Revista Rua

2018-05-03T19:05:59+00:00 Opinião

Ó gente da minha casa

Humor
João Lobo Monteiro
João Lobo Monteiro
3 Maio, 2018
Ó gente da minha casa

Um passarinho do mundo editorial disse-me que o tema deste mês era Pais e Filhos. Vou ter de falar mais da parte de ser filho, tarefa que sempre executei com a excelência que me é reconhecida em tudo o que faço, do que da parte de ser pai ou, até, de ser mãe, porque nunca se sabe o que nos pode acontecer um dia, quiçá. É possível que este texto seja uma mistura entre revelações bem-dispostas e entendimento holístico sobre factos que fizeram de mim a pessoa um pouco avariada que sou. Portanto, servirá bem ao autor e ao leitor, ficamos todos felizes e é isso que se quer da vida, um dia de cada vez e tal.

Os meus pais são professores, embora agora professorem menos do que professoravam anteriormente. O meu Word não deu erro na palavra “professorar” e esta foi uma das coisas que não me ensinaram, que a palavra “professorar” existe mesmo.

Sendo que o meu pai, antes de ser diretor de escola, era professor de EVT, também nunca me ensinou a desenhar de forma condigna. Pelo menos, foi-me valendo em trabalhos em que eu tinha de ter boa nota, para não me estragar a média e eu poder ir para o quadro de honra da escola na mesma. Acho que agora já posso contar estas coisas.

Outro aspeto em que os meus pais falharam (sobretudo o meu pai) foi não me ensinarem a andar de bicicleta. Apostaram tudo no futebol e na casa com piscina que eu lhes ia dar, quando me podia ter tornado num gregário que serve um líder de equipa dopado.

João Lobo Monteiro, humorista

Por outro lado, a minha mãe, enquanto professora do 1.º Ciclo (não digam “professora primária”, que ela fica atiçada), cumpriu a tarefa de me ensinar a ler e a escrever de maneira supimpa, a saber as capitais de distrito e também um truque na tabuada do 9.

Nas coisas herdadas, porém, a minha progenitora falhou um pouco e passou-me, por Bluetooth umbilical, a ansiedade, o pânico com coisas simples, o peso na consciência de ter de ser eticamente impecável e parte da vesícula preguiçosa que ela já não tem. Quer dizer, não herdei literalmente, não houve uma transfusão de vesícula. Mas pelo menos saí relativamente bonito. Não tanto quanto ela, no entanto. Já o meu pai, além de partes fisionómicas semelhantes, tornou-me adepto do SC Braga, que é o melhor contributo que me lembro de ter dado à minha vida. Na maior parte das vezes, vá.

Outro aspeto em que os meus pais falharam (sobretudo o meu pai) foi não me ensinarem a andar de bicicleta. Apostaram tudo no futebol e na casa com piscina que eu lhes ia dar, quando me podia ter tornado num gregário que serve um líder de equipa dopado. Era muito mais interessante. Além de que tinha uma forma de fugir, se um dia me apanhasse em Chinatown, num filme do Jackie Chan. Assim, tenho de fugir a correr e correr cansa muito. Até porque eu precisava de desgastar a comida muito calórica que o meu pai me deu durante a infância e adolescência – e ainda agora tenta, mas eu sou como sou e não deixo que me mudem.

Mas, hey, gosto mesmo muito deles. Também fizeram coisas muito certas na minha educação e na educação do meu irmão, como por exemplo… Oh, que pena, já não tenho caracteres para contar as partes boas. Pronto, fica para a próxima. Já agora, bom Dia da Mãe para todas, principalmente para a minha. Vá lá, consegui acabar isto bem, já não me vai pôr sempre a refeiçoar peixe.

Sobre o autor:

Tenho dois apelidos como os pivôs de telejornal, mas sou o comunicador menos comunicativo que há. Bom moço, sobretudo.

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