2018-05-03T10:53:29+00:00 Cultura, Talento

Joana de Carvalho e Silva

Aplausos e Tiroteios e o convite à imersão sistemática de Joana de Carvalho e Silva
Helena Mendes Pereira
Helena Mendes Pereira2 Março, 2018
Joana de Carvalho e Silva
Aplausos e Tiroteios e o convite à imersão sistemática de Joana de Carvalho e Silva
[ A Confissão da Sombra, 2012. Pastel de óleo sobre papel Fabriano, 115 x 150 cm ]

[ A Confissão da Sombra, 2012. Pastel de óleo sobre papel Fabriano, 115 x 150 cm ]

Há experiências estéticas que ficam em nós. Tomamo-las na memória e, à medida que as vamos repetindo, instalam-se como inquietações e inseguranças sobre o que considerávamos ser já terreno e expressão conhecidos. Os processos contemporâneos de curadoria, se considerarmos inclusive algumas teorias mais recentes sobre o papel do curador como substituto do crítico de arte (independentemente do enquadramento institucional), não são alheios ao gosto e à intuição. Comigo e com Joana de Carvalho e Silva (n.1988) passou-se assim. O stock da galeria shairart dst continha duas obras da artista natural de Braga e, à primeira vista, à segunda, à terceira e nas que se seguiram tive poucas dúvidas de que os nossos caminhos se haveriam de cruzar. As suas imagens deambulam, em termos de referencial histórico, entre as de Dominguez Alvarez (1906-1942) e as de Edward Hopper (1882-1967). São próximas do cinema de Jacques Tati (1907-1982) e, sobretudo, reportam-nos para o universo do teatro de Augusto Boal (1931-2009), de conflito humano interno e externo: “Mas nem só de aplausos vive o artista. Vive também de tiroteios. Suas relações com o público podem ser de comunhão, duelo ou guerra”, escreveu o dramaturgo brasileiro, inventor da estética do oprimido, em Aplausos e Tiroteios. Depois, além das viagens que a obra de Joana de Carvalho e Silva proporciona (e que a tornam rica, informada e intemporal) há o pastel, o domínio da técnica e a subtileza, às vezes raiva, que a artista empenha na relação de tensão entre composição, cor e mensagem que a sua obra consubstancia.

Joana de Carvalho e Silva sempre pintou. Contudo, resistiu inicialmente à vocação e optou por se licenciar em Psicologia pela Universidade do Minho (2006-2009). O mestrado em Pintura levou-a à Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (2010-2012) e atualmente encontra-se a frequentar o Doutoramento em Arte e Design, também na FBAUP. A amplitude da sua formação académica, dos seus interesses e a sensibilidade que coloca em cada palavra e em cada gesto, associam-se a uma elevada maturidade intelectual e a um exercício de reflexão sobre a sua produção plástica que dão coerência ao que nos propõe.

Sobre a sua mais recente exposição, que a galeria shairart dst acolhe de 3 de março a 28 de abril, Escrutínio do (In)visível – Pintura e Simulacro, diz-nos tratar-se de um “projeto pictórico centrado na temática do simulacro e configurado na relação entre espaço cinematográfico e espaço da pintura”.

Mas o que nos aproxima e inquieta nesta seleção de pinturas é o jogo que retira significantes ao quotidiano, com recurso à ironia e à melancolia, talvez mesmo o estado de depressão geral disfarçada em que todos nos encontramos e que, na sua pintura, Joana de Carvalho e Silva explora, sugestiona, convidando-nos a um processo de imersão sistémica.

[ Dicionário Prático do Ofício, 2012. Pastel de óleo sobre papel Fabriano, 115 x 150 cm ]

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