Revista Rua

2018-05-03T11:00:23+00:00 Opinião

“De olhar no mesmo sentido”

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Paulo Brandão
Paulo Brandão
2 Fevereiro, 2018
“De olhar no mesmo sentido”

Há filmes que nos devoram. Começam de mansinho, deixando-nos expectantes e, de repente, num só golpe, como que sugados, estamos dentro deles, de coração na boca, o corpo paralisado aguardando o final, vidas que não sendo as nossas parecem as nossas e de todos os que estão na sala, numa comunhão de energias, entre medos, risos nervosos ou naturais, pensamentos espertos ou falsos desfechos de alma.

Já muito me aconteceu no cinema. Vejo filmes desde que me conheço. Vi centenas como todos os que gostam de histórias. Tenho passagens de filmes que repito e a que recorro quase como terapia e outras que me levam a rir ou a chorar, sem outro objectivo que não seja a catarse de um domingo à tarde. Mas uma coisa é ver um filme no sofá lá de casa, comando na mão, outra é estar numa sala de cinema completamente lotada, com mais de duzentos seres humanos de olhar no mesmo sentido.

Vem isto a propósito do filme Corpo e Alma, originário da Hungria e realizado por Ildikó Enyedi, que recebeu o Urso de Ouro e o prémio FIPRESCI na edição de 2017 do Festival de Cinema de Berlim.

A trama é simples. Numa dualidade entre o dormir e o acordar, duas pessoas que não se conhecem têm sonhos exatamente iguais e encontram-se todas as noites nesse mundo paralelo de Freud. Quando chega a hora de se encontrarem de verdade, a situação revela-se ainda mais complexa, numa tensão sexual entre o terno e o lírico, a descoberta e a frieza.

A trama é simples, repito, embora não muito vulgar e, em anos de filmes, festivais, ciclos ou outras idas, pela primeira vez vi gente a desmaiar ou a sentir-se um pouco mal numa sala de cinema. Como é possível um filme afetar-nos assim, nesse desejo de sermos um ou outro personagem, tal a intensidade do amor que não sabemos de onde vem e que, aqui, ou ali na tela, sei lá, se mistura com sonhos, amizade, delicadeza, humor, pessoas mais comuns do que nós, pessoas mais estranhas do que nós, pessoas.

Libertando um pouco mais da trama, há um matadouro em Budapeste e a estranha e enigmática Mária, sempre sozinha. E Endre, o seu responsável, um pouco mais velho. Na “verdade” onírica, ele é o veado e ela a corsa. Como se a natureza comandasse o sentido da vida e da morte. Parece simples, mas é o filme mais profundo dos filmes simples que vi nestes últimos anos. A sua complexidade relacional é tal que certamente poderia gerar longos discursos, análises, debates e até, sim, ensaios e teses sobre o amor e as sexualidades. Além disso, é tão forte e empático que gera aflições no coração, ataques de ansiedade, comoção interna e desejo de sair dali, tal é a força que gera em nós. Saímos do cinema calados ou tentando encontrar uma razão para o amor de Mária e Endre. Corpo e alma e alma e corpo. Tudo perto de onde os animais são abatidos, numa Budapeste invisível, onde intuímos que o humor é terno nos húngaros e o amor de todos nós uma alucinação visceral e física.

A repetir.

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