Revista Rua

2018-05-03T19:05:46+00:00 Opinião

O cheiro dos nossos filhos

Palavras
Paulo Brandão
Paulo Brandão
3 Maio, 2018
O cheiro dos nossos filhos

Não sei que diga. Não sei mesmo por onde começar. Ser pai. Sei pelo menos que há um antes e um depois. E que tive um pai incrível, doce, brincalhão, sensível, bonito. Que nos amava profundamente, a mim e à minha irmã Helena, e para quem o neto e as netas eram tudo.

Ser pai é dar à luz. É dar luz. É saber que o amor é mais incrível quando incondicional. É saber que a Ana e a Catarina vieram também de dentro de mim. Que não tive escolha. Que elas não tiveram escolha. Que a inteligência da mãe e do pai estão lá. Que o riso da mãe e do pai estão nelas como se o tempo fosse a idade a crescer para que venham netos e bisnetos. Ninguém sabe. E por isso, esse mistério tão animal, tão doloroso e feliz, tão amargo e doido, é literalmente o melhor que me aconteceu.

Antes de mais, sou pai. Não há como não ser. Não há como não querer ser. Não há como não pensar todos os dias na Ana e na Catarina e sentir que as amo mais do que a mim mesmo, que todos os chavões do mundo cabem aqui e não são lérias. Ouvir um “amo-te papá” fica-nos tatuado no coração, na cabeça, no corpo que avança abraçando os dois seres que, neste momento, já estão da minha altura. Mas há dias atrás, diria que há poucas horas, há minutos, estavam no meu colo, no calor do meu peito. Que bom, mas que bom, o cheiro dos nossos filhos. Não há perfume que se lhe assemelhe, aquela pele macia, cheia de refugos. Que bom, tão bom. Os pais nunca dizem sentir saudades porque, na verdade, a Ana e a Catarina, por exemplo, apesar de quase adultas, foram bebés há segundos e nós pais queremos muito que eles cresçam, e sejam felizes, e sejam livres, e cultos, e espertos, e sobretudo mantenham a inocência que é a coisa mais doce e livre do amor, uma palavra tão gasta pelas violências várias que fazem parte da vida e que nos fazem crescer, como eu ainda cresço e a quem a minha mãe chama de Paulinho e se preocupa comigo como se eu tivesse acabado de dizer as primeiras palavras ou dado os primeiros passos. Talvez por isso, a mim mesmo impedirei de perder aquilo que é mais extraordinário em mim: os afetos, o gostar de me dar, o gostar de pertencer, o fazer pelos outros sem esperar retorno, essa sabedoria que adquirimos quando somos pais e mães, quando percebemos que nascemos livres do sexo, da religião, da cultura, que nascemos assim com as qualidades todas para ser o melhor dos humanos e que nem sempre isso acontece.

Antes de mais, sou pai. Não há como não ser. Não há como não querer ser. Não há como não pensar todos os dias na Ana e na Catarina e sentir que as amo mais do que a mim mesmo, que todos os chavões do mundo cabem aqui e não são lérias.

Paulo Brandão, Diretor artístico do Theatro Circo

Ser pai permite-nos aceitar os outros mais do que a nós mesmos, que a vida é maior do que nós, que entre surpresas e desamparos vamos continuar por aqui. E por isso amo também os filhos dos outros, adoro bebés e gosto de os massacrar em mimos com se fossem meus. Os pais sabem do que falo. Os meus sobrinhos sabem que o Tio Paulo adora que eles riam muito e por isso faz palhaçadas sem custo e diz coisas tontas e lhes ensina coisas menos tontas sobre a vida e de como os pais deles são tão importantes em tudo, e que os amam.

Choca-me quando as crianças passam mal, na guerra, no abuso sexual, na doença, no excesso, muitas das coisas, a maior parte delas, responsabilidade dos adultos. Por ser adulto, devo dar o meu melhor aos meus filhos e a todas as crianças filhos dos meus interpares. Enquanto pai, quero continuar a ser genuíno e verdadeiro, a ser eu mesmo com todos os defeitos e virtudes a que tenho direito. Erro todos os dias. Mas também amo todos os dias. E assim aprendo e desaprendo como filho e como pai que sou. Que sorte. Que dádiva. Que bom, tão bom. Saiba eu estar à altura do que sou por dentro e defenda a vida como se acabasse de nascer por fora. Todos os dias. Um dia de cada vez.

Sobre o autor:

Diretor artístico do Theatro Circo

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