Revista Rua

2018-11-15T12:39:03+00:00 Desporto, Personalidades

Miguel Correia

“Não basta gostar do desporto automóvel, é preciso perceber que o trabalho do piloto não se esgota no carro”
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira2 Julho, 2018
Miguel Correia
“Não basta gostar do desporto automóvel, é preciso perceber que o trabalho do piloto não se esgota no carro”

Os ralis são o seu sonho e, como natural de Braga, não foge à tradição de ouvir nos roncares dos motores um prazer para a vida. Miguel Correia compete ao volante do Renault Clio R3, contando com a ajuda do navegador Pedro Alves, e esteve à conversa com a RUA sobre esta sua aventura no desporto automóvel nacional.

É natural de Braga, uma cidade com grande tradição a nível de desporto automóvel. Pode partilhar connosco as memórias que guarda desta paixão pelo mundo automóvel? Como começou este seu interesse pelo automobilismo?

De facto, Braga e toda a região do Minho são locais onde o desporto automóvel se vive intensamente. É algo difícil de explicar, mas provas como a Rampa da Falperra ou o Rali de Portugal em Fafe, só para dar dois exemplos, são eventos marcantes para qualquer adepto ou praticante.

O meu pai (Manuel Correia, bicampeão nacional da sua categoria na Montanha e piloto de Ralis) sempre foi um apaixonado pelos automóveis, muito antes de pensar ser piloto. As primeiras recordações que eu tenho são de o acompanhar à Rampa da Falperra e viver aquelas emoções da velocidade e do público. Posso dizer que foi a partir daí que começou o meu interesse pelo desporto automóvel.

Como tem sido esta experiência ao volante no principal escalão da modalidade?

Tem sido o concretizar de um sonho. Os ralis são um desporto que me fascina, pelo improviso, pelas diferentes condições e variáveis, pela ligação com a máquina e o navegador (uma parte importante de tudo isto), pela envolvência do público… Nunca pensei que na minha primeira época nos ralis pudesse estar a discutir os primeiros lugares do meu grupo e dos 2 Rodas Motrizes. Tem sido uma descoberta fantástica, mas com resultados acima do esperado, sobretudo porque a maioria dos outros concorrentes tem enorme experiência nestes ralis e na modalidade.

É um piloto com superstições? Cumpre alguma superstição antes de entrar em competição?

Não tenho grandes superstições. Tenho a minha fé e também acredito sinceramente no valor do trabalho e na recompensa para quem dá tudo naquilo que faz. Mas não sou supersticioso.

Podemos falar do automóvel em que compete? Descreva-nos as suas principais valências e o feedback que tem tido ao volante do Renault Clio R3?

O Clio é um dos melhores R3 alguma vez construídos. É um carro exigente no limite, até porque temos que estar sempre em alta rotação, é assim que estes motores atmosféricos funcionam. O facto de só haver real entrega de potência em altas rotações obriga o piloto a acreditar. Mas de uma forma geral é um carro equilibrado, fácil de pilotar, com um bom chassis e boas suspensões. Posso dizer que é o carro ideal para esta fase da minha carreira.

Nos últimos meses, teve oportunidade de participar em várias provas nacionais, como o Rali de Mortágua ou o Rali Vidreiro. Que balanço faz destas provas?

Foram mais duas enormes descobertas para mim. Mortágua é um rali de terra duríssimo, onde o segredo é moderar a fogosidade natural de qualquer piloto para tentar chegar ao fim. Aprendemos muito sobre a gestão do carro e conseguimos um pódio, segundo lugar no Grupo RC3.

Já o Rali Vidreiro foi o primeiro verdadeiro rali de asfalto da minha vida, já que só tinha feito o Rali de Aguiar da Beira/Sernancelhe em 2017, que é um rali mais curto e onde tudo, absolutamente tudo, era uma novidade para mim. A nossa performance no Rali Vidreiro surpreendeu-me. Estávamos a lutar pela vitória absoluta nos 2 Rodas Motrizes quando demos um pequeno toque, fruto da nossa inexperiência naqueles pisos de asfalto muito sujos e traiçoeiros. Mas mostrámos que podem contar connosco também no asfalto e vamos motivados para o Rali de Castelo Branco.

Esteve ainda presente na Rampa Internacional da Falperra. É diferente competir na sua terra natal?

É absolutamente fantástico até porque, tal como referi, esta prova tem um significado muito especial para mim, para a minha família e para os nossos patrocinadores. O traçado da rampa, talvez o melhor da Europa em termos de pilotagem, o ambiente da prova e o público fervoroso tornam tudo muito especial, muito emotivo.

Tem a seu lado um navegador, o Pedro Alves. Qual é, para si, a importância do papel do navegador?

O navegador é parte integrante da equipa e tem uma importância crucial. Não só é preciso que seja organizado e competente fora do carro, como depois tem que ditar as notas de forma precisa e adaptada ao estilo do piloto, permitindo que este se sinta confortável e confiante. E depois há a questão psicológica. Claro que se houver boa relação entre piloto e navegador a performance no rali vai ser melhor.

Quais diria serem os seus principais objetivos no mundo do desporto automóvel?

Sou muito pragmático e, apesar de adorar este desporto, quero evoluir passo a passo. O meu grande objetivo neste momento é confirmar as boas indicações que demos no asfalto, tentando ser competitivo também no próximo Rali de Castelo Branco. Depois, claro, tentar lutar pelo título no Grupo RC3, sabendo que a concorrência é forte e experiente.

Tece comentários positivos às estruturas que estão por detrás da organização das grandes provas do campeonato nacional? Como descreveria o apoio a esta modalidade?

Infelizmente, muitas organizações não acompanharam o profissionalismo e evolução que foi marcando outros aspetos dos ralis. Os carros são mais rápidos e seguros, os pilotos são cada vez mais dedicados e trabalham todas as vertentes e, na minha opinião, deveria ser exigido o mesmo às organizações. Sei que a maioria das pessoas que suportam uma organização são voluntários e, sem eles, nada disto era sequer possível. Mas deveria existir maior cuidado na relação com os pilotos, que são os clientes desta indústria, e maior formação em termos técnicos e desportivos.

 

Quer deixar-nos uma mensagem de incentivo aos jovens minhotos que são apaixonados pela modalidade e pensam seguir um futuro no desporto automóvel?

Sigam os vossos sonhos, mas saibam de antemão que este é um meio competitivo e onde é preciso trabalhar muito para se atingirem resultados. Não basta gostar do desporto automóvel, é preciso perceber que o trabalho do piloto não se esgota no carro. É preciso tratar de vários outros aspetos, desde a comunicação à preparação física, fazendo sacrifícios e mantendo sempre a humildade. Alguém como o Sébastien Ogier, por exemplo, tem um talento sobrenatural, é certo, mas chegou ao topo porque trabalha tanto ou mais do que os outros, porque está atento a todos os detalhes e porque nunca baixa os braços.

Fotografia: Zoom MotorSport

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