Revista Rua

2018-10-02T13:53:17+00:00 Opinião

Infantilidades por extenso

Humor
João Lobo Monteiro
João Lobo Monteiro
2 Outubro, 2018
Infantilidades por extenso

No momento em que escrevo este texto, o meu sobrinho ainda não nasceu. No momento em que este texto for publicado, muito provavelmente, o meu sobrinho já nasceu. Milagres da natureza e do planeamento editorial da Rua.

Dada esta introdução, já adivinharam que vou falar sobre a recente polémica envolvendo Serena Williams e o árbitro português Carlos Ramos, principalmente da parte de a tenista ter dito que nunca fez batota, até porque tem uma filha e quer ser um exemplo para ela. Parece aquela chantagem emocional que, nos filmes, as vítimas fazem com os que virão a ser os seus assassinos: “Não me mate, eu tenho família”. Só quem é órfão deve ser assassinado nos filmes, ficam a saber.

Agora que já vos distraí, passemos ao assunto que me trouxe aqui: minudências e idiossincrasias do período pré-natal em que um futuro tio repara. Primeiro, o tempo passou rápido, porque ainda ontem soubemos da notícia e agora já cá está. Isto pode explicar-se pela circunstância de que, quando se fala na gestação, o tempo é contado em semanas, aparentemente porque fevereiro estraga calendários. Eu sou de Letras, portanto ficava sempre uns segundos a fazer contas para aferir o tempo da gravidez, quando me falavam em 24 semanas. Agora segue-se outra etapa de calculadora na mão, porque o tempo de vida vai passar a ser contado em meses. Estou ansioso por poder dizer que o miúdo faz anos, como as pessoas.

(…) Houve sempre brinquedinhos, chupetinhas, babinhas e mantinhas. Que vão para onde? Para gavetinhas e caixinhas, onde vão ficar armazenadinhas até serem utilizadazinhas, deixarem de ser do tamanhinho certinho, o rapaz ficar crescidinho e pararmos com esta historinha.

Outra característica desta etapa é que o enxoval – perdão, o enxovalzinho – encolhe todinho. Pelos relatos que foram feitos pelos pais e pelas compras que fizemos, em momento algum existiu uma chupeta, uma baba, uma manta ou um brinquedo; houve sempre brinquedinhos, chupetinhas, babinhas e mantinhas. Que vão para onde? Para gavetinhas e caixinhas, onde vão ficar armazenadinhas até serem utilizadazinhas, deixarem de ser do tamanhinho certinho, o rapaz ficar crescidinho e pararmos com esta historinha.

As ecografias são outro ponto que gostaria de abordar, mas não muito. Desde logo, pelo facto de que toda esta tecnologia já fez com que o meu sobrinho tenha melhores fotos, sem ter nascido, do que eu tenho com todos os filtros do smartphone. Depois, confesso a minha inabilidade (mais uma) para interpretar ecografias, porque onde vejo um braço, está a barriga, e onde não vejo nada, está tudo. Ainda bem que agora vou poder ver sempre em 3D.

Finalmente, tenho outra confissão para fazer: já comecei a fazer zapping nos canais infantis, para me ir habituando às minhas novas funções de tio que tem de entreter um crianço. Acho que é uma atitude nobre, esta da prospeção, faz parecer que sou uma pessoa interessada com o bem-estar do bebé, mas isto vai ser como quando vejo os menus de restaurantes: leio, há pratos com descrições interessantes, mas acabo sempre nos lombinhos com champignon. Aqui, vai haver Canal Panda, sim, mas só quando der o Tsubasa, para que ele aprenda desde novo o que é bom. E pô-lo a ver um jogo do campeonato argentino, de vez em quando, não digo que não.

Sobre o autor:
Tenho dois apelidos como os pivôs de telejornal, mas sou o comunicador menos comunicativo que há. Bom moço, sobretudo.

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