Revista Rua

2018-08-06T18:29:11+00:00 Cultura, Música

Imploding Stars – Onde a vida começa e acaba

Nuno Sampaio
Nuno Sampaio6 Agosto, 2018
Imploding Stars – Onde a vida começa e acaba

O quinteto bracarense composto por Francisco Carvalho, Rafael Lemos, Jorge Cruz, João Figueiredo e Élio Mateus lançou recentemente Riverine, o segundo álbum da banda que assegura uma contemplação que vai muito além de uma definição de um estilo.

Nasceram no final de 2010 e até agora já nasceram dois álbuns, A Mountain & a Tree, em 2014, e o mais recente Riverine. Entretanto houve mudanças na composição da banda. De que forma isso influenciou a passagem de um álbum para o outro?

Influencia na medida em que cada um de nós traz um input muito pessoal ao coletivo, seja ele de forma mais pessoal, pela forma de tocar e pelo respetivo background, seja mais até pela visão que cada um de nós tem da banda, do disco e do tema, respetivamente.

A Mountain & a Tree é um álbum mais ligado aos elementos da natureza, mais objetivo num sentido orgânico, quase um lugar onde podemos habitar. Riverine é humano; é também, e sobretudo, ocupado pela distância de ser humano – as fases da vida. Riverine é um resultado natural de Mountain & a Tree?

Sim, é quase uma evolução lógica. Não querendo aqui assumir que estamos a fazer alguma espécie de trilogia ou algo do género, a verdade é que depois de nos debruçarmos sobre natureza em si, sentimos que fazia todo o sentido. Olhando em retrospetiva, diria até que é a ordem certa, porque foi preciso outro “estofo” criativo para passar da natureza em geral ao íntimo da vida humana em particular.

Os vossos álbuns são uma música só?

Não, mas sendo trabalhos conceptuais, são pensados para ouvir por inteiro, de início ao fim, como uma experiência só. Tentamos inclusive que essa faceta fosse mais vincada em Riverine, tanto quanto nos ajudaram “o engenho e a arte”.

Em Riverine há uma passagem mais pausada, mais marcante da “Childhood” para “Adolescence”. Algum motivo especial?

Talvez seja a puberdade? Fora de brincadeira: pode ser interpretado como um reflexo do quanto o tempo aparenta demorar a passar nessa fase, relativamente às posteriores. Ao fim e ao cabo, vai ser a última altura da tua vida em que queres crescer rápido.

Vocês têm uma explicação individual para cada música do Riverine. É uma memória introspetiva da banda?

Sim, do coletivo em geral, e que resulta da experiência de cada um compilada com a dos outros. O mais engraçado, em termos criativos, acabou por ser a segunda metade do álbum, cronologicamente, porque nenhum de nós está lá e apenas podemos especular sobre como será. Há ainda o desafio de extrapolar sonoramente essa memória, visto que não temos uma voz como “muleta” para nos ajudar.

 

Porquê a escolha de “Demise” (fim da vida) para single e vídeo?

Para ser mais rigoroso, é o segundo single, porque antes apresentamos “Midlife” como um primeiro avanço do álbum, por ser o tema que, musicalmente falando, melhor resume o álbum todo. Quanto ao primeiro vídeo, tivemos vários em cima da mesa, mas acabamos por escolher “Demise” porque além de ser um tema musicalmente muito direto, muito frontal, conceptualmente acaba por ser o tema mais forte, ao contrastar com um álbum que nos fala sobre o ciclo da vida.

O vosso processo de criação é feito em conjunto?

Sim. Em alguns casos partindo de algum material que já existe à priori, como um riff de guitarra ou alguma ideia mais concretizada, ou então de jams que fazemos durante os ensaios, como é o caso de “Rebirth”, um tema que foi criado num só ensaio. Voltando um pouco à primeira pergunta, cada um tem a sua visão sobre os temas e a sua abordagem à música, pelo que o consenso geral é fundamental para um tema ver a luz do dia.

É em palco que sentem maior liberdade de processo das vossas músicas?

Não poria as coisas dessa forma. São fases diferentes da criação de um álbum, e todas elas pesam tanto e são tão interessantes umas como as outras. Simplesmente as energias e as experiências são diferentes. O palco é o sítio onde és mais livre, como músico. É a manifestação mais enérgica e mais visível, mas também a mais óbvia. Antes disso, aquando da composição e gravação, é capaz de até ser a altura em que fazes por pensar mais fora da caixa e pôr todas as ideias em cima da mesa.

O Post-Rock é um género musical cada vez mais acolhido em Portugal. Bandas como Mogwai ou Explosions In The Sky conseguiram transportar e dinamizar este conceito musical para um outro nível. Acham que o nosso público também já aderiu a esta nova experiência?

Está a aderir. Mais do que bandas em específico, a globalização tem tido um papel fundamental a este nível, não só porque permite o acesso a todo um mundo de música nova ao público em geral e ao português em particular, mas também permite ao tecido musical emergente em Portugal dar um salto quântico a todos os níveis. Faz-se cada vez mais e melhor música no nosso país, por isso, não me admira que o público português seja ele próprio também cada vez mais atento, eclético e bom apreciador de música.

 Já têm previsto um sucessor para Riverine?

Para já estamos completamente atolados na promoção do novo disco, o que não nos deixa disponibilidade para um terceiro. Em todo o caso, existem já ideias soltas, sem expressão musical ainda, sobre como irá ser o próximo.

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