Revista Rua

2018-07-01T14:49:08+00:00 Opinião

O amor, no verão, é nove vezes mais forte

PALAVRAS
Paulo Brandão
Paulo Brandão
2 Julho, 2018
O amor, no verão, é nove vezes mais forte

Estar na praia é estar em sítio nenhum. Deitados na areia, nada daquilo nos pertence e nós não pertencemos a nada nem a ninguém. Os amores de verão sabem a sal como a água do mar. Uma onda mal calculada pode matar-nos. Um livro pode ser consumido em dois dias como se houvesse fogo.

“Aquele” mês de férias ganha urgência. Queremos tudo o que o inverno não nos deu. O nosso corpo está mais disponível, mas também, por isso, mais volúvel e nem sempre preparado para o sol inimigo. Depois do duche, dançamos exibindo o que de mais sexual há em nós na discoteca mais próxima ou deixamos que a casa de veraneio seja tão importante como a pá e o balde, elevando em nós aquela inocência bendita.

Sempre que há verão, a adolescência volta. A candura das mãos dadas. Os primeiros beijos mesmo que sejam os últimos. As hormonas em harmonia com a natureza, selvagem ou erudita, familiar ou urbana. O amor, no verão, é nove vezes mais forte. Ficar dentro de casa ou do casulo que nos segura e protege no inverno é que não.

Recebo muitas “cartas” dos anos 80, todas elas felizes. A memória, em si mesma, deve ser feliz. Que dias atlânticos, em que julgo sentir-me o centro de todas as atenções. Um gole de água. Um gelado a meio da manhã. O lanche da tarde tépido. Sacudir a toalha pela enésima vez… O meu corpo é um lugar? E os corpos dos outros estendidos na praia, um texto a ler? É mar que o pensamento ousa? E as minhas pernas que semeavam jardins a cada corrida?

A Sul, há praias que têm nomes extraordinários e que parecem contar coisas dos Verões passados: Praia de Vale dos Homens, Praia do Amado, Praia da Bordeira, Praia de Vale Figueira. O que houve ali de tão humano que a memória apagou? Quantas fogueiras acesas? Quantos corpos em aprendizagem? Quantos rostos a corar?

A Sul, há praias que têm nomes extraordinários e que parecem contar coisas dos verões passados: Praia de Vale dos Homens, Praia do Amado, Praia da Bordeira, Praia de Vale Figueira. O que houve ali de tão humano que a memória apagou?

Durante anos, fiz férias em Vila do Conde. É certo que estive mais a Norte, e amo a Apúlia, Afife, Esposende, Vila Praia de Âncora. E ainda vou, muito mesmo, mas mais no inverno, em dias certamente ventosos e, diria, existenciais. Ou então por causa da gastronomia, sobretudo do peixe e do marisco. São praias talentosas, mas mais severas, com nortadas pela certa e permanentes neblinas, diria, sanjoaninas.

Mas Vila do Conde é a “minha” praia. Sobretudo as Caxinas, geografia que faz parte de mim, de viver ali “dentro” durante dias até ao findar do sol, a praia deserta, as minhas primas Veras sempre enfiadas na água, a chuva a cair já no fim da estação e nós ali, perigosamente dentro de água, e mais longe no tempo a minha avó Emília de mão dada comigo e uma foto que ainda guardo, onde estou quase do tamanho dela, mãe da minha mãe, ela de vestido da cabeça aos pés e eu com um calção azul com uma risca vermelha que me lembro de vestir, mas que a foto a preto e branco não deixa confirmar. E agora, pergunto-me: como era possível sobreviver ali sem telemóvel, sem internet, sem estar conectado com outras pessoas que não as minhas doces primas: Cláudia, Lúcia e Fátima? Nessa altura, até parece que o sol era mais brando, que não queimava como queima hoje apenas porque não havia a noção exata do mal que nos podia fazer. E, por isso, não consta que tivesse havido insolações ou alguém esfolasse de tanta exposição. Como se as Caxinas soubessem que não éramos dali e cuidasse da nossa pele e das nossas cabeças ao vento como o mais eficaz dos protetores solares de hoje.

O verão cura. O inverno paralisa. Estamos em julho temperado, mas o agosto, é certo, não vai vacilar. Em setembro, já tudo será outono. Em outubro, já tudo será Natal. Temos pouco tempo para evitar o invólucro e as mordomias das casas altivas das cidades afastadas da costa.

Sobre o Autor:

Diretor artístico do Theatro Circo.

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