Revista Rua

2018-06-04T08:16:52+00:00 Opinião

Gerês tropical

Palavras
Paulo Brandão
Paulo Brandão
4 Junho, 2018
Gerês tropical

Já muitas vezes ouvi dizer que a Braga só lhe falta o mar. E por vezes sinto isso, é verdade. Há até um mito urbano, que aqui deixo espraiado, de que alguém, no início dos anos 80, terá proposto ao então presidente da câmara trazer um braço de mar até à cidade. Algo da ordem do enigmático, se bem que o sol é o mesmo, na Apúlia e em Braga, argumentaria o proponente.

Aqui ao lado, entretanto, bem mais sensato, o Gerês é profundamente sensorial e nada impostor. É um corpo verde, cheio de vida, que mete respeito. Tem tanto de gentil como de mortal. Esconde animais, fauna, flora, gente valiosa, águas quentes e frias, cogumelos, espargos, restaurantes de bons cozinhados, bom pasto, sossegadas pousadas, eiras, estradas mirabolantes e caminhos sem saída, aldeias com nomes de pessoas e até certamente rios contaminados pela salgada água do mar a poucos quilómetros dali.

Sinto a falta do Gerês, embora ache que não sou um bom amigo. Não porque o fira, use ou abuse do seu ambiente, até porque não tenho carro e detesto o cheiro a gasolina das motos de água e seus exibicionistas convictos. Mas porque conheço mal, por não estar a par das conversas, da tradição oral, do diálogo dos locais, das histórias cruciais de inverno, da sua geografia sem paralelo e, sobretudo, por não aparecer mais vezes, não alugar uma tenda bem lá no meio da floresta e permanecer em meditação, escrita e amores vários.

“O Gerês é abismal no inverno. No verão é sopa. Há até um rio que se chama Caldo”.

O Gerês é abismal no inverno. No verão é sopa. Há até um rio que se chama Caldo. Imagino que seja pelas suas águas, por vezes quase tropicais, uma palavra que de todo não se adequa ao Gerês, que de tropical julgo não ter nada, a não ser o ananás que servem na pizzaria vizinha do rio e alguma humidade que por vezes toma conta da paisagem.

Este ano, está nos meus planos, irei mais vezes. Está nos planos ir, embora sem nenhum plano do que fazer. O Gerês tem muito para descobrir. Mas para tal não basta ir. É preciso conhecer lá alguém, ter lá alguém. Que nos possa guiar pelas cascatas e apontar quais são as mais cristalinas ou menos rugosas. Que nos indique qual o melhor pão e os rochedos escaláveis. Porque é certo que no ano a seguir já esquecemos o caminho e até há outros recantos a achar. E aí, de novo, voltamos a combinar com alguém para que nos guie na aventura e nos deixe lá feitos lagartos ao sol, esperando um beijo ou o despertar de uma picada de inseto.

Nos anos 20, um estudante brilhante, nascido na antiga Boêmia, chega a Paris de bolsos cheios e instala-se perto da Torre Eiffel. Chamava-se Victor Lustig e muito rapidamente o tratariam por Monsieur Comte Lustig. Na história ficaria conhecido por ter vendido aquele ícone com a assinatura, imagine-se, do primeiro-ministro de França e do presidente da República.

Não creio que sejamos ingénuos ao ponto de acreditar que o mar poderia realmente chegar a Braga ou que o Gerês é um paraíso em tudo. Mas julgo que seremos patetas e trapaceiros e mentirosos ao negar que, aqui perto, para o lado do litoral ou da montanha, podemos encontrar a paz, o ar puro, a amizade de paisagens únicas e que são a nossa identidade. O nosso melhor golpe? Escapar todos os fins de semana pegando o primeiro navio do desejo em direção à natureza. Façamos disso a nossa maior fortuna.

Sobre o autor:
Diretor artístico do Theatro Circo

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