Revista Rua

Paulo Neves

O intérprete da natureza
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira4 Junho, 2018
Paulo Neves
O intérprete da natureza

É um homem que se refugia na imensidão da natureza e traz-nos essa sua visão através de obras imponentes, marcadas pela coerência da sua mão de artista. Reconhecido pelo seu jeito simples, que esconde uma aura artística complexa, Paulo Neves é natural de Cucujães, uma freguesia do concelho de Oliveira de Azeméis, e apontado como um dos melhores escultores da sua geração. Até 24 de junho, a obra de Paulo Neves está visível em três espaços icónicos da cidade de Braga, numa exposição sob alçada da zet gallery (anteriormente intitulada galeria shairart dst).

“A personalidade artística de Paulo Neves cruza-se com o que conhecemos da sua biografia. Natural de Cucujães, freguesia do concelho de Oliveira de Azeméis, fez sempre questão de se manter ligado à terra e é no silêncio do carvalhal da sua propriedade que a imaginação e a transpiração dão aso a uma produção intensa e regular que já é marca do espaço público em Portugal continental e ilhas, mas também de Angola, integrando coleções das mais prestigiadas em Portugal, Angola, Espanha, Bélgica, Brasil, Itália e Alemanha, destacando-se o Museu Biedermann, pela afirmação e crescimento da Alemanha como player fundamental no mercado de arte contemporânea do século XXI. Exposições são mais de uma centena, com a primeira individual em 1980 e a primeira coletiva em 1985”. Através destas palavras da curadora da zet gallery, Helena Mendes Pereira, apresentamos Paulo Neves, um escultor com um repertório rico, diversificado, mas com um elemento sempre presente: a natureza. Nascido em 1959, Paulo Neves criou um “vocabulário formal e compositivo” que se mantém nas obras em madeira, pedra, ferro e nas variações em materiais plásticos e sintéticos, atribuindo-lhe um lugar já cativo no panorama artístico português. Assumindo um compromisso com a escultura como forma perfeita de marcar a sua intervenção no mundo, Paulo Neves faz arte da natureza, como quem faz brotar da terra o alimento que o constitui por dentro. Envolvido na exploração destes elementos, destes componentes da natureza, Paulo Neves carimba respeito e instiga limites, quase que gritando que olhemos, que paremos, que imaginemos. É esse convite a olhar, a parar e a imaginar que a zet gallery estende a cada um de nós, até 24 de junho.

A exposição Os Instantes da Matéria traz a Braga um imponente portefólio de obras em madeira e ferro de Paulo Neves, visíveis em três espaços da cidade: a zet gallery, o jardim do Museu Nogueira da Silva e a Basílica dos Congregados, apresentando assim um verdadeiro circuito de arte contemporânea: as obras em madeira são o ex-libris da exposição visível na zet gallery, as esculturas em ferro marcam presença no jardim do Museu Nogueira da Silva e as duas peças de cariz religioso são protagonistas na Basílica dos Congregados, bem no coração da cidade de Braga. “Excluímos a pedra pois em Braga já o encontramos em pedra e interessava mostrar as dimensões menos conhecidas, talvez menos comerciais, em que se evidencia a dimensão cenográfica da sua obra e, também, o seu alfabeto formal, revestido de um pleno domínio técnico. Paulo Neves é escultor. Não poderia ser outra coisa. Quisemos que este escultor fosse o circuito de Arte Contemporânea de Braga, pelo menos por uns instantes, por umas semanas”, explica Helena Mendes Pereira. “O espetador deve percorrer a mostra como se de uma pista de obstáculos se tratasse. É o belo sobre as paredes brancas e a luz homogénea do espaço de exposição, é a simplicidade do figurativo sobre as artimanhas e o exagero do barroco e é a robustez do ferro na delicadeza do jardim ordenado que se esconde no museu”, garante a curadora.

Quem é Paulo Neves?

Troncos, anéis, escadas, rebentos, ninhos, anjos, painéis, santas, rodelas… São imensos os exemplos de uma vida cheia de arte presentes nesta exposição de Paulo Neves. Mas, afinal de contas, quem é Paulo Neves?

Estudou Pintura na Escola Superior de Belas Artes do Porto, hoje reconhecida como FBAUP, mas as suas mãos escolheram a energia da escultura como forma de intervir no mundo. Entre 1978 e 1981 teve a oportunidade de conviver e trabalhar com vários artistas europeus e, esses três anos de experiência em viagem, recolhendo aventuras em vários países, foram determinantes na sua construção enquanto indivíduo e na descoberta do seu eu artístico. “Arquiteto de formas, aprendeu cedo a ler as entrelinhas do meio e da matéria, em instantes de criatividade e domínio de força gravítica, porque nos custa a compreender a perfeição daqueles sulcos, daquelas arestas, a compreender como distinguimos emoções naqueles rostos dos anjos. Paulo Neves não tem complexos e talvez seja por isso que muito cedo o seu trabalho galgou fronteiras, geográficas e de apreensão pelos públicos”, conta Helena Mendes Pereira. Explorando novos materiais ao longo dos últimos anos, as obras do escultor português também mostram influências de temáticas sociais e até politicamente delicadas, mas trabalhadas de uma forma intensa: um exemplo desta narrativa é a obra inaugurada em 2017 no Funchal, assinalando o luto um ano após os incêndios que devastaram a ilha da Madeira. Esta peça, apelidada de Aflição, recorreu a um cedro do Parque Ecológico do Funchal que resistiu a um fogo florestal em 2010, mas acabou por “morrer” em 2016. Com uma carga emocional distinta, esta peça simboliza um anjo que pede ajuda a Jesus. “Desta série, a zet gallery interpele os públicos, à chegada, com um tronco de madeira de eucalipto queimado. Paulo Neves não é nem nunca será indiferente à natureza, aos seus paraísos e infernos”, descreve a curadora da galeria.

Aproximando-se da temática religiosa na última década, o escultor tem produzido um vasto leque de obras que fazem “uma interpretação iconográfica, por um lado, do ideário católico, como também inovam nas possibilidades estéticas dos elementos eucarísticos”. “Quando lhe falei da exposição e da ideia de a sua escultura invadir Braga, imediatamente me falou do tema do sagrado que, entretanto, lhe interessara e da vontade que tinha de aumentar o número de intervenções em espaços de culto, prática que marca o seu currículo nos últimos anos”, afirma Helena Mendes Pereira. Neste registo, é de crucial pertinência conhecer a Capela da Senhora das Neves que Paulo Neves ergueu na sua propriedade, exaltando os Cristos, confessionários, pias batismais e púlpitos.

“Conhecemo-nos em 2013, no seu atelier. Apaixonei-me por tudo aquilo que via e esperei quase cinco anos pela possibilidade de lhe organizar uma exposição individual com a pompa que me pareceria merecida. O Paulo é dos convívios à mesa e da simplicidade. É escultor de fábulas perdidas. Em Cucujães escreve resenhas com as suas obras que se deslindam no surreal, no hiper-real, da imaginação de cada um, na disposição para ver. Impressionou-me aquele cubo de tronco sobre tronco, como uma escultura em macro escala cheia de mundos dentro. Compreendi que não era possível conhecê-lo sem mergulhar no seu universo onde, honestamente, me apetece sempre estar”, revela a curadora da zet gallery.

Paulo Neves, este eterno intérprete da natureza que crava na sua escultura a permanência de um mundo que morre aos poucos, como uma árvore que chega ao fim da vida, está em cada instante da matéria, até 24 de junho, na cidade de Braga.

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