Revista Rua

2018-09-11T14:42:25+00:00 Opinião

.escrever.

A Civilização do Espectáculo
Cátia Faísco
Cátia Faísco
11 Setembro, 2018
.escrever.

Setembro é sempre aquele mês preguiçoso que custa a arrancar. Os dedos deslizam pelo teclado, à espera de se voltarem a habituar à firmeza das teclas e a mente tenta abstrair-se das longas tardes ao sol, com preocupações diluídas na água. A única actividade que não interrompo nas férias é a escrita porque, para mim, escrever é tão importante como, digamos, tomar um bom pequeno almoço. E já sei que há muitas pessoas que saltam esta refeição, mas todos sabem que é a mais importante e a que nos faz arrancar para o dia.

Durante estas férias pensei muito sobre o acto de escrever. Reli alguns projectos que estão na pasta “a começar”, lembrei-me da vontade de alguns alunos em continuar a escrever para além dos exercícios da universidade, recordei livros que me influenciaram e reflecti acerca da presença da escrita em palco. E é sobre este último ponto que me quero debruçar nesta crónica.

Em Portugal, ainda continuamos a colocar no pedestal a figura do encenador, como se, sem esta, não fosse possível fazer absolutamente mais nada. A verdade é que, por adoptarmos frequentemente esta atitude, os próprios encenadores agem dessa forma. Aliás, quando se menciona que se vai ao teatro ver uma peça, a pergunta aparece de uma forma quase automática: quem é que encena? E, obviamente, só depois deste primeiro esclarecimento que dita, muitas vezes, a vontade de ir ou não assistir à peça, é que surgem as outras mini perguntas também elas, de alguma forma, hierarquizadas: intérpretes, dramaturgos, cenógrafos… Com isto, não defendo que quem escreve deve ser elevado a esse patamar. Mas, não consigo deixar de querer uma certa igualdade para todas as funções. Será assim tão estranho?

“Não acredito no “jeito” como ponto principal para se aferir o potencial de alguém. Até porque quem me conhece sabe que defendo o ginasticar diário do músculo da escrita”

O acto de escrever implica muita dedicação. Não acredito no “jeito” como ponto principal para se aferir o potencial de alguém. Até porque quem me conhece sabe que defendo o ginasticar diário do músculo da escrita. Sem isso, o “jeito” não serve absolutamente para nada. E a verdade é que podíamos ficar aqui interminavelmente a dar exemplos em que, sem trabalho, essa pequena faísca se apaga rapidamente. Portanto, quem investe na sua escrita com afinco, independentemente do valor estético, tem a minha total admiração.

Há dias em que se escreve muito, muito, muito e quando se relê, não se aproveita absolutamente nada. Mas isso faz parte, porque para se escrever algo bom é preciso saber reconhecer o mau.  E a escrita para palco tem muito de tentativas, de experimentação, até se conseguir colar a voz do papel à voz do actor. Quem tem a oportunidade de trabalhar directamente com os intérpretes, tem a possibilidade de limar o texto até sentir que todas as arestas estão polidas. Mas é um trabalho que exige muito mais do que um impulso ou mesmo uma improvisação.  Por isso mesmo, para mim, a escrita dramática tem uma magia que nenhum outro tipo de escrita tem. É absolutamente maravilhoso observar a materialização das palavras e a composição de uma cena através do exponenciar de uma ideia.

E termino com a mesma ideia que comecei: Setembro é mesmo um mês preguiçoso. Mas, daqui a pouco os dias tornar-se-ão mais frios e há pouca coisa que me aqueça tanto como uma boa tarde de escrita!

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o Autor:
Escolhi a eternuridade como palavra mãe porque sou teimosa. Prefiro a plateia ao palco. Penso melhor debaixo de água. Adoro pôr as mãos na massa. Professora, investigadora, yogui.

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