nós. Em casos de violência, de guerras, em que vemos crianças em sofrimento através da televisão, como é que os pais devem explicar o que se passa? Devem deixar que os filhos vejam esse tipo de conteúdos?

Na minha opinião, não há nenhuma informação que deva ser escondida das crianças. Deve-se é esperar que sejam elas a questionar, para vermos onde estão as dúvidas. E, aí sim, sentamo-nos com as crianças e perguntamos-lhes o que querem saber, para podermos responder de maneira clara.

No ano passado, acompanhei uma menina cuja mãe me procurou a propósito da crise de refugiados da Síria. Na escola houve um simulacro, perguntando às crianças, de várias idades, o que colocavam na mochila caso fossem refugiados. A criança, que andava no primeiro ano e não percebeu a explicação que foi dada, ficou em pânico: ia ficar sem a casa, sem a mãe? É preciso ter consciência que uma criança de seis anos não percebe as coisas da mesma maneira que uma criança de dez. Aquela situação causou uma confusão tão grande na sua cabeça que ela pensou mesmo que ia ter de fazer aquilo, que ia ter de pegar na mochila e fugir. O meu trabalho aí foi muito simples: foi desmistificar tudo aquilo que tinha sido dito na escola. Foi necessário explicar à criança em que país é que nós estamos e em que zona há conflitos, mostrando-lhe um mapa. É por situações como esta que eu digo que as coisas não devem nunca ser escondidas. Devem ser explicadas e, consoante a idade, adaptar o discurso. Quanto às imagens de guerra, essas devem ser ocultadas quando as crianças são mais pequenas. Na adolescência, devem ver, também para terem uma consciência visual da realidade. Porque, hoje em dia, os miúdos sofrem muito do problema de não se colocarem no lugar do outro. Cada vez mais, os adolescentes sofrem mais de egocentrismo e quanto mais diálogo houver em casa, mais os adolescentes deixam esse egoísmo social e percebem que se todos fizermos alguma coisa, por pequenina que seja, podemos mudar algo. Acho que é essa a abordagem que os pais devem ter.

Os “porque sim” ou “porque não” são respostas para as crianças?

Os “porque sim” ou “porque não” nunca devem existir nas respostas. As respostas têm de ter uma explicação. Responder “porque sim” ou “porque não” é meio caminho andado para a criança ficar exatamente com a mesma dúvida e isso muitas vezes é que vai criar o problema. Não havendo uma resposta, não havendo uma explicação, a dúvida da criança vai-se manter para o que quer que seja. A seguir, a criança vai repetir a mesma asneira ou vai tomar a decisão errada porque vai basear-se no conhecimento que tem, seja ele bom ou mau, errado ou certo. Os pais, por vezes, respondem isso porque ficam atrapalhados e não sabem o que dizer. É melhor parar para pensar qual é a melhor maneira de explicar a situação para a idade da criança. Mas os pais não querem ter esse trabalho muitas vezes. Quantas vezes ouvimos nas filas do supermercado: “- Por que é que não me dás isso?”, “Porque não!”. Não custa dizer: “Não, porque não tenho dinheiro para isso” ou “Se queres levar isso, não posso levar aquilo!”. Isso faz as crianças perceberem as prioridades. As birras só existem quando não há explicação para as coisas. A maioria das birras tem por base a falta de conhecimento das crianças, porque não lhes foi explicado algo. É necessário acrescentar a explicação: “Não podes ir agora porque…”. O simples “Não, não vamos” vai originar a birra. Se for dada uma explicação, nem que seja “Tenho de trabalhar”, vai fazer a criança compreender. Os pais são preguiçosos! (risos) São humanos, não há pais perfeitos!

“Na minha opinião, não há nenhuma informação que deva ser escondida das crianças.”

Há crianças mimadas ou pais mimados?

Crianças mimadas com mimo, com carinho, com afeto, nunca é demais! Mas crianças mimadas no sentido de birras, por ouvirem sempre o “Sim”, existe muito. Se, por um lado, os pais têm de ser severos, no sentido de impor regras firmes, por outro lado têm de ser capazes de dar o colinho, o miminho, o beijinho e o afeto. Têm de existir essas duas vertentes. A criança tem de saber que aquela mãe ou pai está a dizer “Não” naquela hora, mas que isso não significa que não gosta dela. Está a dizer “Não” porque está a impor uma regra, está a educar.

Acredita que as tendências digitais têm criado crianças menos interativas?

O problema está mais na adolescência, principalmente devido às redes sociais. As redes sociais vieram fazer uma coisa que não existia até então: antigamente tínhamos de dizer as coisas na cara, a olhar para a pessoa. Hoje em dia vejo, em consultas, problemas de bullying cibernético. Há cada vez mais adolescentes que são humilhados, maltratados de uma forma gratuita, porque isso é muito simples através das redes sociais.

“Os “porque sim” ou “porque não” nunca devem existir nas respostas. As respostas têm de ter uma explicação.”

E há alguma forma dos pais protegerem os seus filhos?

O proteger é tentar não valorizar as redes sociais. Não se pode proibir o adolescente de ter. Apenas pode proibir-se até determinada idade. Depois, tem de se desvalorizar a importância das redes sociais, porque tudo gira em torno das redes sociais. Hoje em dia, aquilo que eu sinto é que se começa a perder a sensação do que é ter um amigo. Porque o meu melhor amigo é do Brasil ou vive em Inglaterra. É complicado porque a relação interpessoal deixa de existir. Passa a ser uma realidade virtual. A parte dos afetos deixa de existir completamente, porque não há o toque, não há a troca de postura corporal. Aí é que os pais têm de estar atentos e intervir de uma forma muito assertiva!

E relativamente ao uso de aparelhos digitais através das crianças mais pequenas?

O uso das novas tecnologias não é mau, muito pelo contrário. As tecnologias ensinam muita coisa. Têm é de ser utilizadas de uma forma pedagógica. Digo muitas vezes aos pais: se a criança vai estar a jogar, que sejam jogos pedagógicos. Aí, os pais podem ensinar. As crianças não podem é passar um dia inteiro no tablet! Há jogos que ensinam, desde os três anos, as cores, os números, as formas e isso só é bom para a criança. Mas os pais têm de fazer a sua parte de educadores, de supervisionar o que a criança está a fazer. Tem de existir sempre controlo parental. As tecnologias não são más e as crianças têm de acompanhar a evolução da sociedade. Há pais que dizem a típica frase: “No nosso tempo não havia”. Pois, mas agora há! Temos de acompanhar e fazer com que as coisas sejam utilizadas da forma correta.

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