Revista Rua

2018-11-06T12:28:50+00:00 Opinião

Esquecemos como fazer cidade

Arquitetura
Tiago Do Vale
Tiago Do Vale
6 Novembro, 2018
Esquecemos como fazer cidade

O tema da identidade das cidades e da sua silenciosa, mas explosiva evaporação tem estado muito presente no meu dia a dia profissional e na reflexão a que a minha prática obriga. Estes textos que aqui vou deixando acabam por ser um espelho dessa realidade e uma espécie de síntese do que vai ocupando os nossos pensamentos.

Dito isto, aparentemente, esquecemos como fazer cidade.

Recuando um par de séculos, fazer cidade não parecia ser um problema: as cidades combinavam domesticidade e monumentalidade com naturalidade, aperfeiçoando tipologias próprias, procurando enfiamentos, pontos focais, controlando a topografia com grande sabedoria e com grandes esforços de engenharia, produzindo experiências urbanas únicas e suas.

Não quero dizer que era, naturalmente, um exercício simples ou fácil: exigia por vezes uma grande capacidade criativa, económica ou social, mas a verdade é que se produziram consistentemente excelentes exemplos de urbanismo em todos os continentes, em todas as épocas e sob todos os tipos de regime político.

Hoje encontramos, especialmente na Europa, cidades onde a vida urbana se foca exclusivamente nos centros, compostos à volta de velhos edifícios e de hábitos urbanos de sempre, mas remetendo o grosso da população para uma periferia atroz. Outras há em que os centros são o oposto: deteriorados, abandonados, caracterizados pela pobreza, pela criminalidade e pela insalubridade. Sobretudo na Ásia, há também cidades que não são mais do que um contínuo infindável e amorfo de construção, sem urbanidade, centralidade ou ideia de espaço público.

“Há, portanto, uma forte necessidade de encontrar saídas destes modelos extremados e desequilibrados de cidade. As cidades cresceram porque a vida urbana apresenta qualidades difíceis de rebater. Não existe civilização sem cidade, sem encontro de mentes, sem cruzamento de ideias”

Há, portanto, uma forte necessidade de encontrar saídas destes modelos extremados e desequilibrados de cidade. As cidades cresceram porque a vida urbana apresenta qualidades difíceis de rebater. Não existe civilização sem cidade, sem encontro de mentes, sem cruzamento de ideias. A confusão e a fricção entre pessoas geram espaços ruidosos e criativos, lugares onde o inesperado acontece, onde experienciamos a diferença. Esta simbiose social natural está em extinção. O novo urbanismo, desenhado pelas forças da comercialização do território, não produz “lugares”: produz vazios entre edifícios, concebidos como peças singulares sem uma estratégia urbana profunda que os conforme… E, como vemos na nossa periferia, a soma de edifícios não faz cidade.

O subúrbio – onde nada de substância acontece – não é a resposta para a necessidade que a maior parte de nós sente de viver em comunidade. A eliminação da identidade, a uniformização, o esvaziamento da ideia de cidade como espaço público partilhado, leva à extinção da cultura. É claro que não podemos reproduzir as cidades do século XIX ou do início do século XX – nem devemos – mas também não precisamos de abandonar os seus valores.

A motivação para o desenvolvimento urbano tem de incluir, para além da visão financeira, o benefício da cidade e da sociedade através do espaço público como motor da vida urbana. Precisamos disso para que se possa voltar a desenhar cidade “boa” no século XXI.

Sobre o Autor:
Arquiteto pela Universidade de Coimbra, vencedor do American Architecture Prize 2017 e do Building of The Year Awards 2014. O seu trabalho pode ser consultado em www.tiagodovale.com

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