Revista Rua

2018-08-06T11:38:48+00:00 Opinião

Praia, gelados e Economia

Economia
Sílvia Sousa
Sílvia Sousa
6 Agosto, 2018
Praia, gelados e Economia

Houve um tempo em que as minhas férias grandes eram mesmo muito grandes, com idas frequentes à praia, na Costa da Caparica. Os meus avós maternos moravam na margem sul e, vivendo em Lisboa, era conveniente. Na altura, as praias do Rei, da Rainha, Morena, Sereia não tinham quaisquer apoios de praia e o estacionamento era ao longo da estrada de terra batida e areia, com sorte parcialmente à sombra e sem nenhuma roda ficar atolada.

Mal chegávamos, percorríamos o areal até à água de onde saímos meio roxos, a tremer e com os dedos enrugados. Recordo-me apenas de uma preocupação – memorizar a localização do chapéu de sol, onde, nas raras vezes que nos acompanhava, se encontrava sentada a minha avó Xica que, mal nos avistava, pegava numa navalha e cortava fatias de pão alentejano que nos estendia juntamente com nacos de queijo de cabra curado, a mesma navalha que serviria para cortar talhadas de melão ou melancia.

Este era o tempo que passávamos nas toalhas, ouvindo ao longe os pregões dos vendedores de gelados e de línguas da sogra que percorriam, incansáveis, as praias. Também havia vendedores de bola de berlim, na altura, transportadas em cestos de verga e servidas em pedaços de papel manteiga. Não sei se se venderão bolas de berlim em praias que não as portuguesas, mas a venda de gelados nas praias é universal e a Economia não é alheia a tal fenómeno.

“Para o consumidor, claro está, melhor do que os vendedores estarem localizados na posição socialmente ótima, é mesmo eles percorrerem a praia, anunciando os seus produtos com pregões que, por momentos, nos tornam novamente crianças”

Aliás, a teoria económica propõe-nos o modelo de Hotelling (1929) que nos transporta para o imaginário estival de praia e gelados, propondo uma resposta relativamente à localização ótima de dois vendedores de gelados, ao longo de uma praia pela qual os veraneantes se distribuem de forma uniforme, assumindo um produto similar, preços regulados, custos de produção constantes, ausência de custos de reposicionamento, uma procura pouco sensível a alterações dos preços (inelástica) e custos de transporte assumidos pelos consumidores. Se, intuitivamente, poderíamos pensar que a localização ideal seria nas posições ¼ e ¾ da linha da praia, os resultados da análise concluem que, para maximizar o lucro, os vendedores tenderão a posicionar-se ambos no centro da praia. Este resultado, não sendo o mais intuitivo ou socialmente ótimo, será o que resultará da livre concorrência. Este modelo apresenta versões mais elaboradas com hipóteses menos rígidas, como por exemplo, a possibilidade de ajustar preços, de diferenciar o produto ou de entrada de novos vendedores de gelados no mercado. Contudo, a sua versão mais simples já ajuda a compreender a aglomeração de alguma atividade económica ou mesmo, alterando do contexto, o posicionamento ideológico dos partidos políticos.

Para o consumidor, claro está, melhor do que os vendedores estarem localizados na posição socialmente ótima, é mesmo eles percorrerem a praia, anunciando os seus produtos com pregões que, por momentos, nos tornam novamente crianças.

Sobre o Autor:
Economista, Universidade do Minho.

Partilhar Artigo:
Fechar