
Tudo começa na sua casa, num atelier improvisado de onde brota a luz natural.

Júlia faz peças artesanais com toda a dedicação, na freguesia de Manhente, em Barcelos. Conta que começou com nove anos a “estragar barro”, para tentar ajudar a sua mãe, num dia em que estava atarefada a aparelhar os músicos que estava a fazer. Sentou-se ao seu lado e começou a aprender. O gosto pelo artesanato já vem de há duas gerações. Foi o seu avô o responsável pela criação do primeiro Galo de Barcelos, o icónico símbolo da cidade e o eterno exemplo da tradição de artesanato de Barcelos. Os seus pais também faziam galos, que tinham um metro e meio de altura. Por serem tão grandes, os galos tinham de ser feitos em três partes que depois eram coladas. Júlia conta que, nessa altura, os pincéis eram caros e tinham de arranjar uma solução mais económica: “cortávamos um bocadinho do pelo do rabo do gato e atávamos com uma linha à volta de um pau”. Hoje, o trabalho está mais facilitado, pois os materiais têm um preço mais acessível. A qualidade das ferramentas torna o trabalho mais simples.
Enquanto ajudava no negócio de família, Júlia ficava cada vez mais ligada ao artesanato e, de oito irmãos, foi a única que seguiu os passos da sua mãe e continuou ligada a esta arte. Não sabe ler nem escrever, mas tem o talento todo nas suas mãos. “Aprendi isto tudo com ela”, diz, emocionada, referindo-se à sua mãe. No entanto, começou a fazer peças diferentes das da sua mãe. E afirma que, apesar da idade, está sempre a aprender. Ideias diferentes começaram a surgir na sua cabeça. E, ao que parece, são ideias bem concretizadas: a maioria das peças que criou, vendeu-as. Casou-se, mas continuava a ajudar os pais quando podia. Nessa altura, o seu emprego consistia em ir a uma fábrica da zona buscar louça para pintar em casa. Com 23 anos, a ajuda que dava aos pais era cada vez maior e, por proposta do pai, deixou de ser apenas uma ajuda e passou a ser a sua profissão. Apesar de receber quinze tostões à hora, quis logo aceitar. “Dava para pouco mais do que um pão”, conta. O seu marido apoiou a decisão, dizendo que o que quer que Júlia fizesse, estava bem feito. Entretanto, despediu-se da fábrica onde trabalhava. À medida que ia aprimorando o seu jeito para esta arte, os pais ficavam mais satisfeitos e acabaram por lhe aumentar o ordenado. “Os meus pais davam valor ao meu trabalho”, diz. O negócio melhorou de dia para dia e os seus pais, percebendo que Júlia era a força motriz do negócio, decidiram partilhar os lucros consigo. Desde então, trabalhou sempre com eles. “No dia em que eles faltaram, fiquei eu”, diz, enquanto arranja minuciosamente mais um dos braços do músico que estava a ser feito. “Quando estou com o barro lembro-me sempre da minha mãe”, acrescenta.
Júlia é muito conhecida pelos diabos que faz. Num dia, ainda solteira, foi à romaria de São Bento da Várzea, em Barcelos. A inspiração do diabo veio daí, em que viu o diabo dentro de uma capela. “E se eu fizesse uma peça daquelas? Vim com a ideia”, revela, entusiasmada. Pôs mãos à obra. Fez os diabos e pintou-os de preto, mas, mais tarde, por sugestão do seu marido, começou a pintá-los de vermelho. A ideia pode partir dela, mas a sua simplicidade faz com que aceite ideias e conselhos dos que lhe são mais próximos. Decide sempre fazer uma coisa de cada vez: ou molda o barro e faz as peças – que depois ficam a secar -, ou pinta-as. Não trabalha com moldes, é tudo feito à mão e na hora. Não há nenhuma peça igual. Por mais que tente, por mais que faça o mesmo tipo de peça muitas vezes, nunca sai igual.

