Revista Rua

2018-09-01T17:06:07+00:00 Opinião

Mau tempo no canal

Humor
João Lobo Monteiro
João Lobo Monteiro
3 Setembro, 2018
Mau tempo no canal

Em período de férias, exilado por nortadas e subjugado a uma TDT com muitos canais espanhóis e poucos nacionais, tenho o costume de analisar a programação das televisões portuguesas.

Com a chegada de setembro, entra a nova grelha, que é muito semelhante à última grelha e à próxima grelha. Numa coisa temos de elogiar os canais generalistas, porque eles sabem muito bem qual é o público-alvo: além de mim, só os velhotes e/ou pessoas com doenças veem televisão. Gostasse eu de séries e não andava nisto.

De manhã, os programas consistem em pessoas a falar muito alto, caso os aparelhos auditivos não estejam ativos, e resumem-se a: publicitar um passatempo de cinco em cinco segundos; fofocar; trazer bandas de música ligeira, mas que pesam muito em quem as ouve; dar receitas de comidas que ou sobem os diabetes, ou sobem o colesterol a quem está a ver; vender produtos para tratar esses diabetes e baixar esse colesterol; trazer casos de pessoas assassinadas e cujos assassinos não foram condenados pela injusta justiça portuguesa; passar cinco minutos a dizer “Por favor, baixe o volume do seu televisor, senão não conseguimos falar”, para depois nunca sair o jackpot. Mas mesmo assim dá para ajudar na reforma dos senhores.

O grande baluarte destes programas, e dos da tarde, são as senhoras e senhores que são pagos para irem lá bater palmas e dizer o número do passatempo. Sempre foi o meu ‘trabalho’ de sonho e um dia hei de lá chegar.

Depois, vêm os jornais da tarde. Duravam até às 14h, passaram a durar mais, mas na prática só duram meia hora. Depois das 13h30, ainda mais em tempo de verão, só dão as notícias de ontem à noite e que ainda vão voltar a dar logo à noite.

“Na TVI, a Cristina Ferreira é que está prestes a sair dali, por causa de uma operação para engordar. Engordar a conta bancária, no caso. Certaaaaa!”

O ‘pós-notícias’ foi a parte revolucionada recentemente. Era uma repetição das manhãs, mas os canais (incluindo a RTP, surpreendentemente) acharam que era boa ideia repetir, sim, mas as novelas. Mais uma vez, resulta com os mais idosos, que ficam interessados naquilo que já viram há uns tempos, mas já não se lembram.

Porém, o conteúdo das manhãs não desapareceu, só foi adiado. A TVI continua a ter programa da tarde, que traz casos de vida – que poderiam ser variadas situações, mas calham sempre as mais trágicas – e o querido teste do polígrafo. Infelizmente, não há o pós-polígrafo. Seria interessante perceber se a prima realmente aceitou que não foi aquela pessoa que lhe roubou o relógio de cuco, só porque a maquineta disse.

Quem mais insiste no conteúdo das manhãs é a SIC, porque tirou fotocópia a duas rubricas – saúde e atualidade criminal – e fez programas delas. Já não dá para viver sem Hernâni Carvalho a ameaçar-nos com “depois disto, se conseguir, tenha uma noite descansada”.

O Preço Certo é já uma instituição e é impossível mover o Fernando Mendes daquele horário. Mesmo que ele tenha feito uma operação para emagrecer, ainda existe muito e não vai sair dali. Na TVI, a Cristina Ferreira é que está prestes a sair dali, por causa de uma operação para engordar. Engordar a conta bancária, no caso. Certaaaaa!

Nos telejornais, repete-se o problema do almoço, porque duram demasiado, mas há um pormenor que agrava a situação: o da RTP começa às 20h, tudo bem. O da TVI começa às 19h59 e o da SIC às 19h58. Amigos, não é por um minuto que me vão prender, eu não sou assim tão fácil, nem tão picuinhas. Depois, vêm as novelas atuais e… pronto, agradável, menos a parte dos enredos básicos.

Os fins de semana davam outro artigo, que pode ser que um dia escreva, se entretanto não adormecer com a programação enfadonha. Agora larguem-me, que tenho de aproveitar a Sporttv, para ir ver o Wolves-Brunley.

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