Revista Rua

2018-08-24T12:41:10+00:00 Opinião

Os livros também se abatem

Palavras
Paulo Brandão
Paulo Brandão
3 Setembro, 2018
Os livros também se abatem

Embora os ame, não é meu hábito falar muito de livros nestas minhas crónicas mensais. Mas tenho dedicado a eles muito da minha existência e só me arrependi de os ter quando mudei de casa ou quando, por empréstimo, eles se mudaram.

O meu quarto, não tanto por falta de espaço, mas por gosto, tem altas estantes repletas do que li ou quero ler. Normalmente, livros muito bem alinhados e por autor, e até unidos pela cor, numa lógica de afetos faraónica e muito minha. Lá dentro, na sala, há uma estante nórdica dos anos 40 ou 50, onde há mais livros, mas não tão importantes para as minhas insónias.

Estes dias, comprei na Centésima Página uma revista de livros do Brasil, a “Quatro Cinco Um”, que me levou a pensar que os livros também morrem. E que, historicamente, quando matam os livros, a seguir matam seres humanos. Foi assim que os nazis agiram e dizimaram, através do fogo, milhares e milhares de livros, homens e mulheres, muitos deles escritores. Há um excelente artigo nessa revista que fala disso mesmo, com o perturbador título “Confissões de um incinerador de livros”.

“Uma das principais características de quem gosta de ler é precisamente gostar do cheiro dos livros. Chegar a uma livraria, abrir um livro novo e por momentos não ler, ou ler com o nariz, numa atitude muito “o cão dos Baskervilles”, é menos raro do que possamos pensar”.

Ray Bradbury descobriu a temperatura a que os livros ardem, “Fahrenheit 451”, e o filme de François Trauffaut descobriu que o assobio das páginas a arder tem qualquer coisa de lancinante, muito perto da voz humana em sofrimento. No livro, há um personagem mecânico que passa um pouco despercebido e que não surge no filme. Um cão de caça, nitidamente decalcado do livro de Sir Arthur Conan Doyle. É uma máquina de oito patas desprovida de sentimentos, programada para caçar e matar livres pensadores, achando-os apenas por olfato, como se pensar ou escrever libertasse as mais poderosas feromonas. Ora, uma das principais características de quem gosta de ler é precisamente gostar do cheiro dos livros. Chegar a uma livraria, abrir um livro novo e por momentos não ler, ou ler com o nariz, numa atitude muito “o cão dos Baskervilles”, é menos raro do que possamos pensar.

A circulação dos livros é, quase sempre, a preocupação maior dos escritores. A capa da revista reforça isso mesmo ao homenagear Hilda Hilst. Depois de Clarice Lispector, é a minha escritora brasileira favorita. Hilda, autora homenageada da Flip 2018 a título póstumo, que queria ver publicada toda a sua poesia em vida, vê agora nas livrarias todos os seus escritos.

Os livros, feitos de papel, são assim muito humanos. Uma extensão do corpo dos escritores e dos leitores. Continuarei, por isso, a tê-los ali bem perto da cabeceira onde medito e durmo. Nada de muito cerimonial. Simples, até. A incendiar, que seja a minha cabeça enquanto leio.

Sobre o Autor:
Diretor artístico do Theatro Circo.

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