Revista Rua

2018-12-03T23:57:26+00:00 Património

Navegando em ruínas no Mosteiro de Santa-Clara-a-Velha

Filipa Santos Sousa
Filipa Santos Sousa3 Dezembro, 2018
Navegando em ruínas no Mosteiro de Santa-Clara-a-Velha

Coimbra é conhecida como a Cidade dos Estudantes, das serenatas e festas académicas sem fim, mas é também um local de culto por excelência. Por estas margens, junto ao Mondego, já passaram algumas das mentes e artistas mais brilhantes que o país viu nascer. Coimbra dos Músicos, Coimbra dos Poetas e, sobretudo, Coimbra da Saudade. Em cada rua, espalhada pelos museus e monumentos, se sente a sua essência histórica. Eternizada pelo dramático amor de D. Pedro e Inês de Castro, a relação que mais inspirou os escritores e os aspirantes a escritores desta terra erudita, foi noutro lado que eu encontrei a minha própria fonte de admiração pela cidade.

Nem o Jardim Botânico ou a Quinta das Lágrimas, em todo o seu esplendor e misticismo, surtiram em mim o mesmo efeito que as estonteantes ruínas do Mosteiro de Santa-Clara-a-Velha. Perdoem-me o relato na primeira pessoa, por norma abstenho-me desse registo e mantenho a necessária distância face ao texto, mas com este tema, em particular, não o vou fazer. Não pretendo que se trate de uma crónica jornalística muito apurada sobre o sítio, ou muito menos uma espécie de post institucional com todas as informações relevantes para os mais curiosos. Nada disso. Apenas ambiciono, e muito humildemente, exprimir em palavras os calafrios de contemplação que percorreram todo o meu corpo, assim que vi as ruínas pela primeira vez.

Entrar no Mosteiro de Santa-Clara-a-Velha é, literalmente, sinónimo de navegar em ruínas. O Centro Interpretativo, construído recentemente, oferece um chamariz sobre a vasta e rica história do monumento. No entanto, são as paredes caídas do passado, os resquícios daquilo que outrora foi um claustro, o gótico envolvente e a aura de pisar um solo com centenas de anos que me deixam assoberbada. Sou apaixonada pela História de Portugal desde pequena, como tal já tinha visitado diversos castelos, mosteiros e conventos, mas nunca senti nada sequer parecido comparativamente à beleza cáustica daquele lugar.

Fundado em 1283, por D. Mor Dias, o mosteiro enfrentou desde os seus primórdios invejas da sociedade religiosa da época de D. Dinis por um lado e, por outro, as infâmias inevitáveis das inundações do Mondego. A Rainha Santa, D. Isabel de Aragão, moveu todos os esforços possíveis e impossíveis para reerguer o edifício. Mandou alargar o espaço, ordenou a construção da Igreja e de um hospital para pobres, junto ao mosteiro. Por força da sua graça, as freiras mantiveram-se no templo enquanto puderam, porém o rio não lhes deu tréguas e forçou a sua saída, deixando o local ao abandono.

O passar dos anos e as constantes inundações, que continuaram a martirizar o mosteiro, deterioram a sua arquitetura, mas não mancharam a sua beleza colossal. A partir do século XX, o Estado começou a mover as suas atenções para o edifício, classificando-o como Monumento Nacional, em 1910. Mas foi, sobretudo, a partir do novo milénio que o Mosteiro de Santa-Clara-a-Velha mereceu uma intervenção mais ampla, tendo em vista a proteção e preservação destas ruínas tão belas e peculiares.

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