Revista Rua

2018-11-08T14:52:22+00:00 Opinião

O senhor professor

Palavras
Paulo Brandão
Paulo Brandão
18 Outubro, 2018
O senhor professor

Numa entrevista longínqua publicada na revista K ao professor (e escritor) Vergílio Ferreira, de abril do ano de 1991, ele dizia que tinha tido a sorte de viver o bastante para assistir à queda dos dois fenómenos que mais detestava: o fascismo e o comunismo. Passados 27 anos, algo que parecia tão certo na sua voz, parece mais lento em cair definitivamente.

A vida é curta e está cheia de empecilhos. A coisa agrava-se quando alguém consegue meter-nos medo e faz levitar fantasmas que na vida real podem causar-nos muito mal. Não é por isso um delírio recear bestas como Jair Bolsonaro. Porque aquilo que alguém diz pode efetivamente matar. E as barbaridades ditas são muitas.

O poder da palavra, aquilo que todos nós conseguimos fazer com a palavra, é aterrador ou é amoroso. O cérebro não sabe distinguir entre realidade e sonho. Daí a importância do discurso político, muito de unir e não desunir. Mas unir no bom sentido, não no sentido do mal ou da destruição, não no sentido do racismo, da homofobia, do isolamento social, do uso da violência. Mas há que ter cuidado. Empolar o que por vezes é comum na sociedade brasileira, abrindo a ferida como se fosse um ato daquele demónio em particular, por vezes só valoriza o demónio e dá-lhe visibilidade.

“Empolar o que por vezes é comum na sociedade brasileira, abrindo a ferida como se fosse um ato daquele demónio em particular, por vezes só valoriza o demónio e dá-lhe visibilidade”

Tenho uma paixão enorme pelo Brasil e só lá estive uma vez. Temo, claro, pelo seu caminho. Mas já temia antes de Bolsonaro e da sua ascensão. A ditadura militar, muito comum nos países da América Latina, caiu no Brasil em 1985 e durou mais de 20 anos. Coincidente, julgo, com a Guerra Fria. Nesse período, a desigualdade social aumentou, assim como a repressão política, a dívida externa e a inflação. A economia do país cresceu. Mas o preço foi alto. Militares e polícias, em parte, especializaram-se em torturar, matar e esconder os corpos. A censura, como no Portugal salazarista, impedia o acesso à informação e forçava muitos brasileiros a viver fora do seu país. Hoje, por força da informação, são muitos os que escolhem sair, antevendo tempos pouco generosos. Mas continuam informados e ansiosos pelo bem-estar do seu país. Estranhamente, muitos dos que estão em Portugal votaram Bolsonaro e parecem não conseguir ouvir que um tudo ou nada à direita, com aquele discurso engenhoso e pateta, mas nada ingénuo do Bolsonaro, pode conduzir a algo muito feio. Tão indecente que, só de pensar que poderá ser eleito, já desune famílias e amigos.

Na Europa, chamam-lhe “o coiso”. Mas este fala sem papas na língua e não esconde o que é. Não é uma virtude. É muito claro o que pretende fazer na Amazônia e com os índios que ostraciza. E só isso seria motivo para que nem o seu nome fosse pronunciado. É triste quando temos de o fazer para lembrar que a política não é isto e que o Brasil merece outra sorte. E que este “coiso” é, esperando estar errado, um erro!

Sobre o Autor:
Diretor artístico do Theatro Circo.

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