Revista Rua

2018-10-02T12:21:33+00:00 Opinião

Em círculos

Economia
Sílvia Sousa
Sílvia Sousa
2 Outubro, 2018
Em círculos

Se a ideia de andar em círculos tem uma conotação negativa de impasse inconsequente, na Economia o conceito surge como uma versão mais criativa e integrada de um crescimento e desenvolvimento económico sustentável.

A peculiaridade do conceito de Economia Circular, para além, naturalmente, da sua relativa novidade, é surgir num contexto prático, de definição e implementação de medidas de política, que vem suscitar a posteriori uma busca de um enquadramento teórico adequado, por parte da comunidade académica. No âmbito da União Europeia, assim como em países como a China e o Japão, o conceito tanto é utilizado pelos governos como nos negócios, estimando-se que as transações económicas enquadradas na Economia Circular criem ganhos económicos significativos quer a nível sectorial, quer para a economia como um todo. Não será, portanto, surpreendente que a Economia Circular surja como a abordagem recomendada para um crescimento económico aliado a um desenvolvimento económico e ambiental sustentável.

Recentemente, a literatura económica veio também propor uma abordagem crítica do conceito na perspetiva do desenvolvimento sustentável, considerando as suas três dimensões: económica, ambiental e social, definindo então a Economia Circular como aquela baseada nos sistemas societais de produção-consumo que maximizam a produção de um fluxo linear de materiais e energia, mas que evolui para a utilização de fluxos cíclicos.

Contudo, o desenvolvimento sustentável requer alterações disruptivas e inovações radicais e uma capacidade para ajustar tais alterações e inovações a um desenvolvimento sustentável, em particular, por parte das empresas industriais maduras e de grande dimensão.

A ideia é passar de um modelo linear (natureza-sociedade-natureza) de sistema económico moderno para um modelo circular que enfatize a reutilização dos produtos, componentes e materiais, a remanufactura, a remodelação e a reparação, a montante e a jusante, assim como o recurso a energias alternativas (solar, eólica, biomassa e derivada de resíduos), ao longo de toda a cadeia de produção de valor. A Economia Circular limita assim o fluxo de inputs no processo a um nível que a natureza tolere e utiliza os ciclos dos ecossistemas nos ciclos económicos, respeitando a taxa de reprodução natural dos primeiros.

Contudo, o desenvolvimento sustentável requer alterações disruptivas e inovações radicais e uma capacidade para ajustar tais alterações e inovações a um desenvolvimento sustentável, em particular, por parte das empresas industriais maduras e de grande dimensão. Há, portanto, que integrar a sustentabilidade e o desenvolvimento dos negócios. E, sendo exatamente isto que o modelo de Economia Circular oferece, na prática, a sua implementação é reduzida. As barreiras à transição para uma Economia Circular são, de facto, múltiplas, designadamente: financeiras, estruturais, operacionais, tecnológica e comportamentais.

O contributo da academia nesta matéria continua demasiado tímido, face à disseminação do conceito noutros meios. A ideia duma Economia Circular, ainda que utopicamente (?) aliciante, não deixa de colocar questões cujas respostas não são nem simples nem consensuais. Há importantes barreiras, algumas já identificadas, a solicitar soluções. Fica o desafio… ou corremos o risco de simplesmente andar em círculos!

Sobre o Autor:
Economista, Universidade do Minho.

Partilhar Artigo:
Fechar