Revista Rua

Joana de Verona: “Acredito no não preconceito, no trabalho e na exigência”

A jovem atriz portuguesa dá vida, no grande ecrã, a Inês de Castro. O filme Pedro e Inês está em exibição nas salas nacionais.
Fotografia ©Pedro e Inês Filme
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira5 Novembro, 2018
Joana de Verona: “Acredito no não preconceito, no trabalho e na exigência”
A jovem atriz portuguesa dá vida, no grande ecrã, a Inês de Castro. O filme Pedro e Inês está em exibição nas salas nacionais.

Já lhe chamaram “musa da nova vaga do cinema português” e a verdade é que tem conquistado o coração dos portugueses ao interpretar uma das mais belas – e trágicas – histórias de amor da nossa História. Joana de Verona é Inês de Castro no filme de António Ferreira Pedro e Inês, que já levou mais de 40 mil portugueses às salas de cinema. Numa conversa sobre a carreira que tem construído, apresentamos Joana de Verona, a jovem atriz que abraça cada personagem, do grande ao pequeno ecrã, com “disponibilidade e entrega”.

Leia a entrevista na íntegra na próxima edição da RUA. Nas bancas brevemente!

A Joana cresceu entre o Brasil e Portugal. Considera que estas vivências, estas mudanças de cidade, moldou a sua personalidade ao ponto de hoje poder dizer que é uma mulher que facilmente abraça os desafios? Já disse várias vezes que tem facilidade de adaptação… 

Sim, faz com que seja mais adaptável. Com facilidade de abraçar o desconhecido e aceitar projetos arriscados que envolvem sair da zona de conforto em vários níveis.

Essa facilidade de adaptação é bastante visível nos trabalhos em que se tem apresentado. Entre novelas, séries, peças de teatro, filmes de época, Joana de Verona é o que uma personagem exige que ela seja? Como abraça os seus personagens? Algum método em específico? 

Não posso dizer que tenho um método X que uso sempre. O bom de se ter várias fontes, observar o mundo de vários prismas, vivenciar países e realidades artísticas e sociais distintas é que se trabalha a observação, a escuta, o estar atento e alerta de mente aberta. Sem ideias pré-concebidas, nem resistências. Acredito no não preconceito, na disponibilidade e entrega, no trabalho e na exigência.
Dentro de cada proposta artística e dependendo do processo de criação e dos criadores envolvidos existem demandas específicas. A junção de vários inputs de inspiração vão fazendo cada processo consoante a sua necessidade e ao que se propõe.

Diz-se “obstinada pelo trabalho”. Ser atriz, em Portugal, é sinónimo de trabalhos redobrados para uma afirmação de talento? Ou a Joana simplesmente considera que deve entregar a sua energia total aos projetos em que está envolvida? 

Entrega e cooperação é o que acredito que faz sentido.

Podemos falar de cinema? De uma forma direta: como é que a Joana vê o cinema feito em Portugal?

Gosto muito do cinema que é feito cá. Mentes abertas, talentosas, que arriscam, que são fiéis às suas fruições artísticas. Não havendo um enorme investimento nem propriamente indústria, talvez por isso mesmo se sinta liberdade e autenticidade no cinema português.

Joana de Verona com Diogo Amaral e António Ferreira | Fotografia ©Carlos Barradas/Pedro e Inês Filme

Neste momento, a Joana está nas salas de cinema portuguesas dando rosto a uma das mais belas e trágicas histórias de amor do imaginário português. Sabemos que é um filme de António Ferreira, que traz esta história em três momentos do tempo: passado, presente e futuro. Consegue descrever-nos este filme? E por que razão devem os portugueses correr às salas de cinema para assistir a este trabalho?

Este filme é sobretudo um filme sobre o amor e sobre a impossibilidade do amor. Fala sobre como é que D. Pedro, rei de Portugal, e Inês de Castro, rainha póstuma, ou seja, rainha de Portugal depois de morta, conseguem, nestes três tempos, apesar de todas as dificuldades específicas de cada contexto temporal, ultrapassar todos os obstáculos num amor que é tão poderoso e tão grandioso. E mesmo que seja, em todas as épocas, um final trágico, a verdade é que este amor tem de que ser vivido e vale a pena ser vivido. Eu acho que os portugueses vão gostar de ver este filme porque é, do meu ponto de vista, um filme muito bonito, muito bem feito em termos de realização, de fotografia, conta a história factual, a partir dos factos históricos, mas também do mito. Portanto, logo aí é interessante porque é uma história verídica e é uma forma de conhecer um pouco mais sobre a História de Portugal. Mas é também um filme que transgride ficcionalmente, porque vai até ao ponto de vista criativo da Rosa Lobo de Faria, no seu romance, e ainda do realizador. Há então aqui várias camadas de criação e é, sem dúvida, um filme que eu acho, pela crueldade e força da história, mas sobretudo pela beleza e pela grandiosidade deste amor, que vai cativar o público –  e tem cativado!

“[Pedro e Inês] é, sem dúvida, um filme que eu acho, pela crueldade e força da história, mas sobretudo pela beleza e pela grandiosidade deste amor, que vai cativar o público –  e tem cativado!”

É impossível não relembrarmos também a sua participação no filme brasileiro Praça Paris, da realizadora Lucia Murat. O filme estreou em Portugal no início do mês de outubro, apesar de ser um filme de 2017 e já ter feito todo o circuito de festivais (foi destacado até no Rio de Janeiro International Film Festival). Gostávamos que nos falasse desta história, numa altura em que sabemos que o panorama brasileiro é preocupante.

É um filme feito por uma realizadora que tem uma biografia particular, que fala sempre de questões sociais e aborda sempre nos seus filmes a violência porque, ela própria, foi uma militante de Esquerda na época da ditadura militar e, tal como tantas outras pessoas, foi torturada durante essa ditadura militar e exilada política. Chama-se Lucia Murat e é uma pessoa que lutou pelo Brasil, para tirar o país de uma ditadura e, portanto, tem propriedade para falar desta questão do abuso de poder através da violência. Este filme parte de dois arquétipos: uma portuguesa, branca, de classe média, que chega fascinada ao Brasil no contexto de uma tese do seu curso de Psicologia. A sua paciente é o arquétipo oposto: uma pessoa negra, de classe social desfavorecida, moradora da favela, irmã de um traficante e uma pessoa que tem um historial de vida bastante violento. Essa violência da paciente funciona como metáfora ou como extensão da violência de um Brasil atual. Este é um filme de há quase dois anos, mas infelizmente a violência no Brasil é uma triste realidade e é uma constante. Essa violência acaba por perseguir essa psicóloga, tornando-a paranoica, com medo deste país que, embora tão encantador, é tão inquietante que provoca tantos sentimentos contraditórios: todos os dias queremos continuar neste país e todos os dias queremos ir embora. Porque o medo é uma coisa presente, é inibidor da ação. O medo trava-nos. E é isso que acontece a esta personagem. É um filme que fala da realidade do Brasil, da realidade social, da realidade política, mas é também um thriller, é um suspense desta relação de dependência da psicóloga e da paciente, num processo psicológico que se chama contratransferência: quando as duas confundem um pouco o seu papel na relação e ficam muito ligadas, muito dependentes uma da outra.

Joana de Verona em Praça Paris, um filme de Lucia Murat

“É muito difícil aceitar que o Brasil esteja num retrocesso gigante, é muito triste ver o que tem acontecido, do ponto de vista humano, social, ideológico… Eu só espero que as coisas se possam manifestar menos negras do que aparentam”

Aproveitando a pergunta anterior e o facto de a Joana ter grande afinidade ao Brasil, é difícil aceitar que um país tão bonito, cheio de talento, esteja a passar por uma fase tão difícil?

Sim, é muito difícil aceitar que o Brasil esteja num retrocesso gigante, é muito triste ver o que tem acontecido, do ponto de vista humano, social, ideológico… Eu só espero que as coisas se possam manifestar menos negras do que aparentam, porque a verdade é que uma grande quantidade de pessoas está preocupada, em choque e temerosa com o futuro, porque o Brasil está a passar por uma fase muito difícil, sim. É um país muito complexo, porque é muito diverso, é gigante, tem imensos problemas de base, de fundo, a serem resolvidos, mas a questão também é que neste momento está a haver um retrocesso muito grande e que se espera que as coisas aconteçam pela melhor forma, que as coisas não sejam tão negras como aparentemente se teme. Mas, ao mesmo tempo, é um país lindíssimo, cheio de força e com uma identidade muito particular, completamente única. É complexo e é contraditório!

As novelas, o cinema, o teatro, o reconhecimento do público… Joana de Verona tem truques para conseguir o sucesso numa área tão difícil como a representação? 

Acho que não devem haver truques, mas sim disponibilidade, envolvimento e seriedade no que se faz.

Leia a entrevista na íntegra na próxima edição da RUA. Nas bancas brevemente!

Partilhar Artigo:
Fechar