2018-06-05T16:02:09+00:00 Cultura, Em Destaque, Teatro

Festivais Gil Vicente

A arte teatral num espaço de partilha
Maria Inês Neto
Maria Inês Neto4 Junho, 2018
Festivais Gil Vicente
A arte teatral num espaço de partilha

Guimarães recebe os Festivais Gil Vicente de 7 a 16 de junho. Esta 31ª edição traz duas estreias absolutas ao palco do Centro Cultural Vila Flor e lança um olhar profundo sobre a criação teatral nacional.

Os Festivais Gil Vicente, o principal espetáculo de teatro da cidade de Guimarães, que se realiza de forma ininterrupta desde 1987, está de volta. A 31ª edição do festival destaca duas estreias absolutas e lança um olhar profundo sobre a criação teatral nacional. Durante os dias 7 e 16 de junho sobem ao palco do Centro Cultural Vila Flor um elenco de espetáculos relevantes que durante duas semanas pretendem gerar inquietação e debate na cidade e no público.

O mês de junho é tradicionalmente sinónimo de mais uma edição dos aguardados Festivais Gil Vicente, que, em memória do primeiro grande dramaturgo português, se dedicam à inspiração e criação nacional. O festival assume-se como uma pluralidade do teatro e uma viagem entre polos opostos como o futuro e a incerteza, o amor e a crise, o real e o absurdo, a memória e a identidade, o medo e o desejo, a imaginação e a revolução. “Mais do que nunca, esta arte de corpo vivo nada deixará por explorar. Escolham-se por isso os caminhos mais convenientes e tome-se o teatro enquanto espaço público de debate, porque na realidade nasceu para tal fim”, afirma Rui Torrinha, programador artístico do Centro Cultural Vila Flor.

A edição arranca com duas estreias absolutas sendo a primeira Pulmões, de Luís Araújo, com exibição marcada para dia 7 de junho, o primeiro dia do festival. Pulmões evidencia uma geração que faz da incerteza um modo natural de vida. É a história de um casal na casa dos trinta que durante uma ida ao Ikea discute a ideia de ter um filho e do impacto que isso terá neles e no planeta. “Será que sou boa pessoa? Serei um bom pai? Que tipo de mundo herdará o nosso filho? É sensato ou necessário trazer mais uma criança a este mundo?” Não se trata de uma peça sobre mudanças climáticas, mas antes sobre pessoas, mais concretamente um jovem casal que se vê confrontado com uma possibilidade inesperada que os leva a reavaliar o seu futuro. Com encenação de Luís Araújo, que depois de apresentar Subterrâneo, em 2016, volta a assinar uma criação para o Ao Cabo Teatro. Pulmões, do dramaturgo britânico Duncan Macmillan, expressa uma geração que vive num estado de ansiedade perpétua.

Fotografia: Pulmões – D.R.

Segue-se a segunda estreia absoluta, Retábulos, no dia 8 de junho, a nova peça do Teatro Oficina que leva a cidade para cima do palco, sendo esta a protagonista de destaque desta criação: mais um projeto com participações ativas da companhia de teatro de Guimarães. O elenco nomeado para esta exibição de arte teatral não é à toa, são mais uma vez os alunos das Oficinas do Teatro Oficina, com idades compreendidas entre os oito e os 64 anos, que já desde o ano passado dedicam parte do seu dia ao teatro. Uma cidade que é feita de professores, estudantes, advogados, gestores, desempregados ou reformados é agora convidada a representar no palco do CCVF uma cidade de Alcaides e Governadores, tornando-se palco de manifestos.

Fotografia: Retábulos – Paulo Pacheco

A primeira semana dos Festivais Gil Vicente fica concluída com a apresentação da peça Se Eu Vivesse Tu Morrias, no dia 9 de junho, um espetáculo de Miguel Castro Caldas e Lígia Soares, Miguel Loureiro e Tiago Barbosa, Filipe Pinto, Gonçalo Areia e Salomé Marques que exploram um dos limites do teatro: o texto, que é entregue ao público no início do espetáculo. Vencedor do Prémio SPA 2017 para Melhor Texto Português Representado, esta peça assume o caráter de uma investigação, de um ensaio. O objetivo é levar o espectador a alternar entre a leitura do texto e a visão da representação, sendo que o espetáculo acontece nesses intervalos particulares entre o ler e o ver, entre o livro e o palco, entre o levantar e o baixar da cabeça.

Fotografia: Se Eu Vivesse Tu morrias – Vitorino Coragem

Segue-se a segunda semana, que começa dia 14 de junho com Tónan Quito com a apresentação de Casimiro e Carolina, de Horváth, uma particular história de amor que fala sobre as consequências da crise de 1929 e da atual que vivemos. Num contexto de crise, desemprego, medidas de austeridade e depressão, o casal parece não sobreviver à rutura, levantando a questão: é possível amar em tempo de crise?

Chega a vez de Estelle Franco, Mariana Ricardo, Masako Hattori, Paula Diogo e Sónia Baptista que vêm propor ao público uma reflexão sobre o limite da memória nas nossas vidas através do espetáculo Lembrar e Esquecer, com exibição a 15 de junho. Cinco criadoras-intérpretes vindas de lugares diferentes e com experiências distintas, sendo esta a primeira peça de uma trilogia que fica completa com a apresentação das peças A Estação de Outono e Paisagem. Quando tudo foge de controlo, esta peça sugere a mudança das memórias para uma zona de luz.

Fotografia: Casimiro e Carolina – Filipe Ferreira

A agenda de espetáculos termina a 16 de junho com Perplexos, de Cristina Carvalhal, uma peça em que a realidade parece ser continuamente reformulada, tocando o absurdo. Variados temas presentes nesta espécie de comédia de costumes relacionam-se com os casais, os filhos, Darwin e a lei do mais forte, a sombra nazi ou um baile de máscaras, numa experiência de limites que se vão desenrolar. “Limite por nos colocar na fronteira entre o real e o absurdo onde o constante jogo de reformulações nos provocará inquietação”, antecede Rui Torrinha.

O programa dos Festivais de Gil Vicente só fica completo com o Gangue de Guimarães, grupo de artistas em residência no Centro de Criação de Candoso e dramaturgos em oficina no Palácio Vila Flor. Repetindo o formato inaugurado na edição anterior, este segundo encontro acontecerá em vários locais selecionados durante os dias 4 a 17 de junho. Nesta edição, os alunos e ex-alunos da Licenciatura em Teatro da Universidade do Minho juntam-se igualmente ao programa de atividades paralelas, invadindo e conquistando o Espaço Oficina com a apresentação dos seus projetos. Os Festivais Gil Vicente são um fenómeno de criação de relações, a possibilidade de uma abertura de caminhos de encontros, um espaço de partilha e união de distintas experiências que se cruzam num lugar único.

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