Revista Rua

2018-10-29T16:20:54+00:00 Opinião

O Halloween

Humor
João Lobo Monteiro
João Lobo Monteiro
29 Outubro, 2018
O Halloween

Desta vez, decidi ser muito taxativo no título, assim já sabem ao que vimos. E sim, estou bastante encolerizado a escrever sobre isto, porque é uma, vá, festividade que me irrita bastante. Como me irritam quase todos os assuntos que aqui trago mensalmente. Eu irrito-me com muita coisa.

Comecemos pela parte mais evidente: o Halloween é uma tradição dos países anglófonos. Globalização, tudo bem, mas Portugal não é um país anglófono. Às vezes, nem sequer é um país lusófono, se falarem com o Jorge Jesus, por exemplo. Sim, a Guiné Equatorial faz parte dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), mas isso é uma estupidez nossa, historicamente somos dados a estas invenções, ninguém tem nada a ver com isso, muito menos têm de copiar. Vão lá aos Estados Unidos a ver se há festa com sardinha assada a 12 de junho ou martelinhos e alho-porro a 23 de junho. Não há! Porque é estúpido, até aqui, quanto mais lá.

Não percebi bem quando é que isto de se festejar o Halloween em Portugal começou, só sei que já cá estava e desde tenra idade percebi que não fazia sentido. Nas aulas de Inglês, tudo bem, mas fora disso não faz sentido.

“Enfim, resulta tudo isto em mais uma oportunidade para a juventude se ir divertir na véspera de um feriado, sendo que no dia seguinte já é mais complicado ir homenagear os finados, porque custa levantar cedo e visitar mortos-mortos não é, tipo, tão fixe como conviver com os mortos-vivos”

A tradição de andar de porta em porta a recolher doces, agora que a Troika já saiu de cá, também deixou de ter razão de ser. Querem rebuçados e chocolates, peçam aos vossos pais ou vão comprar.

Perguntar “doçura ou travessura?” só é bem pensado como innuendo sexual, porque é uma situação em que se fica sempre a ganhar, seja qual for a hipótese que a outra pessoa escolha. Agora, ser uma pessoa adulta a bater de porta em porta, a perguntar “doçura ou travessura?”, principalmente se for nesse âmbito do duplo sentido para a ramboia, é crime. Não façam isso. Ainda por cima, nesta altura está frio, se andarem com um sobretudo castanho ainda fica pior. Fiquem quietinhos em casa, vá.

E os disfarces? Primeiro, há pessoal que não precisa, porque todos os dias se apresentam ao mundo como mortos-vivos. Por outro lado, há quem precise de se vestir de bruxa ou bruxo, a ver se ficam bonitos por uma noite. Mais uma vez, e tal como no Carnaval – outro evento odioso -, mais vale estarem nas redes sociais, a fingirem ser quem não são, no quentinho dos vossos lares, de um estabelecimento comercial ou de uma casa de divertimento noturno. É tudo pelo vosso bem. Preocupo-me com a vossa saúde.

Enfim, resulta tudo isto em mais uma oportunidade para a juventude se ir divertir na véspera de um feriado, sendo que no dia seguinte já é mais complicado ir homenagear os finados, porque custa levantar cedo e visitar mortos-mortos não é, tipo, tão fixe como conviver com os mortos-vivos.

Se querem festejar, façam-no nos sítios próprios: vão para os States, lá é que bate bué. Mas cuidado com quem se #MeToo em Las Vegas. Não queiram que a CMTV, daqui a uns anos, vá visitar a vossa suite.

Sobre o autor:
Tenho dois apelidos como os pivôs de telejornal, mas sou o comunicador menos comunicativo que há. Bom moço, sobretudo.

Partilhar Artigo:
Fechar