Revista Rua

2018-10-02T12:30:35+00:00 Opinião

.desistir ou continuar?.

A Civilização do Espectáculo
Cátia Faísco
Cátia Faísco
2 Outubro, 2018
.desistir ou continuar?.

A memória é uma espécie de narrativa que contamos a nós próprios sempre que dela precisamos. Para o bem e para o mal. Por vezes, funciona como uma espécie de aviso, que faz questão de nos lembrar de momentos que preferíamos esquecer. Obviamente que isto se aplica quer à vida pessoal, quer à profissional. Ponderamos em função de recordações ou, por vezes, em função do que poderá vir. E quando se trata de percebermos o que queremos, lá vem a eterna companheira que nos obriga a sentar e a ponderar tudo. Portanto, desistir ou continuar?

Um dia, ao chegar a casa depois de uma viagem a Coimbra, a minha mãe disse: “Só te vou pedir uma coisa. Por favor, não vás para teatro”. Eu tinha 17 anos e ainda estava a tentar decidir que curso é que ia escolher. Ouvi-la confessar aquela vontade, fez com que questionasse tudo o que tinha pensado como profissão para o futuro. O desabafo da minha mãe tinha surgido como resultado da sua passagem na Rua Ferreira Borges e de ver um grupo de mulheres e homens a fazer malabarismo para juntar algum dinheiro. Como, na altura, o grupo de teatro ao qual pertencia estava numa fase precisamente de fazer malabarismo em festas e eventos, creio que para a minha mãe foi uma espécie de choque perceber que, dali a uns anos, eu poderia ser uma daquelas pessoas. Obviamente que não estava em causa nenhum julgamento moral de felicidade ou de compromisso com a sociedade ou algo semelhante. Era apenas a questão instintivamente maternal de se assegurar que eu teria uma profissão que me garantisse um rendimento fixo.

Ser artista implica lutar contra muita coisa. Mas quando escolhemos continuar, ano após ano, a memória vai-se tornando numa amálgama de vontades concretizadas que, de uma forma ou de outra, nos dão alento e nos solidificam.

Na altura não perdi muito tempo com o assunto. Creio que, no meio das incertezas e de todas as nuances do crescimento, a única coisa que sabia era que gostava muito de escrever e que, qualquer curso que escolhesse, deveria levar-me a fazer isso. A verdade é que há quase vinte anos era tão difícil quanto agora fazer “carreira” como artista. Não havia certezas de nada, os recibos verdes faziam parte da gíria e etc., etc., etc…. E embora não tenha frequentado nenhum curso de teatro, não deixei de dedicar todas as minhas horas livres (e não livres) a criar momentos que pudessem exprimir as minhas escolhas artísticas. Ou seja, não escolhi desistir mesmo sabendo que aquela não iria ser a minha “profissão”.

Gosto de contar esta história aos meus alunos para que eles percebam que um curso não dita aquilo que vamos fazer no futuro, mas sim a nossa força de vontade. Ser artista implica lutar contra muita coisa. Mas quando escolhemos continuar, ano após ano, a memória vai-se tornando numa amálgama de vontades concretizadas que, de uma forma ou de outra, nos dão alento e nos solidificam.

Creio que, com os anos, comecei a encarar a noção de profissão da mesma forma que a noção de primeiro grande amor. Ou seja, quando estamos a crescer achamos que o nosso primeiro grande amor é aquele que reconhecemos como tal porque, precisamente, foi o primeiro. Depois crescemos e começamos a ter uma noção mais ampla e mais complexa do amor, percebendo que as coisas não são tão simples como quando se tem dez ou 17 anos. E o mesmo se aplica precisamente àquilo que queremos fazer profissionalmente. Portanto, tirar um curso é só o reconhecimento de uma primeira etapa da nossa vida. Continuar a desempenhar uma profissão só porque foi para aquilo que fomos formados é o mesmo que continuar com alguém só porque foi o nosso primeiro grande amor.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o Autor:
Dramaturga. Escolhi a eternuridade como palavra mãe porque sou teimosa. Prefiro a plateia ao palco. Penso melhor debaixo de água. Adoro pôr as mãos na massa. Professora, investigadora, yogui.

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