Revista Rua

2018-11-08T14:51:32+00:00 Cultura, Em Destaque, Teatro

O “Veneno” dos nossos dias com Albano Jerónimo

A peça "Veneno", com Albano Jerónimo na representação, estreia esta noite, pelas 21h30, na Casa das Artes de Famalicão.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira26 Outubro, 2018
O “Veneno” dos nossos dias com Albano Jerónimo
A peça "Veneno", com Albano Jerónimo na representação, estreia esta noite, pelas 21h30, na Casa das Artes de Famalicão.

As palavras surgem ofegantes, num crescendo de inquietação que coloca o público em sentido, à espera do desenrolar de uma história que se encaminha para a tragédia. Não se deixe levar pelas gargalhadas dos minutos iniciais da peça, porque o que verá no palco da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão, hoje e amanhã, é o Veneno dos nossos dias nas palavras de Albano Jerónimo.

Vestindo a pele de um pai assombrado pelos devaneios da sua história, Albano Jerónimo é o dono do palco, num ambiente caseiro, mas vazio. As dinâmicas daquela casa são contadas a partir daquele sofá, com o cão de loiça ao lado, pela voz de Albano Jerónimo e pelas breves intervenções de narração, a cargo de Luís Puto. É este quase monólogo de Albano Jerónimo que apresenta aquela família e as suas desavenças, as suas graças e os seus tormentos. Com uma linguagem forte, grosseira até, a peça vai subindo de tom, com aquele pai dos subúrbios e aqueles filhos que surgem apenas na imaginação do público.

“Este é um texto altamente sexista, homofóbico, racista e o nosso intuito é exatamente expor problemáticas, situações ou formas de pensar”, apresenta Albano Jerónimo.

Veneno traz a falência da família, envolvida nos problemas do quotidiano, da falta de dinheiro à falta de oportunidades. Num sintonizar de estação de rádio, como numa procura de um sintonizar de vida, Albano Jerónimo surge altivo e lunático, num personagem que nos coloca na primeira fila das tragédias familiares que o nosso país tem assistido. “Esta peça é um exercício sobre a violência, sobre o grotesco, daí também a utilização de uma linguagem vernacular, escrita muito bem pela Cláudia Lucas Chéu. É preciso enquadrar este texto e este assunto dentro de uma realidade suburbana. Foi o intuito da nossa estrutura, a teatronacional21, criar um objeto que falasse de coisas que hoje em dia nos estão visíveis na televisão, por exemplo. Este é um texto altamente sexista, homofóbico, racista e o nosso intuito é exatamente expor problemáticas, situações ou formas de pensar. Trazemos um pai que lida com a incapacidade de lidar com o real, daí esta peça ser uma espécie de delírio”, explica-nos Albano Jerónimo, ator e responsável pela direção de Veneno. “É um homem que obviamente lida com as consequências trágicas da morte da mulher e do amante da mulher, consequentemente rapta os filhos e mata toda a gente no fim. A ele também. Isto partiu de vários exemplos violentíssimos da nossa realidade”, explica ainda, referindo a intenção de expor nesta peça a degeneração ou extinção da entidade familiar.

Num texto originalmente escrito em 2015 por Cláudia Lucas Chéu, com uma ligeira reescrita durante os ensaios, Veneno estreia fora do circuito das grandes cidades de Lisboa ou Porto – e esta casualidade acaba por ter um significado perfeito. “Estrearmos fora de Lisboa tem a ver não só com uma descentralização da cultura, mas sobretudo porque interessa-nos fazer o percurso inverso: estrear fora das grandes metrópoles. Este texto é um ponto de partida para falarmos de um contexto suburbano, quisemos expor as subculturas não-latentes e que são corpo, no nosso entender, das grandes metrópoles, como Lisboa. Por exemplo, neste momento, estamos a sofrer algo tremendamente transformador: no centro de Lisboa não temos lisboetas, temos turistas (não estou a dizer que isso é mau, é ótimo, por um lado), mas o que está a acontecer é que há um movimento tal que as pessoas estão a ir todas para os subúrbios. No fundo, estes subúrbios de Lisboa refletem a identidade lisboeta. Nesse sentido, quisemos trabalhar este conceito, aplicá-lo noutros sítios onde vamos apresentar-nos, como Famalicão, Viseu e Ovar, e no final desta jornada – que vai culminar no próximo ano, esperemos que em Lisboa -, vamos promover um colóquio para abordar estas questões de uma forma mais cimentada, envolvendo um arquiteto, temos em mente também o Vhils e ainda o professor Bragança de Miranda. Portanto, interessa-nos que isto seja um caminho”, esclarece Albano Jerónimo.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Destacando a necessidade de, como agentes culturais, levantar este tipo de questões sociais, a autora do texto, Cláudia Lucas Chéu, acrescenta ainda a importância de abordar a temática da família nesta peça. “As questões desta psicopatia social estão muito na ordem do dia, por razões negativas, muitas vezes. A verdade é que nós não conseguimos perceber, a nível estatístico, se estas temáticas de facto estão a ter maior incidência ou se é a imprensa que também empola estas questões. O problema é que estão a ser faladas e cada vez mais. Uma das grandes questões do texto de Veneno é a “bancarrota” da entidade família. O modelo tradicional da família não está funcional”, indica.

Apresentando-se na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão, em estreia hoje e com reposição amanhã, Veneno é um convite à reflexão dos dias que vivemos, com ênfase na categoria Família e na sua angustiante falência. O texto pode ser duro de ouvir, as palavras podem soar como uma provocação, mas a realidade de Veneno é extasiante. Um Veneno que não mata, mas mói… e nos fará aplaudir de pé.

Fotografia ©Nuno Sampaio
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