2018-05-04T10:35:44+00:00 Cultura, Personalidades

Joana Gama

“A minha vida é muito mais interessante do que alguma vez podia ter sonhado”
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira3 Março, 2018
Joana Gama
“A minha vida é muito mais interessante do que alguma vez podia ter sonhado”

Os seus olhos fechados mostram-nos uma postura delicada, numa suavidade que envolve o espaço à medida que cada gesto seu encontra o piano. Joana Gama é bracarense e, ao piano, desvenda o seu jeito de ser: suave, sofisticado e intenso.

Fotografia: ©Nuno Sampaio

(sessão fotográfica foi realizada no Museu Nogueira da Silva, em Braga)

Em primeiro lugar, propomos uma breve viagem ao passado. Recorda-se do primeiro encontro com o piano? O que a atraiu na sua sonoridade?

Não me lembro desse primeiro encontro, mas tenho a sensação de ter gostado do piano desde o primeiro momento. A minha primeira professora de piano, Ema Pais Martins, apresentou-me o instrumento de uma forma lúdica e senti-me desde logo envolvida.

A Joana é uma mulher das artes. Na infância, o ballet preencheu as suas opções. O interesse pela música surge nesta envolvência da dança? Como diria que foi a sua entrada neste mundo criativo?

Comecei a estudar música e a fazer ballet praticamente ao mesmo tempo e sem dúvida que isso teve influência no meu percurso. E o facto de o acompanhamento das aulas de ballet ser com peças para piano fez com que este instrumento estivesse muito presente na minha vida, desde cedo. Tanto no piano como no ballet, o que me movia era a expressividade – a possibilidade de ser um veículo de emoções – e isso foi talvez o que me fez querer ficar no mundo das artes e explorar o que poderia ter para dizer.

Hoje, mantém com o piano uma relação umbilical. Era este o percurso que tinha em mente para si?

Digo muitas vezes que a minha vida é muito mais interessante do que alguma vez podia ter sonhado. Quando decidi seguir música não tinha muita noção do mar de possibilidades que é a existência, não pensei que seria possível ter uma vida tão diversificada como a que tenho hoje. O que me fez seguir música foi que, pesando todas as áreas que tinha estudado, era inequívoco que o que mais gostava de fazer na vida era tocar piano. Não sabia onde é que isso me iria levar, mas aceitei essa indefinição e essa espera.

Delicadeza, suavidade, graciosidade. A sua maneira de estar ao piano é um espelho da sua maneira de ser?

A minha postura ao piano foi muito influenciada pelo ballet: as costas direitas, a graciosidade dos movimentos são elementos dessa linguagem que me fascinava. Para além disso, a minha primeira professora passava às suas alunas uma certa solenidade no ato de tocar piano, e julgo que isso também teve influência na minha abordagem ao instrumento que, claro, transparece características da minha maneira de ser.

A cada nota, a sonoridade do piano transporta-a para um sítio em especial? Como encara esta sua ligação com o piano? Relaciona-se emotivamente com o que toca?

A minha relação com a música é muito emocional, sim. Lembro-me de, na minha adolescência, estar no quarto a ouvir os Anos de Peregrinação de Franz Liszt ou a Fantasias de Brahms e ficar fascinada com o impacto que aquelas obras tinham em mim. E quando comecei a tocar obras mais complexas que exigiam mais envolvimento emocional foi um grande desafio aprender a gerir as emoções: por um lado deixar-me envolver pela música, mas por outro manter a cabeça fria para não perder o controlo.

Tem trilhado um caminho imenso na música contemporânea. Dá aulas, envolve-se em vários projetos, alguns até aliados à dança, como é o exemplo deNocturno, com Victor Hugo Pontes. Quer falar-nos um pouco desta força que a move? Que projetos destaca neste seu percurso?

O que fui descobrindo ao longo dos anos é que através do piano consigo estar em contacto com realidades muito distintas. Através dos meus recitais, mantenho uma relação com repertório canónico, mais ligado à música contemporânea, e vou desenvolvendo o meu trabalho a solo; nos projetos autorais que tenho com o Luís Fernandes e o Ricardo Jacinto vou explorando o piano de uma forma mais intuitiva; nos projetos com as artes performativas o piano está em palco não só como um instrumento musical, mas como um elemento cénico. Cada projeto em que me envolvo amplia e aprofunda a minha relação com o piano.

É impossível não falarmos de Erik Satie. Embrenhou-se na obra do compositor francês de uma forma intrínseca. O que lhe traz Satie? Porquê este envolvimento com a obra?

  1. á conhecia algumas obras de Erik Satie, mas foi em 2010, quando preparei o concerto a que chamei Erik Satie, O Peripatético para o Festival Dias da Música,em Belém, no CCB, que o universo do compositor se começou a desvendar. O facto de gostar de saber mais sobre as obras que toco levou-me a ir descobrindo aos poucos o mundo fantástico de Erik Satie e o meu interesse pela sua vida e pela sua obra não parou de crescer.

Pode apresentar-nos o seu disco SATIE.150?

Este disco é o corolário de SATIE.150 – uma celebração em forma de guarda-chuva, que decorreu em 2016, com o apoio da Antena 2, em que dediquei grande parte do meu ano a assinalar os 150 anos do nascimento de Erik Satie. O que começou por ser uma digressão de doze recitais – um por mês – em doze localidades portuguesas, acabou por ganhar uma maior proporção. Neste âmbito, para além de dezassete recitais, realizei palestras em escolas e coordenei o livro Embryons dessechés | Embriões ressequidos, uma edição especial da partitura homónima de Satie, lançada pela Pianola Editores no dia do aniversário do compositor. No final de 2017, com o apoio da Fundação GDA, lancei o disco SATIE.150, o registo em disco do recital que fiz em 2016, que coloca a obra de Erik Satie em relação com obras de John Adams, Arvo Pärt, Carlos Marecos, John Cage e Alexander Scriabin. É o meu primeiro disco a solo e, também por isso, é um marco importante no meu caminho.

Esta abordagem a Satie levou-a a passar 14 horas a tocar a peça Vexations na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Explique-nos o porquê desta ideia e como foi levar a cabo esta iniciativa.

No início de 2017 recebi o convite do Serviço de Música para apresentar esta peça no âmbito do Festival Pianomania!. A peça Vexations, do compositor francês Erik Satie, é uma partitura de apenas uma página, com a indicação très lent e com a seguinte nota do autor: “Pour se jouer 840 fois de suite ce motif, il sera bon de se préparer au préalable, et dans le plus grand silence, par des immobilités sérieuses” [em português: Para se tocar 840 vezes seguidas este motivo, será aconselhável preparar-se de antemão, no maior silêncio, e na maior imobilidade]. Apesar de o compositor nunca ter falado sobre esta peça – tornando-a por isso enigmática – esta composição, não datada, terá sido composta por volta de 1893, numa altura em que Satie teve um grande desgosto amoroso. Falar sobre esta experiência em poucas palavras é difícil, mas em termos gerais, posso dizer que foi um momento marcante na minha vida, a vários níveis.

Tem sido interessante ver os projetos de eletrónica que têm surgido em Braga, levando até ao epíteto de cidade de media arts. A própria Joana tem um projeto com Luís Fernandes, um duo de piano e eletrónica. Como é, para si, esta dinâmica entre duas artes? Acredita que fusões como esta possam abrir portas para um público cada vez mais plural?

O trabalho com o Luís Fernandes começou em 2013, começou a dar frutos em 2014 com o álbum QUEST, em 2016 editámos HARMONIES em colaboração com o violoncelista Ricardo Jacinto e estamos a finalizar o nosso terceiro disco que estará pronto muito em breve. Trata-se de at the still point of the turning world, um projeto para piano, eletrónica e ensemble encomendado pelo Westway Lab Festival que estreou em 2017 no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, e que estará em itinerância em 2018. Para além disso, ambos integramos o BRG Collective que tem levado músicos de Braga a apresentar projetos experimentais fora de portas. Prezo muito estas colaborações que, sem dúvida, são essenciais para o esbatimento de fronteiras.

Fale-nos um pouco dos seus planos para este ano de 2018. O que tem na agenda?

O ano começou muito bem: toquei a peça Vexations de Erik Satie na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, participei na reposição da peça 27 Ossos, da coreógrafa Tânia Carvalho no Teatro São Luiz, em Lisboa, e toquei a solo no Panteão Nacional no âmbito do Festival Rescaldo. Durante o ano terei em circulação vários projetos musicais: um novo recital a solo dedicado a Erik Satie chamado I LOVE SATIE e um recital comentado para crianças chamado Eu gosto muito do Senhor Satie; o projeto at the still point of the turning world que, por exemplo, vai ser apresentado no Theatro Circo, em abril, num concerto que conta com a participação de alunos do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian; e integrarei um novo projeto do baterista/pianista Marco Franco, que estreará no Teatro Maria Matos, em Lisboa. No âmbito das artes performativas continuaremos a digressão do Nocturno em Portugal, mas também teremos uma digressão internacional no final do ano e irei participar na nova criação do coreógrafo Victor Hugo Pontes que estreia só em 2019, mas cujos ensaios começam ainda este 2018. Vai ser um ano preenchido.

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