Revista Rua

2018-05-03T19:05:11+00:00 Opinião

Música que cresce connosco

Música
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
3 Maio, 2018
Música que cresce connosco

“A música nasceu com ele”. Quantas vezes já ouvimos isto sobre este e aquele artista; esta ou aquela pessoa? A música – ou qualquer outra forma de arte – pode, de facto, ser uma aptidão para a qual temos mais ou menos jeito. Porém, mais do que nascer com a música, importa crescermos com música.

A criatividade é uma característica do ser humano que importa ser estimulada desde que somos pequenos. Com os nossos pais aprendemos a gatinhar, a dar os primeiros passos, a falar, enfim, absorvemos um conjunto de coisas que fazem parte do nosso natural processo de aprendizagem. O “aprender” passa, uns anos mais tarde, para outro campo: a escola.

A escola é muito mais do que um lugar onde aprendemos a socializar; é o sítio onde crescemos e vivemos grande parte das nossas vidas. É o lugar onde aprendemos a gerir o nosso tempo, onde nos desafiamos e nos desafiam, onde sentimos as primeiras frustrações e conquistas. É o lugar onde nos formamos e onde retemos experiências que nos acompanharão para a vida.

Muito mais do que nos fazerem debitar uma lengalenga chamada tabuada, a escola deve ser o local onde nos cultivam e transmitem a necessidade de sermos criativos. Ser criança é precisamente isso: a altura em que criamos e desenhamos mundos na nossa cabeça, que uns anos mais tarde não farão sentido num mundo adulto. Dizem que é bom “dar asas à imaginação”, mas o problema é que nos cortam as asas praticamente assim que entramos para a escola primária, salvo algumas e raras exceções.

O acesso à cultura, a forma como percecionamos a arte nos primeiros anos das nossas vidas é quase sempre dependente da herança que recebemos dos nossos pais, com os discos lá de casa, com os filmes lá de casa, com aquilo a que temos acesso.

José Manuel Gomes, Programador do espaço cultural Banhos Velhos

Quando pensamos que noutros países como Inglaterra há artistas a aparecer praticamente todos os dias, cheios de talento e que fazem sucesso pelo mundo fora, isso não é ao acaso. Não há um gene específico do povo britânico que os faz génios da arte; há, isso sim, uma lógica e pensamento diferentes naquilo que à educação diz respeito. Na grande maioria das escolas, as crianças são encaminhadas para instrumentos musicais que as acompanharão até à universidade. A disciplina de música é muito mais do que aprender a tocar o hino da alegria na flauta, tal como aqui é. Quem diz música, diz cinema, teatro, dança ou literatura. A indústria criativa está ligada, de mãos dadas, com a educação a que as pessoas têm acesso desde crianças.

O acesso à cultura, a forma como percecionamos a arte nos primeiros anos das nossas vidas é quase sempre dependente da herança que recebemos dos nossos pais, com os discos lá de casa, com os filmes lá de casa, com aquilo a que temos acesso. O processo de criação, essa aptidão “mágica”, começa logo aí e mal nos apercebemos. Precisa, depois, de ser estimulada fora de portas, na nossa segunda casa: a escola.

Quando dizemos “a música nasceu com ele”, eu prefiro dizer a “música cresceu com ele”. A música, o teatro, o cinema, a literatura, a pintura, as artes visuais, o saber escrever, o sabermos comunicar através da arte e da criação, tudo isso faz parte do nosso processo criativo que deve ser alimentado e instigado desde pequenos. Se uma criança pinta uma árvore de roxo, deixemos que essa árvore seja roxa. O problema está quando ela não tem outro remédio se não a pintar de verde, tal como todas as outras.

Sobre o autor:

Signo escorpião, sei informática na ótica do utilizador, programador do espaço cultural Banhos Velhos e sou um eterno amante da música, do cinema e do Sozinho em Casa.

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