Revista Rua

2018-07-02T08:03:24+00:00 Arte, Cultura, Em Destaque

Centro Português de Surrealismo

De Mário Cesariny a Cruzeiro Seixas: um olhar sobre o movimento surrealista
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira2 Julho, 2018
Centro Português de Surrealismo
De Mário Cesariny a Cruzeiro Seixas: um olhar sobre o movimento surrealista

Desde início de junho que o município de Famalicão se posiciona de uma forma mais firme no panorama artístico nacional, com a inauguração do Centro Português de Surrealismo, um novo espaço na Fundação Cupertino de Miranda, bem no coração da cidade. A RUA visitou a exposição que está patente até 8 de setembro, na companhia do diretor artístico António Gonçalves. São mais de 200 obras em exposição, entre peças da coleção da Fundação Gulbenkian e da Fundação Cupertino de Miranda, trazendo a história surrealista – com uma visão sobre os principais autores nacionais, de Mário Cesariny a Cruzeiro Seixas -, aos olhos dos amantes de arte.

À entrada da ampla sala que alberga este novo Centro Português de Surrealismo, inaugurado pelo próprio Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, deparamo-nos imediatamente com um dos nomes de destaque naquele que foi o arranque do chamado Grupo Surrealista de Lisboa: António Pedro. As obras dos inícios dos anos 40, as influências internacionais e as controvérsias políticas bem visíveis nos trabalhos apresentam-nos uma abordagem artística que, ainda hoje, é estudada detalhadamente. Surge-nos depois António Dacosta, com a sua imagem mais próxima do imaginário que tão bem conhecemos de Salvador Dalí, com a construção de figuras que invocam a ideia primária do Surrealismo: os sonhos, as distorções, o fugir de uma realidade – embora a criação surrealista não esteja apenas vinculada a esta lógica. Fernando de Azevedo, presente nesta exposição através dos seus reconhecidos trabalhos de ocultação, uma técnica surrealista, e colagens, é o artista que nos encaminha, neste alinhamento expositivo, para as fotografias e pinturas de Fernando Lemos. Ainda Mário Henrique Leiria, Risques Pereira, António Maria Lisboa, Carlos Eurico da Costa e os consagrados Mário Cesariny, com as suas icónicas colagens provocatórias (como a obra Retrato do General Degaulle) e Cruzeiro Seixas, um dos nomes fortes da coleção da Fundação Cupertino de Miranda com os seus desenhos, pinturas – sobre tela e madeira – marcam também presença neste espaço, possível de ser visitado de forma gratuita.

Mas, vamos ao início: porquê surrealismo? “O surrealismo aparece em Famalicão por intermédio do Eng.º João Carlos Sobral Meireles que, num dado momento, doou uma coleção particular, com obras de Cruzeiro Seixas e outros autores, à Fundação Cupertino de Miranda. Irmão de Isabel Meyrelles, reconhecida escultora que estaria próxima de vários artistas surrealistas (e que também está presente nesta exposição), o Eng.º Meireles deu origem àquilo que nós podemos pensar hoje ser o Centro Português de Surrealismo. Não é que esse fosse o objetivo, mas diria que foi a base do trabalho que se vem fazendo ao longo destes anos. Não havia nenhuma outra instituição que estivesse a tratar de uma maneira tão objetiva o Surrealismo. Hoje, fruto de todo o trabalho desenvolvido, há uma base que se pode consultar a nível de documentos, livros e obras de Cruzeiro Seixas, Mário Cesariny, Eurico Gonçalves, Júlio dos Reis Pereira, entre outros notáveis artistas. Falamos de uma coleção que, de momento, conta 3000 obras a nível plástico e a nível de volumes para investigação documental. Isto faz com que atualmente se possa estar mais próximo de uma excelente base de estudo de investigação do Surrealismo”, explica-nos o diretor artístico António Gonçalves, aproveitando ainda para contextualizar: “Nós tínhamos o espaço de exposição na Torre, mas encaminhamos as exposições dessa área para esta sala que, para além de ser mais ampla, tem melhores condições para expor, seja em termos de controlo de temperaturas, controlo de humidades, etc. A nível de projeto, o Centro Português de Surrealismo é o seguimento daquilo que era o Centro de Estudos de Surrealismo, projeto esse que vinha a ser desenvolvido ao longo dos últimos 20 anos. A primeira pedra enquanto projeto, por intermédio do anterior diretor artístico, Bernardo Pinto de Almeida, foi cimentada em 1999, anunciando-se aí esta hipótese de investigação científica tão importante”.

“Falamos de uma coleção que, de momento, conta 3000 obras a nível plástico e a nível de volumes para investigação documental”

Impulsionando, em termos futuros, a continuidade de exposições que, seguindo o mote de partir à descoberta das instituições e, por consequência, das coleções dessas instituições, António Gonçalves anuncia que o planeamento da próxima exibição se encontra já dentro de portas: “A exposição que se segue é já uma coleção nossa, algo que está dentro da coleção da Fundação Cupertino de Miranda. São revistas do Surrealismo internacional. Vamos poder ver originais daquilo que foi, à época, de relevância para o movimento”, explica. Adquiridas a um colecionador particular enquanto se procedia ao estudo para a exposição, esta coleção de revistas poderá ser apresentada ao público ainda este ano, em meados de outubro. “Depois, estamos a estabelecer relações com outras instituições para que possamos trazer as coleções cá, no mesmo âmbito desta exposição das peças da Fundação Calouste Gulbenkian: fazemos a seleção a nível de obras surrealistas presentes nessa coleção, fazemos a edição de um catálogo que cobre ainda mais do que aquilo que aqui estará exposto e, no fundo, de uma forma muito cuidada, vamos catalogando as obras que existem dispersas em algumas coleções”, reitera o diretor artístico.

Com a criação de uma Torre Literária no horizonte, a Fundação Cupertino de Miranda assenta neste Centro Português de Surrealismo uma base sólida de construção sempre contínua do panorama histórico do movimento surrealista nacional e, por inerência, internacional, atribuindo ao município famalicense um cunho cada vez mais diversificado em termos de opção artística e formação de públicos.

Fotografia: Nuno Sampaio

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