Revista Rua

“Descrevo-me como uma pessoa com uma extrema curiosidade”

David Fonseca em entrevista à RUA
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira6 Agosto, 2018
“Descrevo-me como uma pessoa com uma extrema curiosidade”
David Fonseca em entrevista à RUA

Oh my heart, entrevistámos o David Fonseca! É um dos mais reconhecidos artistas nacionais e lançou recentemente um novo disco que já conquistou as rádios portuguesas. David Fonseca e o seu Radio Gemini andam em digressão e, em Vilar de Mouros, a 25 de agosto, aguarda-se um espetáculo com muitas surpresas.

Fotografia © David Fonseca

É um dos nomes consagrados da música em Portugal. Gostávamos de perguntar-lhe quem é este David Fonseca. Atualmente, como se descreve como músico?

É sempre difícil auto descrever-me. Ainda hoje sinto uma certa dificuldade em ler a minha definição como músico. Nunca quis ser músico, mas acabei por me tornar um.  Acho sempre surpreendente, mas não sei descrever o que uma pessoa sente como músico. Interesso-me, essencialmente, por uma forma de expressão, seja ela a música ou outra qualquer. A música obviamente é aquela que tem mais impacto naquilo que eu faço, mas há muitas coisas que eu faço só para mim ou para elementos mais pequenos, como a fotografia. Descrevo-me como uma pessoa com uma extrema curiosidade.

One Man Band. Esta descrição é, a seu ver, a melhor forma de apelidarmos o seu percurso?

Apesar de fazer muitas coisas sozinho, eu acho que isso é apenas parte do meu percurso. Tenho uma tendência muito grande para fazer coisas isoladamente, fazer os meus projetos de um ponto de vista muito isolado, mas na realidade acaba por ser um processo que sai desse isolamento para o contrário. O número de colaborações que eu tenho para tornar tudo isto possível é imenso. O meu percurso é feito a partir de uma pessoa que está muito isolada a fazer o seu trabalho, mas numa espécie de viagem para se encontrar com outro. A música acaba por ser uma ponte para eu estar junto de outros.

Podemos falar do processo de criação deste recente disco Radio Gemini? Este disco é o resultado de quê?

Este disco foi feito de uma forma radicalmente diferente dos outros no passado. Imediatamente percebi que queria fazer um disco muito mais diverso. Queria que o disco respirasse vários ambientes diferentes. Depois, lembrei-me dos programas de rádio que eu fazia quando era miúdo, em rádios locais como a Rádio Clube Leiria, e no trabalho que punha nas playlists, nas interjeições e maluquices, nos jingles que eu inventava. O programa era uma espécie de universo isolado. Apesar das canções não serem minhas, a playlist falava muito sobre mim, sobre a minha forma de ser.  Achei que era interessante essa ideia desse universo, mas apenas com música minha. Em vez de fazer playlists com canções de outros, como se faz na rádio, fazer um disco em forma de playlist. Foi assim que se chegou à diversidade deste Radio Gemini. Foi também o resultado de muitas viagens. O disco soa assim porque também tem a ver com todos os sítios diversos onde estive na feitura deste disco.

De alguma forma, o Radio Gemini é o resultado de um David Fonseca mais “crescido”, incentivado por todo o percurso percorrido, ou é um vislumbre de um David Fonseca motivado pelas “loucuras juvenis”? Uma junção, quiçá?

Não tenho a certeza se é uma coisa ou outra. À medida que vamos fazendo mais discos há sempre a tentação de dizer que os discos são o resultado de uma certa maturidade ou uma espécie de visitação à adolescência.  Eu acho que todos os discos (toda a música) é uma espécie de perdurar adolescente. A adolescência é uma idade em que se está mais disponível, com tempo, com outro tipo de preocupações que depois mais tarde parecem não existir. Para mim, a música é: agarrar uma ideia, uma sensação que existe nessa altura e que depois se vai transformando ao longo dos anos e da idade. O estado da música em si acaba sempre por ser um bocado juvenil. O que acontece é que, à medida que o tempo vai passando, as ideias são outras e, apesar desse estado juvenil se manter, fala-se de outras coisas que anteriormente não se falava. Talvez seja um misto entre as duas.

Na altura do lançamento do disco, o David tinha descrito o Radio Gemini como “um disco diferente de qualquer outro, cheio de curvas e contracurvas e muitas ideias musicais que espelham as experiências, loucuras, devaneios e formas de viver” que o rodeiam. Quer esclarecer-nos isto? Qual é a principal mensagem deste trabalho?

Com Radio Gemini, a ideia não é trazer uma mensagem. As canções falam muito mais das inquietações que me assistem. As curvas e contracurvas e loucuras de que eu falo tem a ver com a diversidade que existe neste disco e com as diferentes paisagens sonoras que existem no disco. O disco todo foi feito de uma forma pouco usual.

Consegue já traçar algum feedback do público relativamente a este disco? Parece-lhe que a aceitação deste trabalho está a corresponder às suas expetativas?

Quando lanço um disco, não faço a mínima ideia do que vai acontecer. Já há muito tempo que deixei de ter expetativas em relação àquilo que as pessoas acham dos discos. É impossível para qualquer músico adivinhar o que é que as pessoas vão achar do seu trabalho, ainda por cima com trabalhos tão diferentes como eu tenho apresentando ao longo dos anos. Tenho tido uma resposta muito boa a este disco, talvez uma das melhores dos últimos anos e obviamente fico muito contente por isso.

Depois de Futuro Eu, em que nos apresentou um álbum cantado em português, este Radio Gemini volta ao inglês. Houve algum tipo de estratégia? Ou simplesmente aconteceu?

Porque simplesmente aconteceu! Não há aqui nenhuma estratégia, apenas algo que acontece como tudo o resto. Gosto disso. Gosto da ideia de que, na música e na arte em si, não há propriamente um plano, que não é tudo uma estratégia de uma marca que nos quer vender alguma coisa. Felizmente – pelo menos na minha música -, não é nada disso que se passa. Faço aquilo que sinto e que acho que devo fazer. Espero que continue a ser sempre assim.

Com um vídeoclipe gravado no Japão, o tema “Oh My Heart” invade neste momento as rádios e está a ser cantarolado pelos portugueses. Como foi esta experiência de gravação no horizonte nipónico? Aquelas danças com algum humor à mistura trouxeram também uma irreverência e boa disposição à canção, correto?

O facto de ter sido gravado no Japão era exatamente pôr-me num sítio que não me era familiar e ver o que acontecia. O vídeo não corresponde a plano absolutamente nenhum. O único plano que havia era: vou para o Japão e vou pôr a câmara em sítios bastante conhecidos, onde se encontram imensos turistas e basicamente cantar a canção. Esse era o plano. O que torna o vídeo mais curioso é essa naturalidade que se passa ali. Estou em frente à câmara a divertir-me com pessoas que estão à minha volta. O facto de estar no Japão também potenciou tudo isto: os sítios eram maravilhosos e o povo inacreditável. A alegria que se vê no vídeo tem a ver com a alegria que estava a viver naquele momento.

Marcará presença no festival EDP Vilar de Mouros, no próximo mês de agosto. O que poderá o público aguardar neste concerto?

Estou muito feliz por ir tocar ao festival, em Vilar de Mouros. Toquei lá há dois anos e foi provavelmente o melhor concerto da digressão. Fui muito bem-recebido em Vilar de Mouros e foi uma experiência inacreditável! Como é óbvio estou muito contente por voltar. Estou a preparar um espetáculo muito específico para Vilar de Mouros. Quero estar à altura das expetativas que o espetáculo num festival proporciona. Vou fazer um espetáculo exclusivo para este festival. Não vou falar muito sobre isso porque ainda acho que uma das boas coisas de ver um concerto é, efetivamente, vê-lo e não saber o que vai acontecer. Vão haver surpresas e vai ser uma noite muito animada, não só pelo concerto, mas por todos os concertos que Vilar de Mouros irá proporcionar.

De uma forma geral, como é que o David Fonseca descreve a música feita em Portugal, nomeadamente a música Pop? Pode traçar-nos um perfil da música feita em Portugal hoje?

É muito difícil traçar um retrato geral da música em Portugal. Felizmente, ao contrário de outros países, onde a música está centrada em dois ou três géneros, Portugal tem todos os géneros. Acho que tem a ver com o facto de sermos um país à beira-mar, com tradição de turismo. Efetivamente somos um país multicultural em todos os sentidos. Na Europa, Portugal é um dos países que mais géneros musicais alberga e sempre com propostas incríveis. Temos bons grupos de hip-hop, de metal, de música africana, de música pop e rock. Portugal consegue albergar, não apenas géneros musicais, mas muitos e bons projetos em cada área. Isso é algo que, para um país tão pequeno como o nosso, é de louvar! Um país maior teria muito mais hipótese de ter mais diversidade.

A música portuguesa atravessa um ótimo momento. A única coisa que nos falta é ter uma preponderância maior. Não há uma diminuição na qualidade naquilo que fazemos por estarmos em Portugal, muito pelo contrário, até fazemos música melhor do que em muitos países europeus! Só não temos ainda o savoir faire, quer política ou estrategicamente, para pôr toda essa criatividade lá fora. Mas julgo que ainda vamos a tempo.

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