Revista Rua

Nos braços da costa minhota

Aos primeiros raios de sol de julho, o areal que preenche a costa minhota, de Vila Praia de Âncora a Moledo, vai mostrando o seu esplendor, aguardando o período de férias que dá novo ritmo aos negócios locais.
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira2 Julho, 2018
Nos braços da costa minhota
Aos primeiros raios de sol de julho, o areal que preenche a costa minhota, de Vila Praia de Âncora a Moledo, vai mostrando o seu esplendor, aguardando o período de férias que dá novo ritmo aos negócios locais.

Envolta no rebuliço das ondas, do rio ao mar, com a forte nortada que, mesmo depois de tantas visitas ainda nos apanha desprevenidos, Caminha é vila raiana de paisagens com a Serra d’Arga no coração. Em meses de verão, as férias trazem vigor e… rebuliço, o mesmo das ondas, do rio ao mar, dos que procuram as águas cristalinas para descanso, mas retirando do descanso dos meses invernosos um povo já habituado ao turismo sazonal. Um povo que, tal como os barcos que, na foz do Rio Minho, aguardam a subida da maré para os elevar da areia, resistem reinventando conceitos, apontando novos rumos e piscando o olho aos compadres espanhóis, ali a um passo. Do centro de Caminha às praias de Moledo e Vila Praia de Âncora, a RUA foi descobrir o verão que ali dá à costa, devagar devagarinho, até ao enchente do querido mês de agosto. Na mala trouxemos os melhores locais para viver em pleno Caminha, do comer ao beber, sem esquecer de registar o belíssimo pôr do sol!

Do alto da Torre do Relógio, com todo o seu ar medieval, Caminha mostra-se entre História e Rio, trazendo o Minho no seu esplendor em cada detalhe vislumbrado por entre a pedra. O centro histórico de Caminha, a sua praça central marcada pelo imponente chafariz, é ponto de encontro e convívio, partindo daqui os principais roteiros de descoberta das artérias da vila. Neste ambiente que relembra as memórias do passado, colocando lado a lado casas de comércio com história e projetos que carimbam ideias inovadoras no mercado “turístico”, Caminha é tranquilidade que aguarda ruído. Não por sofrer de melancolia, mas por querer ritmo de aventureiros, que aos primeiros raios de sol de julho já invadem esplanadas e procuram vivacidade. Mas que vivacidade oferece Caminha?

A poucos metros do icónico chafariz da praça central (Praça Conselheiro Silva Torres), o Restaurante Primavera é a mistura perfeita entre tradição e modernidade. Aida Barbosa, a gerente responsável, conta-nos que a casa faz-se de história, de espírito familiar, mas o menu é rico em contemporaneidade. “A minha família veio para cá em 1965, mas esta é uma casa com uma história muito antiga. O antigo proprietário, preso pela PIDE por ajudar nas passagens a salto para França, fez a casa famosa. Mas, quando o meu avô para cá veio, isso acabou. A casa, com duas salas onde se faziam grandes petiscos, principalmente porque os pescadores para cá traziam os mariscos que pescavam, cozinhando-os e comendo-os, foi evoluindo, passando por várias gerações até hoje. O que podem cá encontrar? A minha casa, porque o Primavera nunca deixou de ser um restaurante familiar, tanto para o cliente como para nós”, explica-nos Aida, aproveitando para nos mostrar a carta composta principalmente pelos peixes frescos provenientes da costa minhota. “Para além disso, o bacalhau é o prato de excelência, tal como dita a Cozinha Tradicional Portuguesa, que é realmente o tipo de cozinha que praticamos embora tenhamos já um toque de contemporaneidade”. Nessas opções de bacalhau, a sugestão passa pelo Bacalhau com Broa e Grelos, uma receita do antigo Convento de Santa Clara, de Caminha, pelo Bacalhau na Brasa e pelo Bacalhau à Primavera, feito em cebolada, à semelhança do Bacalhau à Moda de Braga. “Depois, o Cabrito à Serra d’Arga é o nosso prato emblema. É um prato que a minha avó já cozinhava desta forma há mais de 80 anos, embora nós tenhamos feito alguns ajustes, por exemplo, não cozinhando as batatas na gordura do cabrito – porque realmente é uma bomba calórica”, diz-nos, bem-disposta, Aida. Com uma carta de vinhos que privilegia os Vinhos Verdes de Melgaço, Monção e Ponte de Lima, dando ainda outras opções numa listagem de mais de 300 referências, o Restaurante Primavera tem na nacionalidade espanhola, proveniente da Galiza e não só, a maioria da sua clientela. “Não é invulgar ao fim de semana termos reservas das Astúrias, por exemplo”, refere a gerente, acrescentando: “Toda esta zona de Moledo, Seixas, Cristelo tem uma grande procura em termos de segundas residências. Houve uma altura em que 80% das casas em Moledo eram segundas residências. As pessoas rumavam para cá às sextas, sábados e domingos, mas depois, fruto da crise, as coisas complicaram-se. Agora já notamos melhoria porque, ao fim de semana, estando bom tempo, Caminha tem muitos turistas”.

Apesar do fluxo de visitantes apontar melhorias na procura de Caminha como destino, a verdade é que o turismo nunca deixou de ser sazonal. “Costumo dizer que Caminha é uma aldeia e não uma vila, porque as pessoas ainda se conhecem todas umas às outras. No centro histórico, os residentes, ou melhor, os resistentes ainda são pessoas que têm família e casas cá. Caminha é uma família grande, mesmo incluindo as pessoas das segundas residências, que já fazem parte do nosso quotidiano. No entanto, como é um turismo sazonal, há pessoas que receiam abrir espaços, porque nem sempre é proveitoso. Há 20 anos tínhamos fins de semana completos com reservas. Isso agora já não acontece e, não estando bom tempo, é mesmo muito complicado”, esclarece Aida Barbosa.

A mesma opinião tem Hélio Carvalho que, juntamente com o seu sócio Rui Rocha, decidiu apostar num conceito diferente na praça central de Caminha. Confirmando-nos que os meses de julho e agosto são os meses em que se “trabalha mais e os restantes são para sobreviver”, Hélio é natural de Moledo e vê neste seu investimento Noterreiro uma aposta em dinamizar Caminha, uma ideia que espera que desperte a atenção de novos empreendedores como ele. “Gostava que mais pessoas investissem aqui, fazendo coisas diferentes, porque vale a pena. Eu sou só um e acredito que isto possa criar um turismo de boomerang – de uma casa, o turista encaminha-se para outra. Para isso, tem de ser bem-recebido e tem de ter opções diferentes para escolha.

A opção diferente adotada pelo Noterreiro baseia-se num conceito que engloba bar, restaurante e gelataria, bem no coração de Caminha. Com os hambúrgueres como estrela da carta e as cervejas como sugestão de acompanhamento – a lista de opções é bem grande, mas sugerimos que uma das escolhas seja a caseira Água del Cano -, o Noterreiro distingue-se pela aposta nos produtos locais, seja a carne sempre fresca proveniente do talho que faz entregas duas vezes por dia, seja a alface vinda da frutaria da esquina. No panorama das sobremesas, os crepes e os gelados artesanais fazem as delícias dos visitantes.

Com uma decoração intimista, acolhedora e com toque vintage na sala mais recatada, perfeita para quem procura um momento calmo, o Noterreiro é um lugar perfeito para desfrutar Caminha na sua lógica rejuvenescida.

Junto à praça central de Caminha, o Design & Wine Hotel é um ponto de referência para quem procura uma atmosfera harmoniosa para descanso. Eco-friendly, este hotel beneficia da vista para o rio, não esquecendo todo o charme do centro histórico de Caminha.

Acompanhando esta lógica de Hélio, Jenifer Bernard criou o Jeni’s Diner há três anos, a poucos minutos da praça central. Com o sotaque americano ainda marcado no discurso em português, Jeny, como é conhecida na vila, trouxe para Caminha um conceito tão conhecido nos EUA: o diner, um tipo de restaurante casual, com uma carta diversa a pensar em todos os gostos, mas com os hambúrgueres, os wraps, os waffles e os batidos como preferências dos visitantes. “Normalmente, um diner é um estabelecimento que está aberto 24h, mas aqui não dá. Estamos abertos das 11h às 23h e vamos tentar prolongar o horário o máximo possível. Servimos comida todo o dia e é de destacar o pequeno-almoço americano, que é muito procurado”, conta-nos Jeny, uma neta de caminhenses que viveu 28 anos em Nova Iorque até decidir viver na terra que, durante muitos anos, apenas conhecia como destino de férias. Sobre o balanço do negócio, Jeny destaca a dificuldade de posicionamento, mas avança com um olhar destemido: “Foi um bocadinho difícil, mas a pouco e pouco estamos a conseguir ter uma presença em Caminha. O facto de não haver nada deste género aqui perto, nem no Porto, Braga ou Vigo, foi crucial”.

Na zona central de Caminha, deve ainda conhecer o Café Central, o Restaurante Baptista, o Restaurante Duque de Caminha, experimentar o doce típico Caminhense na Pastelaria Caminhense e, em termos de animação noturna, a Rua Direita onde se encontram vários bares e discotecas.

Moledo, um destino de verão

É com o belo Monte de Santa Tecla, já em território espanhol, como pano de fundo num horizonte que embarca também o Forte da Ínsua que damos os primeiros passos em Moledo. Terra muito procurada pelas famílias abastadas que, fazendo vida quotidiana nas grandes cidades, sempre procuraram manter um laço com Moledo através de segundas residências para os dias de férias e fins de semana de bom tempo, Moledo é uma freguesia do concelho de Caminha onde a Nortada parece ser uma constante. Nós testemunhamos em primeira mão e afirmamos… é vento a valer! No entanto, a beleza do areal, a tranquilidade da orla costeira apesar da procura nos dias de calor e a hospitalidade que é carimbo minhoto à descarada faz de Moledo um destino querido por veraneantes.

Na zona principal, passando a linha do comboio e encaminhando-nos para o mar, são muitos os restaurantes e bares que asseguram as necessidades turísticas. Escolhemos conhecer o Paredão 476, um bar/restaurante cujo terraço é sítio ideal para assistir ao pôr do sol, apreciando um fresco cocktail… ou a típica conjugação de cerveja e tremoços!

Aberto desde 2015, o Paredão 476 apresenta um conceito aconchegante, partilhando uma das entradas com uma loja de materiais de surf, windsurf e outros desportos aquáticos chamada All You Can Surf e gerida por uma empresa alemã. A própria decoração do espaço do Paredão 476 é influenciada por esta temática, sendo possível ver mesas em formato de prancha de surf, por exemplo. “Fiz um estudo de mercado antes de vir para aqui. Apostamos nas tapas porque percebemos que havia muito cliente português com segunda residência em Moledo que ia propositadamente a Espanha comer tapas. Sentimos aí uma lacuna e preenchemos essa oferta. Depois, fizemos uma aposta a nível de hamburgueria artesanal, com opções gourmet também”, explica Manuel Emídio, responsável pela gerência do Paredão 476 e detentor de outros negócios na zona de Moledo, como um posto náutico, os passeios no Rio Minho, o transporte de peregrinos para a outra margem e o Aldeamento Turístico do Camarido, uma unidade de alojamento com 33 casas de tipologias T1 e T2, todas equipadas, com piscina e campos de ténis, num ambiente tranquilo e familiar.

Dedicado ao serviço de pequenos-almoços, almoços, lanches e jantares, sem esquecer as opções noturnas de variados cocktails (mojitos, caipirinhas ou gins), o Paredão 476 é um refúgio em dias de Nortada e um posto de comando em fins de tarde, quando o pôr do sol abraça o mar. “Moledo é um sítio antigo, reconhecido por pessoas com possibilidades económicas elevadas, mas com turismo sazonal. O ritmo de julho e agosto não é acompanhado pelos meses de inverno, mas nós mantemo-nos abertos, tentando manter as coisas sustentáveis. Parece-me, na análise que faço dos últimos três anos, que a tendência de turismo é crescente, há cada vez mais evolução. Vila Praia de Âncora é também muito procurada, mas de forma diferente. Não sei porquê. Moledo é sempre especial!”, garante Manuel Emídio.

Em Moledo, não deixe de visitar os bares de praia como o Mergulho, o P’ra Lá Caminha ou o Rossio’s. A Pizzaria e Frangaria Hamilton, na Avenida Santana, é também ponto de referência para quem procura opções gastronómicas diferentes num ambiente acolhedor.

Já em Vila Praia de Âncora, a zona costeira desenrola-se com uma calmaria apenas desapaziguada pelo bater das ondas nas rochas. Com uma extensa via ciclável que permite passeios de bicicleta e caminhadas com a brisa marítima como companhia – sempre com possibilidade de Nortada -, Vila Praia de Âncora é uma vila piscatória carregada de tradições. Por isso, num roteiro pela costa minhota, não se esqueça de incluir os areais de Vila Praia de Âncora na sua lista de locais a visitar.

Quanto a nós, fizemos a despedida de Caminha com um brinde ao pôr do sol, num final de dia em que o vento não se levantou. As tréguas da brisa e a melodia das ondas pintaram o cenário perfeito para dar, com todo o entusiasmo, as boas-vindas ao verão!

Fotografia: Nuno Sampaio

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