Revista Rua

2018-08-06T11:34:39+00:00 Opinião

O turista invisível

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Minho Ciclável
Minho Ciclável
6 Agosto, 2018
O turista invisível

Há dias, tive a oportunidade de conversar com um simpático turista alemão que estivera alguns dias em Braga e que seguiria de bicicleta pelos caminhos e estradas de Portugal, com destino a Faro. Foi uma conversa breve, mas deixou-me a pensar sobre o modo como em Portugal abordamos o Turismo.

É com alguma frequência que me cruzo com turistas que visitam o nosso país de bicicleta e em quem quase ninguém repara. Lembro-me, por exemplo, de uns jovens sul-coreanos, de um reformado austríaco, de um casal de irlandeses com uma filha pequena, de um casal de espanhóis, de brasileiros… Conversa puxa conversa, percebe-se que damos passos pequeninos, mas temos ainda muito por fazer nesta matéria. A nossa rede viária, apesar da progressiva criação de vias cicláveis e do fantástico trabalho de inventariação levado a cabo pelo Paulo Guerra dos Santos (Rede Nacional de Cicloturismo) está a milhas do que se faz no resto da Europa. Mas também a falta de outras infraestruturas e serviços importantes, como os estacionamentos adequados para bicicletas ou o seu transporte nos comboios, que em muitos casos continua a ser incerto ou quase impossível, são fatores que, por vezes, desapontam estes turistas, que vêm tão desejosos de se apaixonarem por este país do sol fantástico e das pessoas acolhedoras.

Ao mesmo tempo, e ainda que gostemos de pensar em nós como gente de bem, que sabe e gosta de receber da melhor forma quem nos visita, na estrada nem sempre somos assim tão amigáveis para com estes viajantes. Talvez porque perdemos o hábito de nos deslocarmos de bicicleta, parece que nos esquecemos de como é. Ao volante, buzinamos, aceleramos, fazemos ultrapassagens arriscadas e assustadoras, mostramo-nos impacientes e pouco tolerantes para com quem viaja de bicicleta. Sem dúvida, um mau cartão de visita do nosso país.

Claro que nem todos nos comportamos desse modo ao volante. Mas, às vezes, só refletimos a sério sobre isto quando finalmente pegamos também na nossa bicicleta e nos fazemos à estrada. Percorrer o país de lés a lés em cima de uma bicicleta. Ir a Fátima. Fazer uma peregrinação a São Bento a pedalar. Ir de bicicleta até à praia, ao hotel, ao parque de campismo. Porque não?

Para sabermos acolher melhor quem nos visita, e também para nós próprios podermos descobrir e desfrutar dos prazeres de uma longa pedalada, nada como pegar nas bicicletas e pedalar. Vai ser uma aventura inesquecível. E verá então que, quando encontrar um ciclista no seu caminho, em vez de se enervar e carregar na buzina, vai antes abrandar, sorrir e pensar “força aí, companheiro, que se eu pudesse, também ia hoje de bicicleta!”.

Victor Domingos
Membro da Associação Braga Ciclável

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