2018-05-03T10:36:15+00:00 Personalidades, Turismo

Melchior Moreira

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Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira2 Março, 2018
Melchior Moreira
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Queremos continuar a crescer de forma sustentável, contribuindo para a criação de riqueza e emprego na região Norte

Melchior Moreira, Presidente Turismo do Porto e Norte de Portugal

Melchior Moreira é o presidente da entidade Turismo do Porto e Norte de Portugal e tem nas suas mãos a responsabilidade de conduzir os desígnios do Turismo na nossa região, numa autêntica saga em busca de valorização e desenvolvimento das potencialidades deste nosso destino. Numa entrevista alargada sobre a capacidade atrativa do Porto e Norte como destino turístico, Melchior Moreira fala das apostas e dos anseios para 2018.

Fotografia: Pedro Kirilos

Como descreveria o destino Porto e Norte? O que faz deste nosso território um bom destino turístico? Quais são os nossos pontos fortes de atração turística?

A região Norte tem a particularidade de conter um acervo de recursos muito diverso, que tende a desenvolver elos de correlação que transformam o seu valor intrínseco em valor económico. Quero com isto dizer que o Norte de Portugal, não obstante estar sujeito a um fenómeno turístico que exibe algumas marcas de assimetria e nuclearização, como é habitual em qualquer destino, apresenta hoje fórmulas muito eficientes de drenagem de fluxos turísticos entre zonas de elevada intensidade turística e zonas periféricas, que tornam difícil eleger potências no seio de uma malha de oferta tão rica e dinâmica. Esta particularidade fica bem expressa nos produtos que qualificam o destino Porto e Norte de Portugal e que têm, justamente, um caráter transversal e inclusivo, que compreende o turismo de natureza, o turismo de saúde e bem-estar, a gastronomia e vinhos, o turismo religioso, de negócios, os city breaks, o touring cultural e paisagístico, o sol e mar e o golfe. Qualquer um destes produtos tem uma elevada penetração de mercado.

O Minho, em particular, pode ser diferenciador em que aspeto?

O Minho é diferenciador em vários domínios. No tipo de paisagem, no vinho, na gastronomia e na sua relação com o mercado emissor espanhol, em particular com o povo galego, cuja relação fraterna encontra raízes numa geografia e história que se sobrepõem em muitos aspetos. O Minho constitui um ativo estratégico e diferenciador que qualifica o Porto e Norte de Portugal como destino turístico capaz de competir não apenas no espaço ibérico, mas num contexto global.

Consegue traçar-nos um registo do número de turistas que passaram pela região do Porto e Norte durante o ano de 2017? Que conclusões tira desse registo? Houve crescimento?

Os últimos resultados publicados, que se referem a valores acumulados até outubro, revelam uma continuidade na trajetória de crescimento do destino face ao valor acumulado de 2016, quer em termos de volume de dormidas (+7.2% face a outubro de 2016) quer em termos de proveitos de aposento (+20.6% face outubro de 2016). Nos dois indicadores, a região cresceu acima da média nacional em cerca de 0.1 e 2.4 pontos percentuais, respetivamente. Fica evidente a valorização financeira dos serviços prestados na área do alojamento, que se estima venha ultrapassar, em termos globais (proveitos totais), os 430 milhões de euros, o que corresponde a uma taxa de variação homóloga, face a 2016, na ordem dos 20%. Não subsistem dúvidas, portanto, quanto à sustentabilidade deste fenómeno e influência económica estratégica no processo de terciarização e alargamento da base exportadora da região Norte.

Relativamente ao caso particular do Minho, o ano de 2017 foi positivo? Ressaltamos, por exemplo, o importante evento da Braga Street Stage no Rally de Portugal. Considera que esse evento trouxe maior visibilidade à capital do Minho?

Apesar do quadro estatutário das entidades regionais de turismo não conter no seu perímetro de atuação a promoção nos mercados internacionais, com a exceção de Espanha, que integra o mercado alargado/peninsular, definimos como medida estratégica de internacionalização do destino o apoio a grandes eventos, de escala e visibilidade global, que permitam que a entidade opere indiretamente e de forma inteligente e cirúrgica em geografias e mercados que lhe estão vedados. O retorno deste investimento traduz-se em novas dinâmicas de consumo turístico que têm um reflexo claro e já mensurável nos resultados de unidades sub-regionais como o Minho. A esse respeito, posso indicar os efeitos mais recentes publicados pelo INE, desagregados por unidade concelhia e NUT III, que reportam a 2016, e que revelam um crescimento do setor do alojamento no sub-destino Minho acima da média nacional, tanto em número de dormidas (+4.5 pontos percentuais) como em volume financeiro medido a partir dos proveitos de aposento (+0.6 pontos percentuais). A importância do investimento em ações de internacionalização revela resultados também na taxa de crescimento mais acelerada da procura externa, traduzida num aumento de 18.9% das dormidas dos residentes no estrangeiro, acima da taxa de crescimento das dormidas dos residentes em território nacional em cerca de 5 pontos percentuais. Acresce ainda que este aumento significativo se traduz num fenómeno de desconcentração e disseminação regional do fenómeno turístico no destino Porto e Norte de Portugal, bem como uma valorização económica e maior valor acrescentado da oferta que pode ser extrapolado pelo crescimento mais vigoroso dos resultados financeiros, os proveitos de aposento crescem cerca de 19.8%, em comparação com a variação do volume de dormidas que cresce em igual período 15.9%.

Braga é principalmente um destino onde a religião e o património impera. Diria que, em termos turísticos, a cidade de Braga tem evidenciado sinais de desenvolvimento? Como vê esta cidade?

Eu diria que Braga é um relicário, contendo um espólio espiritual e artístico valiosíssimo, destacando-se como um dos destinos religiosos mais marcantes de Portugal. Não podemos esquecer que, na Idade Média, Braga disputava com Santiago de Compostela o título de centro da Cristandade na Península por ter sido a sede do arcebispado de toda a Península Ibérica. Também a herança histórica pré-romana e romana encontra nesta cidade, e diria concelho, um nível de concentração e qualidade das mais relevantes do país. Mas Braga é também uma cidade voltada para o futuro, que tem vindo a assumir novas funções. Uma delas, importantíssima, é a função de catalisador do conhecimento. Braga é hoje sede de uma das universidades mais dinâmicas do país, a Universidade do Minho. É, por conseguinte, um polo de investigação e conhecimento estratégico para o país. Nesse sentido, Braga é uma cidade de invulgar valor e densidade de massa crítica que tem consequente repercussão também no modo como o fenómeno turístico se desenvolve, isto é, de forma sustentável e assente na valorização do seu património. Não podemos esquecer que também no domínio desportivo, Braga é a sede de um dos clubes mais dinâmicos do país, o Sporting Clube de Braga, que marca presença com regularidade em competições internacionais. Todas estas dimensões contribuem para que Braga tenha um desempenho turístico também acima da média nacional, que é bem expressiva quando comparamos a taxa de crescimento dos proveitos de aposento entre 2015 e 2016, que cresceram 24.1% contra 19.2% da média nacional.

Apesar das diferenças, cada destino minhoto tem em comum hospitalidade e amabilidade. Somos bons anfitriões?

Esta é, sem dúvida alguma, uma caraterística dos minhotos, mas é também do país!

Como avalia os orçamentos estatais para a promoção turística?

Os orçamentos de Estado para este setor continuam a ser insuficientes para continuarmos a dar resposta de forma positiva ao setor público e privado no crescimento turístico da região.

Nos últimos anos, a cidade do Porto tem assistido a um boom em termos de interesse turístico, motivado por inúmeros fatores. Este crescimento tem causado constrangimentos aos locais, nomeadamente quando falamos de alojamento. Qual é a sua postura face a estes constrangimentos?

Não há dúvida alguma que a estrutura socioeconómica da cidade do Porto está em transformação profunda e o fenómeno turístico tem aqui uma influência decisiva que impacta de forma estruturante em dimensões que têm vindo a ser debatidas de forma, muitas vezes, emotiva – e não tanto quanto necessitamos, de um modo racional e prospetivo. Há certamente um debate e uma análise a desenvolver, designadamente quanto à possibilidade de estar a ocorrer um fenómeno de substituição de famílias de baixos recursos por uma população com poder económico, que vê no turismo uma oportunidade de investimento, desenvolvendo-se um fenómeno de gentrificação residencial do centro histórico do Porto. Aquilo que posso nesta fase dizer é que apesar das empresas de aviação de baixo custo terem iniciado as suas operações em 2005 (Ryanair), fenómeno ao qual se associa de um modo correlativo o crescimento do turismo no Porto, na verdade, só a partir de 2013 é que é possível identificar um salto da procura exponencial, na ordem dos 120%, do número de hóspedes entre 2012 e 2013, e que só a partir desse ano se iniciou uma resposta da oferta de número de estabelecimentos, mas em magnitude muito inferior, na ordem dos 29%. É necessário ainda notar que esta transformação foi acompanhada pela reabilitação de uma quantidade relevante de edificado que se encontrava em condições de degradação extrema, muitos dos imóveis estavam devolutos, e por esta via puderam ser recuperados com recurso a capitais privados, recebendo uma utilização que garante a sua sustentabilidade futura.

Considera que existem assimetrias significativas entre turismo no Porto e turismo em Lisboa atualmente?

Não quero acreditar que exista uma posição política declarada de penalização do Porto que tenha repercussão no desenvolvimento do turismo, mas devo dizer que há matérias que me preocupam e que gostaria de ver o atual governo a debater, designadamente sobre a necessidade do aeroporto Francisco Sá Carneiro continuar a crescer em condições que não sejam de total imprevisibilidade e suscetíveis de rutura sem pré-aviso, bem como outras questões estratégicas que envolvem o posicionamento da TAP relativamente a esta infraestrutura aeroportuária e o futuro do terminal de cruzeiros e o seu contributo para o desenvolvimento turístico do destino Porto e Norte de Portugal.

E em termos de assimetrias entre as apostas em projetos turísticos no Porto e nas restantes cidades do Norte? Considera que o Porto é “beneficiado” face às principais cidades do Minho ou Trás-os-Montes?

Considero que o crescimento do Porto é necessário e útil à região. Temos vindo a implementar medidas que visam aumentar as simetrias e a articulação e complementaridade de ofertas em toda a região. Os resultados provam-no. O consumo turístico no Porto cresce exponencialmente, mas reparte com toda a restante região em percentagem cada vez maior. A variação mais recente da procura turística revela-nos taxas de crescimento dos sub-destinos Minho, Trás-os-Montes e Douro acima do sub-destino Porto.

Relativamente ao Turismo de Natureza, quais são os destinos preferidos dos turistas na nossa região?

Esta região possui o único Parque Nacional de Portugal, o Parque Nacional da Peneda-Gerês, um emblema da oferta natural da região e do país. Mas a região é também procurada pelo Parque Natural de Montesinho, um dos santuários naturais mais importantes para a lontra na Europa. Também a águia-real e o lobo-ibérico encontram na nossa região áreas de proteção, podendo em certas ocasiões serem observados. As paisagens naturais do Porto e Norte de Portugal são também cenários ideais para atividades ao ar livre. Por exemplo, os adeptos do trail running têm procurado cada vez mais o Norte de Portugal. Para quem é amante de bicicleta, a região tem vindo a ser palco de importantes eventos, destacando-se a prova Dourogranfondo, ao longo do Douro vinhateiro com três percursos diferentes e desafiadores à medida de cada um. A região é também procurada pelos amantes de diversões e adrenalina dispondo do slide mais longo do mundo, com um cabo de 1538 metros de comprimento, em Ribeira de Pena, no Pena Aventura Park. O Park Aventura Diver Lanhoso também é muito procurado. É o maior parque de aventuras da Península Ibérica e um dos maiores da Europa, com 170 hectares, localizado nas proximidades do Parque Nacional Peneda-Gerês. A região possui os Passadiços do Rio Paiva, construídos em madeira ao longo de oito quilómetros, percorrendo a paisagem natural da margem esquerda do Rio Paiva, no concelho de Arouca. Estes passadiços receberam o galardão de projeto europeu inovador de desenvolvimento turístico da World Travel Awards, considerados os «óscares do turismo». Também a paisagem natural do Geoparque de Arouca, membro da Rede Global de Geoparques UNESCO, tem tido uma procura cada vez mais afluente, bem como o Geoparque Terras de Cavaleiros.

A Galiza é um destino que pode funcionar como parceiro turístico? A promoção do Norte de Portugal na Galiza tem dado os seus frutos? Existem sinergias transfronteiriças em desenvolvimento?

A relação com a Galiza é excecional e um bom exemplo é a cooperação que temos tido com a Xantar e com a Thermatália. Estes eventos constituem palcos de proximidade que privilegiamos. São para nós de reconhecimento de uma “identidade galaico-portuguesa” de ascendência comum, tal como a Vitis vinfera(Albariño/Alvarinho). A rede de patrimónios genéticos únicos que a Galiza e o Norte de Portugal encontram no turismo são oportunidades excecionais de valorização económica, em particular, a partir do turismo gastronómico.

É, desde 2008, responsável pelo destino da região turística Porto e Norte. Em dez anos, o que acha que conseguiu para a região? Que destaques faria da sua própria atuação?

Um balanço extremamente positivo. Conseguimos, em novembro de 2017, crescer nas dormidas 10,5% face ao período homólogo, correspondendo a 468,7 mil dormidas e no conjunto dos 11 primeiros meses cresceu 7,4%, valor superior à média nacional, num mês considerado de “época baixa”. Com a estratégia que temos vindo a assumir, as expectativas para 2018 são bastante altas e estimo que se mantenha a curva ascendente, fechando o ano acima das 7,5 milhões de dormidas, uma previsão que tínhamos apenas para 2020.  Fazer uma retrospetiva deste período de tempo é um exercício extremamente enriquecedor a todos os níveis e não tenho dúvidas que os resultados que o destino Porto e Norte apresenta na atualidade são o reflexo do trabalho de equipa que juntos, parceiros públicos e privados, estamos a fazer. Os aspetos que poderia enumerar seriam demasiado extensos, mas sublinho os mais relevantes: colocamos todo o território em rede com a plataforma das lojas interativas de turismo; colocamos o destino em três pontos estratégicos para a promoção do território que hoje são uma das melhores montras do que por aqui se faz, com a abertura das três lojas de turismo – Santiago de Compostela, Aeroporto Francisco Sá Carneiro e Porto Welcome Center; trouxemos ao Porto e Norte os melhores eventos internacionais (o Rally de Portugal regressou ao Norte, assim como o Red Bull Air Race, entre outros); somos atualmente presença assídua e marcante nas principais feiras de turismo da Península Ibérica; organizamos regularmente visitas de jornalistas e de operadores turísticos ao Porto e Norte.

Como presidente do TPNP, quais são os seus anseios para 2018?

Tendo em conta as projeções macroeconómicas do país, designadamente em termos de previsão de crescimento do seu produto, bem como a previsível estabilidade política e social, faz-nos crer que em termos de consumo doméstico há razões para admitir, tal como sucedeu em 2017, um crescimento da procura interna. Igualmente, em termos internacionais, a informação que dispomos revela um comportamento resiliente e estável das economias emissoras estratégicas, que estão maioritariamente dentro do espaço comunitário, garantindo assim uma relação cambial constante. Em termos globais, prevemos um novo crescimento a dois dígitos, quer em termos de volume de procura, quer em termos de resultados financeiros, mantendo-se uma trajetória de valorização das atividades económicas, o que tem vindo a ser expresso pelo crescimento mais destacado dos indicadores financeiros, designadamente do alojamento.

Acreditamos que o Turismo seja uma área com infindáveis possibilidades. O que delineia como crucial ser feito durante este ano?

Queremos continuar a crescer de forma sustentável, contribuindo para a criação de riqueza e emprego na região Norte e no país através da valorização de outras dimensões económicas tão sensíveis e com elevada capacidade de diferenciar o destino e que se suportam no seu reduto endógeno e património genético como, por exemplo, o setor dos vinhos, a produção de bens alimentares com denominação de origem e a dimensão da oferta que agrega os nossos recursos naturais protegidos. Queremos que 2018 seja o ano da sustentabilidade e que possamos repercutir e disseminar o crescimento que é antecipado por toda a região.

Considera que o Turismo é encarado como uma prioridade nacional? Se não, o que é necessário ser feito?

Acredito que sim. É importante referir que o modelo de desenvolvimento que Portugal encontrou na década de 60 do século passado, de concentração do fenómeno turístico em torno de um conjunto restrito de circunscrições geográficas (exemplo do Algarve), deixou marcas que estão ainda hoje presentes, mas que têm vindo a ser gradualmente corrigidas, designadamente através de políticas de promoção que incidem sobre zonas de baixa intensidade, mas com um elevado valor endógeno e medidas que têm vindo a procurar alavancar o investimento em atividades económicas que extraem deste fenómeno recursos financeiros essenciais ao desenvolvimento do país e da região Norte em particular. Este esforço que Portugal tem vindo a realizar não se restringe exclusivamente ao perímetro das atividades que têm uma relação direta com o fenómeno turístico, mas incide sobre recursos essenciais na estruturação da oferta, particularmente na vertente das acessibilidades e infraestruturas (rede viária, aeroportos, portos, etc.), que facilitam o acesso ao país e a mobilidade dos turistas dentro deste espaço. A visão para o desenvolvimento de Portugal como um destino turístico tem um racional transversal e holístico que atua, no nosso entender, de forma correta em fatores essenciais que fomentam o crescimento sustentável deste setor. O Norte de Portugal é um bom exemplo, designadamente através do investimento na modernização de infraestruturas essenciais de captação de trânsitos e mobilidade como o Aeroporto Francisco Sá Carneiro, que viu o número de passageiros desembarcados aumentar 183% entre 2006 e 2016.

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