Revista Rua

2018-06-04T08:15:41+00:00 Opinião

Quando a paisagem não é só paisagem…

Economia
Sílvia Sousa
Sílvia Sousa
4 Junho, 2018
Quando a paisagem não é só paisagem…

A ideia de um destino paradisíaco sugere-nos paisagens, intocadas, selvagens e estrondosas, cujas fotografias teimam em não lhes fazer justiça, por não conseguirem captar a beleza e a grandeza daquilo que a natureza nos proporciona ao olhar. E o que vemos, desperta-nos todos os outros sentidos, tornando o desfrutar da paisagem, da natureza, uma experiência que, partilhada ou não, nos molda e nos preenche.

A esta ideia de paraíso associa-se a de raridade. O paraíso é escasso. De facto, praticamente não existem paisagens naturais, resultando a paisagem da interação entre o homem e a natureza, ao longo do tempo. Uma interação que afeta e é afetada pela paisagem, uma interação dinâmica e contínua, que transforma e reflete a história e a cultura dos lugares e dos povos que os habitam.

A importância da paisagem, dos seus ecossistemas e dos seus serviços pode expressar-se através do seu valor ecológico, sociocultural e económico. Este último, identifica a paisagem como um recurso e surge, por vezes, desdobrado em valor de uso e valor de não uso. O valor de uso, por sua vez, pode ser direto (o valor atribuível aos recursos naturais tangíveis de consumo direto, provenientes de ecossistemas ou paisagens específicas, tais como a água, a madeira, o petróleo ou outros) ou indireto (o valor dos serviços prestados pela natureza, tal como a despoluição do ar ou a depuração da água, a prevenção da erosão e a polinização de áreas ou parcelas agrícolas), enquanto o valor de não uso remete-nos para usos futuros ou para a simples preservação da paisagem para gerações futuras.

“A importância da paisagem, dos seus ecossistemas e dos seus serviços pode expressar-se através do seu valor ecológico, sociocultural e económico”

A valorização económica da paisagem não é contudo um exercício simples, implicando uma série de decisões arbitrárias e, logo, muitas vezes, controversas, que se traduzem em métodos alternativos, cuja sistematização nem sempre é possível atendendo aos objetivos do exercício. Ainda assim, foi desenvolvida uma sistematização, associando a valorização económica da paisagem aos serviços proporcionados pelos ecossistemas, considerando a possibilidade do valor desses ser perceptível ou não por parte das pessoas. Quando perceptível, propõem-se técnicas associadas às preferências dos indivíduos (declaradas ou reveladas) ou à valorização da transferência dos benefícios associados à paisagem. No caso do valor não ser perceptível, sugere-se uma valorização económica da paisagem baseada numa abordagem multidimensional assente, por exemplo, em indicadores ecológicos, na participação e envolvimento dos diversos agentes, numa análise multicritério de apoio à decisão, na construção de cenários ou na valorização do pagamento por serviços do ecossistema.

Recorde-se, contudo, que a relevância da paisagem extravasa o seu valor económico. O seu valor estético, histórico e cultural também importa, tal como o reconhecimento do Alto Douro Vinhateiro, como património mundial (UNESCO), ou do Sistema Agro-silva-pastoril do Barroso, como património mundial agrícola (FAO-UN), tão bem demonstram.

Sobre o autor:
Economista, Universidade do Minho

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