Revista Rua

2018-11-16T16:02:03+00:00 Cultura, Música

Cati Freitas: “A vida é um ato de amor por si só”

A cantora de Braga apresenta-se no Theatro Circo a 27 de setembro.
Fotografias ©D.R.
Rita Almeida
Rita Almeida3 Setembro, 2018
Cati Freitas: “A vida é um ato de amor por si só”
A cantora de Braga apresenta-se no Theatro Circo a 27 de setembro.

Movida pelo amor e pela paz da alma, Cati Freitas deu a conhecer à RUA o seu percurso musical e o seu novo trabalho. A cantora, natural de Braga, apresenta o disco Estrangeira no Theatro Circo, a 27 de setembro. Arriscamo-nos a dizer que a entrevista é intimista e sentimental, tal como Cati garante que vai ser o concerto.

Começando por recordar o passado, quando é que se apercebeu que era a cantar que queria levar a vida? Como é que tudo começou até chegar onde está?

Em criança comecei por mostrar inclinações para as expressões artísticas. Escrevia muito, já numa tentativa poética, fazia teatro e cantava muito, ainda que de forma tímida. Daí até ter a consciência clara de que queria cantar ou seguir música profissionalmente foi um longo tempo.
Era intrínseco e, por isso mesmo, a vida acabou por me colocar em contacto com possibilidades que decidi experimentar. A primeira experiência mais séria foi aos 18 anos no Programa da RTP – Operação Triunfo e, aos 23 anos, a entrada para a Jaguar Band, que acompanha até hoje os Expensive Soul. Foram nove anos com eles a percorrer o país de norte a sul, a viajar, a pisar muitos palcos e a colher muitas experiências. A par disso, muitas outras participações surgiram com outros artistas de relevo nacional.
Sabia que a minha experiência com os Expensive Soul seria temporária. Sentia-me numa espécie de maturação. Precisava de estar mais pronta, a vários níveis, para tomar o meu próprio caminho. Em 2013, achei que estava pronta para lançar o meu primeiro disco e tomar as rédeas do meu próprio percurso. Havia chegado o momento de dizer “sim” a esse impulso forte e de ir ao encontro dos inúmeros desafios que ele me colocou e coloca enquanto artista e ser humano.

Dentro foi o seu primeiro disco, lançado em 2013. “Decidi ir atrás dos músicos que preenchiam o que ouvia na minha cabeça e que cabiam na forma perfeita na sonoridade que vos queria apresentar”, escreveu no seu site. Que músicos eram esses?

Eram músicos por quem nutria e nutro, até hoje, profunda admiração. Tecnicamente excecionais e, acima de tudo, com sensibilidades altas para apoiar sonoramente as histórias que desejava contar. Deram colo ao meu canto e à minha interpretação. Com eles fiz amizades para a vida.  Tiago Costa (piano e teclados), Sylvinho Mazzuca (contrabaixo), Cuca Teixeira (bateria) e Felipe Roseno (percussões).

O Brasil, Cabo Verde e a paisagem americana do jazz clássico são uma inspiração para si, correto? O que é que estes locais têm de especial que outros não têm? São Paulo foi o local escolhido para gravar o seu primeiro disco…

Sim, São Paulo foi a cidade onde gravei o primeiro disco porque todos os músicos eram de lá. Em termos de logística, era mais fácil a minha deslocação do que o inverso. Foi maravilhoso tomar contacto com o Brasil e com a atmosfera que me havia feito descobrir tantas coisas.
Todos esses lugares não são propriamente mais especiais que os outros. Foi apenas por eles que comecei, ainda muito jovem, a tomar contacto com as vozes, com as sonoridades refinadas, com os poetas. Foram artistas desses quadrantes geográficos que me despertaram o entendimento da música como algo sério, verdadeiro. A necessidade do trabalho aliado ao talento. O poder da palavra numa canção.

Como nasceu Estrangeira, o álbum que será lançado em setembro? O que distingue este disco do anterior e o que se pode esperar deste novo trabalho?

Estrangeira nasce precisamente dessa vontade de me desvincular do “peso” que senti darem a todas essas influências na minha música. A dada altura, na forma como tentavam arranjar uma definição para a minha sonoridade, elas pareciam maiores e mais importantes que eu mesma e que todo o conteúdo emocional do disco. Após a rutura com todos os projetos onde estava, dei por mim a sair do ruído, a observar a natureza que envolve a minha casa. O Minho.
Ao contrário do primeiro, este disco é maioritariamente autoral. Senti uma enorme necessidade de me propor ao exercício de composição das minhas próprias músicas. Escrevi muito. Deitei muita coisa ao lixo. Foi como uma espécie de represa que se abriu. Sonoramente falando procurei um maior cuidado no tratamento do som, arranjos mais simples. Tive necessidade de conferir maior contemporaneidade em relação ao primeiro. O eletrónico que complementou ainda mais o orgânico.  É um disco mais maduro no que toca à minha visão acerca de mim mesma. Sem subterfúgios.

“Esse nobre sentimento que me envolve a todo o tempo” é um dos versos da canção “Meu Amor” do novo álbum. Acredita que a vida só faz sentido com a presença do amor?

A vida é um ato de amor por si só. Temos, por defeito, a inclinação de fugir dele.  O amor é dos exercícios mais exigentes e reveladores que podemos escolher fazer. Essa é talvez a minha principal mensagem – ainda que mais subjetiva. Grande parte desse exercício interior materializa-se na minha música.

“O amor é dos exercícios mais exigentes e reveladores que podemos escolher fazer. Essa é talvez a minha principal mensagem – ainda que mais subjetiva”

A Cati é natural de Braga. Qual é a sensação de atuar novamente em casa, no dia 27 de setembro, depois de ter pisado outros palcos? O que é que o público deve esperar do concerto?

Pedi muito à minha agência que tentássemos a minha estreia na minha cidade. Todos os lugares, palcos por onde passei merecem o meu maior respeito. Mas o Theatro Circo é uma sala com um encanto muito especial. Gostava muito que momentos importantes da minha carreira fossem marcados por ela e pelas pessoas que a fazem acontecer.
O concerto será uma viagem: intimista, sentimental e forte.
Faremos maioritariamente as canções do Estrangeira, passeando também por alguns temas do primeiro disco com nova roupagem. Será uma noite cheia de cor, amor e arte!

Há certamente vozes e géneros musicais que a acompanham ao longo da sua vida. Quais são as suas influências atualmente?

Amália  Rodrigues, Ella Fitzgerald, Caetano Veloso, são exemplos que já havia falado. Ultimamente tenho escutado muito Florence and the Machine, London Grammar, Sting e Chopin.

Paz e silêncio são importantes para si. São os requisitos principais para conseguir fazer as suas canções?

Sim. O rascunho dos sentimentos pode sair em qualquer lugar. Mas para esmiuçar preciso de paz, de estar junto da natureza ou num lugar calmo onde consiga ouvir a alma.

Já tocou em vários locais. Onde é que nunca atuou e gostaria de o fazer?

Rock in Rio e Edp Cool Jazz.

Grande parte das suas músicas são portuguesas. Que opinião tem em relação ao panorama atual da música portuguesa?

Atravessamos um momento muito inovador, se é que lhe posso chamar assim. A minha geração, e a anterior à minha, tem dado passos relevantes na revolução da indústria musical e na forma como se cria maior espaço para que a diversidade chegue ao grande público.
Sinto, ainda que de forma leve, uma mudança de paradigmas. Quem tinha normalmente o poder de fazer chegar os artistas ao grande público começa a ter que rever conceitos e a perder força.  Ainda é um processo lento, mas acredito que hoje, até pela revolução digital, os padrões habituais começam a não ser suficientes. E nenhum artista tem a palavra “impossível” tão presente.  O novo tempo traz novas necessidades, novos pensamentos, novas movimentações dentro de todas as áreas. Temos a responsabilidade de o usarmos a nosso favor para contribuir na construção de uma nova educação cultural, e no entendimento dela como algo relevante e prioritário para a construção e valorização de uma sociedade melhor e mais rica.

“Atravessamos um momento muito inovador, se é que lhe posso chamar assim. A minha geração, e a anterior à minha, tem dado passos relevantes na revolução da indústria musical”

Em relação ao futuro, que projetos é que tem guardados que poderá partilhar connosco?

Até ao lançamento dos meus trabalhos fico muito focada, mentalmente ocupada. Assim que conseguir sentir-me mais liberta deste processo, pretendo dedicar-me a escrever um livro, mas ainda não sei dizer que tipo.
Quero poder percorrer o país com este disco, crescer mais em palco. E começar a compor com tranquilidade o próximo. Mas tudo a seu tempo. Quero muito viver este Estrangeira!

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