2018-06-06T16:59:17+00:00 Opinião

Não tenho filhos, ainda sou mulher?

Sociedade
Susana Santos
Susana Santos
5 Junho, 2018
Não tenho filhos, ainda sou mulher?

Costuma-se dizer que “não há fome que não traga fartura” e é bem verdade. Até experimentarmos esta última crise económica, casais que vivessem em comunhão sem legitimar a sua condição pareciam sustentar algo de pouco sério, inconstante ou até promíscuo. Quantas vezes ouvimos murmurinhos “menos católicos” de que este ou aquele casal habitava sob o mesmo teto e estaria em pecado por não ter a bênção da Igreja?

Curiosamente com as dificuldades adjacentes à carência monetária e a conjuntura, o casamento além de ficar dispendioso condicionava a situação financeira de alguns casais. Mesmo os que existiam à data, vários optaram pelo divórcio, mantendo uma relação encoberta, como forma de salvaguardar os seus bens. O contrato matrimonial começa a ser refletido e as bênçãos da Igreja evidenciam-se menos indispensáveis nesta altura… Deus consegue, com certeza, compreender que ninguém pode viver só de graças e que um estômago bem alimentado contribuirá, certamente, para um corpo mais saudável, mais capaz de procriar, perpetuando a espécie humana.

Continuamos, portanto, devotos e fiéis aos ensinamentos recebidos pelos nossos pais, apenas com algumas “nuances” na conduta – somos boas pessoas e podemos respirar de alívio, pois ainda merecemos o paraíso!!!

Findos 38 anos da minha existência, já poucos questionam a minha situação amorosa, uma vez que a condição de “estar junta” (expressão fantástica, no mínimo) com outra pessoa normalizou-se na sociedade.  E quando revemos velhos conhecidos surgem sorrisos, abraços, beijinhos para cá e para lá, são exclamadas revelações como “estás tão bem” ou “estou tão feliz de te rever” e a felicidade reina até que alguém se lembra de largar a bomba, aquela interrogação decisiva:

– “E então? E filhos?”.

– “Não, não tenho” – respondo. Pois… estava tudo a correr tão bem! (penso)

A refutação é sempre a mesma e com aquele olhar de misericórdia tão característico:

-“Ah, ainda és muito nova, tens muito tempo!”

-“Sim, claro!” –  admito.

E deixo morrer aí a conversa sem dar grandes oportunidades de nova abordagem. Mas reconheço-me como bem-aventurada, afinal, ninguém censurou (pelo menos à minha frente) estar a residir dentro das mesmíssimas quatro paredes com um homem e sem casar – Que progresso!!!

A verdade é que reacende sempre uma sensação estranha em mim após estes episódios. Mas que raios!!!

  • A minha existência deixa de ser válida por não ter filhos?
  • Deixei de ter razões para viver?
  • A minha identidade fica afetada?
  • Sou menos mulher?

Quando alguém não tem descendência são inúmeras as equações que poderão fundamentar este facto. Poderão existir limitações físicas que impeçam a gravidez, alguma doença genética que impossibilite gerar uma criança saudável, ou tão simplesmente porque não querem ter filhos, talvez por questões profissionais ou materiais, por afetivamente não se sentir preparado ou porque ter-se um filho é um ato sério e irreversível e de extrema responsabilidade.

Somos todas diferentes e, como tal, ser mãe não deverá traduzir-se em condição Sine qua non da nossa existência. Tenho o direito de decidir o que quero para a minha vida e, desde que as minhas escolhas não afetem os outros, devo ser respeitada como a cidadã consciente que tento ser, como profissional esforçada e competente, com uma personalidade verdadeira e frontal, boa filha ou irmã, como companheira afetuosa, como ativista defensora do direito dos animais e feminista ferrenha, como uma lutadora.

Face a esta derradeira descrição, quase apetece colocar-me na pele do leitor e perguntar:

– “Mas então, e os defeitos?”

Tenho tantos que até lhes perco a conta, mas há um que, ao que parece, vale por todos os outros… não sou mãe!

Sobre o Autor:
De signo Gémeos e ascendente em Virgem, Susana Santos é Professora e Comissária da Assembleia Plurimunicipal do PAN Algarve. Frase favorita –  “O simples bater de asas de uma borboleta pode causar um tufão do outro lado do mundo”.

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