Revista Rua

2018-08-20T12:21:59+00:00 Opinião

Incêndios florestais em Portugal continental em 2017

Partilhar Artigo:
Redação
Redação30 Janeiro, 2018
Incêndios florestais em Portugal continental em 2017
Partilhar Artigo:

Portugal reúne as condições para se poder afirmar que possui um “piro ambiente”, pois junta às caraterísticas mediterrâneas, que conjugam a época quente com a época seca, a feição atlântica, que lhe permite uma elevada produtividade vegetal.

Por outro lado, fruto da desestruturação do mundo rural, do desordenamento do território, do desordenamento florestal (com predomínio das monoculturas de espécies muito inflamáveis, como o eucalipto e o pinheiro bravo) e de uma profunda falta de educação florestal/cívica, Portugal apresenta uma das mais elevadas taxas de ignições a nível mundial, com uma clara tendência positiva para o acréscimo, tanto do número e da dimensão dos “grandes incêndios” como, especialmente, da sua capacidade destruidora.

No entanto, apenas um pequeno número de incêndios florestais é responsável pela esmagadora maioria da percentagem de áreas ardidas (em 2017, apenas 124 incêndios, 1,26% do total das ignições, foram responsáveis por 93% do total da área ardida, 412.781 ha), sendo as regiões mais populosas, do litoral, as que têm um maior número de incêndios florestais, enquanto que as áreas com menores densidades populacionais e mais envelhecidas, do interior, possuem uma maior extensão de áreas queimadas.

Ano após ano, Portugal tem vindo a testemunhar essa realidade, pois, se até 1986 nunca tínhamos sido flagelados por um incêndio com dimensão superior a 10.000 ha, 2003 viu franquear a marca dos 20.000 ha e, 2017, por duas vezes, a dos 25.000 ha, duas vezes a dos 30.000 ha e uma a dos 40.000 ha.

Com efeito, 2017 ficará para sempre marcado como o ano mais dramático em termos de perda de vidas humanas relacionadas com catástrofes (ditas) naturais, só sendo ultrapassado pelo sismo de 1755 e pelas cheias de 1967, pois mais de 100 pessoas morreram em Portugal, encurraladas por incêndios extremos, em apenas dois dias, 17 de junho (64 pessoas diretamente e mais duas indiretamente) e 15 de outubro (45 pessoas), antes e depois da chamada época “normal” dos incêndios.

Assim, num mundo em rápida mudança e com as alterações climáticas a contribuírem para que os grandes incêndios se tornem cada vez mais frequentes, maiores e mais destruidores, convertendo este regime excecional de incêndios extremos no regime “normal” de incêndios, o país precisa urgentemente de profissionais altamente qualificados, com um profundo conhecimento do território e das suas dinâmicas, com capacidade para delinear medidas de prevenção, combate, minimização, gestão, comunicação do risco e reabilitação das comunidades afetadas. Nesse sentido, a aprovada licenciatura em Proteção Civil e Gestão do Território, da Universidade do Minho, poderá dar um importante contributo na formação dos referidos profissionais.

Neste momento, tal como aconteceu depois dos terríveis incêndios de 2003 e 2005, assistimos a uma (nova) reforma florestal, que, entre outros aspetos, está a dar os primeiros passos no sentido de implementar o cadastral das propriedades florestais. Assim, esperemos (sem grandes ilusões) que 2017, no futuro, para além de ser recordado como um ano trágico, seja também recordado como o ano de viragem na política florestal em Portugal.

Por António José Bento Gonçalves

Sobre o Autor

Departamento de Geografia, Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho (bento@geografia.uminho.pt)

António José Bento Gonçalves é licenciado em Geografia e possui mestrado em Geografia Física pela Universidade de Coimbra (Portugal) tendo-se doutorado em Geografia Física e Estudos Ambientais pela Universidade do Minho (Portugal), onde é professor no Departamento de Geografia do Instituto de Ciências Sociais (ICS) desde 1998.

É membro da Direção da Associação Portuguesa de Geógrafos (APG) e investigador sénior do CEGOT (Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território das Universidades de Coimbra, Porto e Minho), desenvolvendo a sua atividade científica no âmbito dos incêndios florestais, da erosão e degradação dos solos e dos riscos naturais.

Partilhar Artigo:
Fechar