Revista Rua

2018-05-03T10:58:40+00:00 Opinião

.Nós que opinamos.

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Cátia Faísco
Cátia Faísco
2 Março, 2018
.Nós que opinamos.

Eu tenho uma opinião. Tu tens uma opinião. Todos temos uma opinião. E é assim que as redes sociais se enchem de opiniões acerca dos mais variadíssimos temas. Utilizamos esta ferramenta para dar a conhecer aos outros aquilo que gostámos e, principalmente, o que não gostamos. É como se existisse uma espécie de dever silencioso do “olha que quem te avisa, teu amigo é…”. Até aqui, não vejo nenhum problema. Somos livres de dizer o que nos apetece nas nossas páginas. No entanto, o problema instala-se quando os supervisores da opinião alheia aparecem a policiar.

Há espectáculos que, por serem encenados ou interpretados por determinadas pessoas, são automaticamente colocados no altar. E, por isso mesmo, tornam-se intocáveis. Como se os trabalhos desses artistas fossem todos bons e não houvesse espaço para um momento menos feliz. Mas, a meu ver, qualquer pessoa é livre de poder opinar acerca disso. Ora, é precisamente quando surgem este tipo de opiniões que os policiadores da opinião alheia atacam.

E, como eu gosto sempre de vos dar exemplos para ilustrar aquilo que digo, sirvo-me mais uma vez de um. Há pouco tempo, a propósito de uma peça muito mediatizada, uma pessoa que tinha ido ver a mesma, escreveu que não ficara avassalada. Ora, das sombras, surge o policiador que lhe diz que se está a exprimir tal opinião é porque, com toda a certeza, não está habituada a ir ao teatro porque a peça era uma obra-prima. E isto, meus caros, é lindo, não acham? Obviamente estou a ser irónica.

O que me espanta sempre neste tipo de atitudes é a falta de visão. Como se não fosse permitido ter outra opinião ou como se não houvesse espaço para ela. Quem diz que a tua é sempre a que está certa? Quem diz que a minha está sempre certa? Ou, simplesmente, porque é que as duas não podem estar certas? E quem é que nomeou esta pessoa o guardião/policiador?

E, lamento, mas não consigo evitar partilhar aqui um episódio pessoal que entra dentro destas discussões de quem está certo ou errado e do espaço que há para isso. Quando estava para fazer o crisma, lembrei-me de perguntar porque é que a Igreja não acreditava em reencarnação. Um assunto delicado, já sei. Mas, a resposta foi absolutamente deliciosa: “Menina, aqui não há espaço para quem tem dúvidas”. E, sem mais demoras, um dos colegas, convidou-me a sair da sala. Eu sorri, virei costas e fui-me embora.

O dogma, a inflexibilidade, são palavras que me aborrecem. Seja em que dimensão ou área for.

Este também é um espaço de opinião. E todas as palavras que aqui escrevo, veiculam o meu pensamento acerca desta civilização do espectáculo. Não comprometo mais ninguém. Gosto da liberdade de me poder exprimir segundo o que penso acerca do que me rodeia. Portanto, meus caros policiadores de opiniões contrárias à vossa, deixem-se de coisas e bebam um cházinho que só vos faz bem.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o Autor

Escolhi a eternuridade como palavra mãe porque sou teimosa. Prefiro a plateia ao palco. Penso melhor debaixo de água. Adoro pôr as mãos na massa. Professora, investigadora, yogui.

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