Revista Rua

2018-10-03T11:21:50+00:00 Opinião

O estranho caso de Conan Osiris

Música
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
3 Outubro, 2018
O estranho caso de Conan Osiris
Fotografia ©D.R.

Neste ano de 2018 tem havido um caso, ou antes um fenómeno, que se tem evidenciado no panorama da música nacional. Um tal de Conan Osiris, há coisa de um ano um perfeito desconhecido e, neste ano, um fenómeno de popularidade como não tenho memória; sobretudo na realidade internauta e redes sociais.

Comecei a ouvir falar deste nome no final do ano passado e passados nem 12 meses já foi ao Festival Vodafone Paredes de Coura, já encheu o Theatro Circo e até já fez uma publicidade para a NOS. É um fenómeno tal que é chavão num festival e noutra marca rivais das telecomunicações: incrível! Como se explica um fenómeno destes? Não há, por assim dizer, uma fórmula mágica nem exata. O chamado hype acontece, grande parte das vezes, sem grande noção. Há uma junção de sorte, com o timing certo e com o trabalho das pessoas certas; Mas já lá vamos.

Muitas pessoas perguntam-me se conheço o Conan Osiris, se gosto, o que acho. Por ser programador de alguns eventos de música e de uma casa de artes todo o cuidado é pouco quando me tento pronunciar sobre o artista A ou B. Posso não apreciar a obra de um músico, mas convidá-lo na mesma para integrar um qualquer line-up. Faz parte deste trabalho ter essa inteligência e colocar “egos” de lado, muitas vezes. Neste caso específico do Conan Osiris, mais do que ser um caso de gostar ou não gostar, é um caso de eu, pessoalmente, não entender o histerismo coletivo que se gerou à volta deste personagem. Não percebo a obra, simplesmente. Dizem que é “contemporâneo”. Talvez seja, mas para mim ser contemporâneo não é o melhor adjetivo ou classificação que se possa fazer. Seja na dança, seja na música, o ser contemporâneo está muitas vezes próximo do absurdo. Isso ou sou limitado de sensibilidade – para não dizer de inteligência – para acompanhar alguns casos “irreverentes” e “contemporâneos” que vão aparecendo. O Conan Osiris é um deles.

Estas pessoas, estes agentes que alimentam a máquina e trabalham os artistas são os responsáveis maiores deste hype que todas as bandas procuram ter. Todas querem ser um fenómeno. Todas querem ser o que é hoje o Conan Osiris enquanto exemplo de notoriedade.

Este e outros fenómenos na música acontecem com alguma frequência. Porventura, não tão galopantes como o caso de Conan Osiris, mas lá vão aparecendo. O hype, este ímpeto de popularidade, este ter a maré a seu favor, acontece, como disse acima, com um conjunto de fatores. Desse conjunto, o trabalhar com as pessoas certas é o mais importante. Quando se fala em trabalhar com as pessoas, fala-se em agentes, managers, responsáveis pela comunicação, pessoas que vão entregar o disco nas rádios e deixam a garantia que o que entregam vai ser de facto ouvido, pessoas que garantam as entrevistas nos canais certos e no timing certo. Enfim, as pessoas que fazem a máquina mexer. Hoje em dia, no mercado da música, ter estas pessoas – ou apenas pessoa – torna-se mais dispendioso do que gravar um CD num estúdio. Diria até que nos tempos que correm é mais importante ter uma pessoa que venda convenientemente o peixe, isto é, o produto; isto é, o disco; do que a qualidade da gravação do mesmo. Os tempos mudaram e assegurar a notoriedade nas redes sociais e as entrevistas-chave são a maior garantia de passaporte para os concertos nos locais mais importantes.

Estas pessoas, estes agentes que alimentam a máquina e trabalham os artistas são os responsáveis maiores deste hype que todas as bandas procuram ter. Todas querem ser um fenómeno. Todas querem ser o que é hoje o Conan Osiris enquanto exemplo de notoriedade. E, agora que me lembro, também já ouvi dizer que ele – o Conan Osiris – é um fenómeno pela originalidade. Sim, há que dar o mérito, é de facto original. Porém, isso não quer dizer que seja genuíno. São duas coisas bastante diferentes e, por norma, a segunda é mais importante do que a primeira.

Um brinde aos fenómenos!

Sobre o Autor:
Signo escorpião, sei informática na ótica do utilizador, programador do espaço cultural Banhos Velhos e sou um eterno amante de música, do cinema e do Sozinho em casa.

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