2018-05-03T20:59:53+00:00 Histórias, Região

Júlia Côta, a genuína artesã de Barcelos

Por Joana Soares e Rita Almeida
Redação
Redação3 Março, 2018
Júlia Côta, a genuína artesã de Barcelos
Por Joana Soares e Rita Almeida

Tudo começa na sua casa, num atelier improvisado de onde brota a luz natural.

Júlia faz peças artesanais com toda a dedicação, na freguesia de Manhente, em Barcelos. Conta que começou com nove anos a “estragar barro”, para tentar ajudar a sua mãe, num dia em que estava atarefada a aparelhar os músicos que estava a fazer. Sentou-se ao seu lado e começou a aprender. O gosto pelo artesanato já vem de há duas gerações. Foi o seu avô o responsável pela criação do primeiro Galo de Barcelos, o icónico símbolo da cidade e o eterno exemplo da tradição de artesanato de Barcelos. Os seus pais também faziam galos, que tinham um metro e meio de altura. Por serem tão grandes, os galos tinham de ser feitos em três partes que depois eram coladas. Júlia conta que, nessa altura, os pincéis eram caros e tinham de arranjar uma solução mais económica: “cortávamos um bocadinho do pelo do rabo do gato e atávamos com uma linha à volta de um pau”. Hoje, o trabalho está mais facilitado, pois os materiais têm um preço mais acessível. A qualidade das ferramentas torna o trabalho mais simples.

Enquanto ajudava no negócio de família, Júlia ficava cada vez mais ligada ao artesanato e, de oito irmãos, foi a única que seguiu os passos da sua mãe e continuou ligada a esta arte.  Não sabe ler nem escrever, mas tem o talento todo nas suas mãos. “Aprendi isto tudo com ela”, diz, emocionada, referindo-se à sua mãe. No entanto, começou a fazer peças diferentes das da sua mãe. E afirma que, apesar da idade, está sempre a aprender. Ideias diferentes começaram a surgir na sua cabeça. E, ao que parece, são ideias bem concretizadas: a maioria das peças que criou, vendeu-as. Casou-se, mas continuava a ajudar os pais quando podia. Nessa altura, o seu emprego consistia em ir a uma fábrica da zona buscar louça para pintar em casa. Com 23 anos, a ajuda que dava aos pais era cada vez maior e, por proposta do pai, deixou de ser apenas uma ajuda e passou a ser a sua profissão. Apesar de receber quinze tostões à hora, quis logo aceitar. “Dava para pouco mais do que um pão”, conta. O seu marido apoiou a decisão, dizendo que o que quer que Júlia fizesse, estava bem feito. Entretanto, despediu-se da fábrica onde trabalhava. À medida que ia aprimorando o seu jeito para esta arte, os pais ficavam mais satisfeitos e acabaram por lhe aumentar o ordenado. “Os meus pais davam valor ao meu trabalho”, diz. O negócio melhorou de dia para dia e os seus pais, percebendo que Júlia era a força motriz do negócio, decidiram partilhar os lucros consigo. Desde então, trabalhou sempre com eles. “No dia em que eles faltaram, fiquei eu”, diz, enquanto arranja minuciosamente mais um dos braços do músico que estava a ser feito. “Quando estou com o barro lembro-me sempre da minha mãe”, acrescenta.

Júlia é muito conhecida pelos diabos que faz. Num dia, ainda solteira, foi à romaria de São Bento da Várzea, em Barcelos. A inspiração do diabo veio daí, em que viu o diabo dentro de uma capela. “E se eu fizesse uma peça daquelas? Vim com a ideia”, revela, entusiasmada. Pôs mãos à obra. Fez os diabos e pintou-os de preto, mas, mais tarde, por sugestão do seu marido, começou a pintá-los de vermelho. A ideia pode partir dela, mas a sua simplicidade faz com que aceite ideias e conselhos dos que lhe são mais próximos. Decide sempre fazer uma coisa de cada vez: ou molda o barro e faz as peças – que depois ficam a secar -, ou pinta-as. Não trabalha com moldes, é tudo feito à mão e na hora. Não há nenhuma peça igual. Por mais que tente, por mais que faça o mesmo tipo de peça muitas vezes, nunca sai igual.

Hoje, é Júlia quem faz a maioria das peças na família, mas a sua filha também começou a fazer algumas para garantir a continuidade do legado familiar, o que a deixa muito orgulhosa. Tem pena de não ser mais nova, pois gosta muito do que faz. “Não deixe acabar as suas peças, são tão bonitas!”, repete Júlia, referindo-se aos elogios das pessoas que veem as suas peças. A sua vitrine enorme, recheada de peças feitas por si e pela sua filha, embeleza o espaço simples que é o seu local de trabalho. É no canto desta vitrine que tem uma boneca que lhe deu “um prémio muito bonito”, em Itália. As bonecas, pesadas e com imensos pormenores, são uma das peças preferidas de Júlia. Outra peça que gosta muito de fazer são os galos antigos. Também faz galinhas: “não pode haver galos sem galinhas, nem galinhas sem galos”, diz. As peças são pintadas ou não, dependendo do que lhe pedirem. Júlia também é conhecida pelos Cristos, diferentes de todos os que vemos – não são pintados. Quando fez o primeiro, Júlia achou que estava feio, mas acabou por lhe valer o primeiro lugar num concurso.Em Barcelos existem muitos artesãos e pessoas a trabalhar com o barro, mas Júlia garante que mesmo que tentem copiar um pouco do seu trabalho, nunca conseguem, uma vez que as suas peças são únicas e há sempre diferenças que as distinguem. Para além das diferenças visuais, para distinguir as suas peças, assina sempre com JC, as iniciais do seu nome. Júlia está sempre disponível para receber em sua casa quem quer comprar as suas obras, mas também é possível adquirir as suas peças nas feiras de artesanato, onde se juntam os artesãos, que, como a própria afirma, são como uma família. Este ano, a primeira exposição será em Coimbra, onde marca presença todos os anos, tal como em Lisboa, na Feira Internacional de Lisboa.

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