2018-05-21T13:54:13+00:00 Cultura, Talento

Cores texturadas por Alberto Rodrigues Marques

Helena Mendes Pereira
Helena Mendes Pereira3 Maio, 2018
Cores texturadas por Alberto Rodrigues Marques

Por estes dias, o bracarense Alberto Rodrigues Marques (n.1995) está em Madrid, no âmbito do programa ERASMUS e em fase de conclusão da sua Licenciatura/1.º ciclo de estudos em Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (FBAUL). Confesso, é raro e difícil encontrar criadores tão jovens e que aliem maturidade intelectual q.b. com uma enorme vontade de experimentação: experimentação pelo exercício de exploração das potencialidades do material e da matéria e experimentação de pesquisa conceptual. Talvez tenha sido isso que despertou o meu interesse pelo trabalho de Alberto Rodrigues Marques, que motivou um interesse e acompanhamento do seu trabalho, no sentido de o inquietar ainda mais. Não foi, portanto, com espanto, que ouvi de alguns dos seus professores na FBAUL os melhores comentários sobre o estudante Alberto, que focavam o seu dinamismo, a sua constante atenção a tudo o que lhe vai sendo proporcionado aprender e, sobretudo, à sua vontade de experimentar, no domínio da pintura, uma amplitude de materiais mais ou menos imediatos naquilo que é a apreensão do mais ou menos convencional em belas artes.

A candidatura de Alberto Rodrigues Marques à shairart integrava um conjunto de trabalhos a acrílico sobre rede de mosquiteiro, em que a paleta se desvenda do verso para a fronte, ou seja, o artista produz num processo de alteração de perceção do espaço, aumentando-lhe a metáfora da composição e o risco (na minha opinião, positivo) de multiplicação de sentidos e leituras. Há a obrigatória questão da realidade como referencial para a pintura (ou para a arte) VS a prevalência da dimensão de interioridade do artista, que nos leva à abstração. Alberto Rodrigues Marques fez (e continuará a fazer) este caminho até chegar à pintura textura, de mancha plana e densa, que se adensa na matéria, cresce e ganha a terceira dimensão. Interessa recuperar as palavras do artista na sua apresentação: “Lembro-me de ser criança e estar na pré-primária, e lembro-me de um dia, nessa altura, em que senti o cheiro do guache, nunca mais me esqueci dele. O meu trabalho é sobre a memória que os materiais me deixam, aquilo de que eles são capazes, eu limito-me a perceber quais são as suas capacidades e tento executá-las da melhor maneira, eu deixo neles o tempo que perdi. Paro e penso no que tenho a fazer e faço. São duas coisas diferentes, quando imagino alguma coisa tenho uma imagem, um som, o que for no campo ideal, quando faço falho essa alguma coisa do campo ideal. Mas na próxima falho melhor, porque o ideal é que está bem e eu gosto é de fazer”. Diz tudo e está (para já) apresentado.